Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Eram às 5h e ela ainda não conseguia dormir.

“Preciso acordar às 7h para ir àquela entrevista de trabalho que meu tio arranjou para mim.”

Tinha 24 anos, mas parecia ter mais, bem mais. Era a mais velha de três irmãos. “Filha exemplar”, dizia sua mãe. “Poderia ser melhor”, dizia seu pai. Vivia para superar todas as expectativas que as pessoas tinham dela. Boa aluna, irmã que vivia para cuidar dos irmãos mais novos, namorada “certinha” que chegaria virgem até o casamento, estagiária que trabalha mais de 8 horas por dia para alegrar seus chefes…

Vivia para todos, menos para ela. Não era culpa sua, é que nunca aprendeu diferente. Desde que era bem novinha, tinha escutado todo dia que ela seria o exemplo da família toda. A mais velha de todos os primos. A primeira que iria para a faculdade. As decisões que ela tomasse fariam com que o resto da sua família seguisse o caminho dela ou não.

“Você sempre vai servir de exemplo para o resto, pode ser para bem ou para mal, você que decide.”

Você que decide? Mas nunca deram chance para ela decidir nada.

“Você vai aprender a tocar piano, vai fazer curso de francês, porque vai fazer faculdade na França. Vai entrar nesse curso de etiqueta, porque você precisa ser uma menina certinha. Vai fazer curso de ballet também.”

Todas as vezes que ela disse que não queria fazer alguma daquelas coisas, sua mãe chorava – não entendia o que tinha feito de errado para que sua filha não quisesse viver a vida que ela queria ter tido quando era criança.  Seu pai ficava puto – “eu não ligo se você quer ou não quer, eu já paguei aqueles cursos e você vai fazer, sim”. Seus avós ficavam tristes – “filhinha, você precisa entender que seus pais só querem o melhor para você… Eles se sacrificam tanto para te dar tudo.”

Ela cresceu assim, acreditando que os outros sabiam melhor o que era bom para ela. Quando seus amigos começaram a ir em festas e baladas, ela ficava em casa com seus pais. Todas as vezes que sentiu vontade de ir para alguma festa, seus pais falavam que essas coisas não eram para jovens. Que quando ela morasse sozinha e tivesse o marido dela, poderia ir naqueles lugares.

Quando ela devia escolher que faculdade queria fazer, quis convencer seus pais que ela queria estudar no Brasil mesmo. Tinha um curso de Moda que ela achava maravilhoso. Não teve nem coragem de propor estudar outra coisa além de Direito. Seu pai era advogado, o sonho dele era que a filha seguisse seus passos. Mas e os sonhos dela? Os sonhos delas foram ficando guardados em alguma gaveta, em algum caderno onde ela desenhava aquelas roupas que sonhava em criar.

Foi fazer faculdade na França, se formou com as melhores notas, começou a namorar um cara que a amava porque ela era virgem, e é tão difícil achar moças assim nesses dias. Ela era virgem não por falta de vontade, mas porque a vida inteira ouviu que mulher que dá na primeira noite não é para casar, ou que mulher tem que se dar ao respeito! Ela não entendia muito bem como se dar ao respeito tinha a ver com querer sentir um pau dentro dela ou não. Respeito para ela significava outra coisa e, inclusive, o fato de conhecer mais seu próprio corpo era um sinal de respeito, respeito com ela mesma, respeito com seus desejos e vontades.

De qualquer jeito, continuou virgem. Namorando um cara que era tão inseguro que precisava prendê-la porque não poderia suportar o fato de que aquela mocinha tivesse trepado com alguma pessoa. Um cara que era um completo babaca, que trepava com qualquer mulher que topasse transar com ele, mesmo enquanto ele namorava essa moça. Mas que, ao mesmo tempo, exigia que ela se mantivesse virgem até o casamento, se recusando a tocá-la, porque, vai que ela gosta e vai atrás de outros paus?

Mas eram 5h e ela não conseguia dormir, porque percebeu que tudo o que ela fez foi pelos outros, nunca por ela. Tinha 24 anos, e todos aqueles anos ela viveu para o mundo, para agradar, para ser aquilo que todos esperavam. Era isso que ela queria continuar sendo? Um fantoche que fazia o que os outros queriam? E então, com 24 anos, ela começou a viver para si.

Foi à entrevista por respeito a seu tio, mas foi sincera.

“Não quero trabalhar com direito, quero fazer outra faculdade, mas muito obrigada pela oferta.”

Largou aquele cara que traia ela – ela já sabia, mas achava que, já que ele a “amava”, devia continuar aguentando. O cara xingou, ficou puto, falou que ninguém a amaria como ele a amava. Ela teve medo, mas se apegou à decisão que tinha tomado e o largou. Se arrependeu algumas vezes, mas não voltou atrás.

Guardou dinheiro durante alguns anos e pagou sua faculdade de Moda. Ela estava começando a descobrir o que era ser feliz. Não ligava mais se seus pais se mostravam insatisfeitos com as decisões dela. Porque finalmente ela vivia para ela e para mais ninguém.

Conheceu um cara numa das baladas que ela foi. Ele convidou ela para sair. Saíram, conversaram durante horas, foram na casa dela e treparam. Ela não acreditava que tinha perdido esses prazeres da vida por medo do que os outros poderiam pensar. Nunca mais viu o cara, mas ela não se abalou. Ela se sentia viva. Ela sabia que ela era a única responsável pelas suas decisões, pelos seus erros, pelos seus acertos.

Continuou vivendo, continuou sendo feliz, claro, teve várias crises, dúvidas sobre se estava tomando ou não a decisão certa, contas para pagar e dinheiro curto e lágrimas derramadas, vezes em que ela achou que ia surtar e, claro, teve vezes que ela quis desistir de tudo. Mas aquilo que ela decidisse fazer ou não fazer seria decisão dela e de mais ninguém, e isso fazia com que ela fosse feliz.

 

Imagem: Pinterest

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