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Hoje eu acordei cedinho – coisa rara – e tinha um texto do Gregório Duvivier na minha timeline. Abri o link, não era sobre política. Era sobre ela, a Clarice, artista que eu adoro. Corri os olhos, me encontrei no texto, achei uma forma bonita de falar sobre o filme novo do casal e de mostrar, talvez, um lado dele de quem soube reconhecer um bom relacionamento que acabou. Fechei a aba. Vida que segue.

Uma hora depois a internet explodia em dois lados: gente idolatrando a imagem do escritor e pressionando uma possível volta do casal e gente pregando o escritor com todos os detalhes que envolvem a separação deles. No meio disso tudo tem a Clarice, que não pediu para ser posta à frente de ninguém nesse campo de batalha. E acredito que também não tenha pedido para ter seu relacionamento exposto assim pelo ex.

Duas coisas me chamam a atenção nessa história toda.

A primeira delas é o fato da gente se achar no direito de se meter num relacionamento que não é nosso, tenha ele acabado ou não. Eu não sei o que motivou o fim, eu não conheço o Gregório além da pessoa pública, eu não sei o que ele fez para ela nem ela para ele. Não tenho ideia de como era o relacionamento dos dois além do que eles expunham, não sei como ele a tratava, só sei de histórias que não foram contadas por nenhum dos dois. E cá entre nós: não me sinto no direito de invadir a privacidade deles.

Fiquei assustado com o tanto de gente dizendo que ele era incrível e o melhor namorado do mundo. Que ela deveria voltar correndo e valorizar aquele homão da porra. Sério, gente? Um texto bem escrito é capaz de fazer com que vocês construam a imagem de pessoas com quem vocês nunca conviveram na vida a ponto de opinarem na vida delas? Eu entendo a identificação. Todo mundo quer um relacionamento como o que foi descrito no texto, a tal coisa da idealização de um amor romântico. Daí todo mundo se esquece do que acontece por trás da tela do computador.

A segunda coisa que me chama atenção é a forma como ninguém se importou com a Clarice. Vocês conseguem imaginar que ela acordou na segunda-feira e seu nome estava nos trending topics só porque o ex resolveu fazer uma coluna – por mais bonito que seja o texto – expondo a vida do casal? Ela tá seguindo a vida dela, você não é ela para saber como ela se sente. Eu também não sou. Textos românticos encantam a gente porque nós somos um bando de frustrados atrás de amor de novela. Homens supostamente românticos encantam a gente porque estamos acostumados a ver canalhas machistas em todo lugar. Mas ninguém é Clarice, e ninguém pode se colocar no lugar dela para dizer o que ela tem que fazer, julgar o que ela fez, falar do Gregório como se ele fosse posto num altar.

No fim das contas, aquilo é só um texto mostrando uma visão romantizada de uma das partes do casal. Eu não tenho ideia do que acontece com eles, mas posso dar um leve pitaco: se acabou, teve lá seus motivos. E nós deveríamos estar muito mais preocupados em viver as nossas vidas do que projetá-las em ex-casais que não têm a menor obrigação de carregar nossas fantasias nas costas.

 

Leia o texto do Gregório -publicado originalmente na Folha de São Paulo.

“Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice

Conheci ela no jazz. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém tocando Cole Porter num subsolo esfumaçado de Nova York. Mas o jazz em questão era aquela aula de dança que todas as garotas faziam nos anos 1990 –onde ouvia-se tudo menos jazz. Ela fazia jazz. Minha irmã fazia jazz. Eu não fazia jazz mas ia buscar minha irmã no jazz. Ela estava lá. Dançando. Nunca vou me esquecer: a música era “You Oughta Know”, da Alanis.
Quando as meninas se jogavam no chão, ela ficava no alto. Quando iam pra ponta dos pés, ela caía de joelhos. Quando se atiravam pro lado, trombavam com ela que se lançava pro lado oposto. Os olhos, sempre imensos e verdes, deixavam claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.Passamos algumas madrugadas conversando no ICQ ao som de Blink 182 e Goo Goo Dolls. De lá, migramos pro MSN. Do MSN pro Orkut, do Orkut pro inbox, do inbox pro SMS.

Começamos a namorar quando ela tinha 20 e eu 23, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todas as séries. Algumas várias vezes. Fizemos todas as receitas existentes de risoto. Queimamos algumas panelas de comida porque a conversa tava boa. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Escrevemos juntos séries, peças de teatro, filmes. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles o Porta dos Fundos. Fizemos mais de 50 curtas só nós dois —acabei de contar. Sofremos com os haters, rimos com os shippers. Viajamos o mundo dividindo o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs. Aprendi o que era feminismo e também o que era cisgênero, gaslighting, heteronormatividade, mansplaining e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser casado com ela.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de “How I Met Your Mother”. Mais que no começo de “Up”. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ela? Parece que, pra sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido um filho, eu penso. Levaria pra sempre ela comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi o filme que a gente fez juntos —não por acaso uma história de amor. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado num filme —e em tantos vídeos, músicas e crônicas. Não falta nada.”

Imagem: Daniel Behr/Divulgação

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