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2018. Talvez não haja nada que este ano tenha me ensinado que não derive de uma evolução vagarosa que caminha junto de mim bem antes dele. Então como creditar a ele o mérito por isso? Não acho justo.

Mas se me perguntassem para quais processos ele contribuiu, acho que eu teria respostas.

O maior processo que tenho tido dentro de mim é o de respeitar a mim e aos outros. Porém, eu preciso explicar do que estou falando para não gerar interpretações equivocadas. É respeito pelos meus sentimentos e pelos dos outros, mas de que forma?

Bom, eu nunca achei que ninguém tivesse a obrigação de fazer nada por mim e isso continua igual. Mas há algum tempo tenho me dado o direito de reagir ao que me parece desproporcional.

“Como assim, gente?”

Todas as vezes que leio a palavra reciprocidade reviro os olhos porque me parece dizer respeito a alguém que só faz o bem se receber o bem. Ou seja, daquele que age pela recompensa, que o direito penal me ensinou que é aquilo que recebe após ao cumprimento de algo, ou pelo pagamento, que é recebido anteriormente. Então, parece-me de uma pequeneza absurda, de um egoísmo latente.

Do mesmo modo, parece tratar da imaturidade de ter que responder com o mal cada pequeno injusto que se sofre na vida.

E, nesse ponto, o Wikipedia pode rapidamente concordar em parte comigo ao dizer que

“[…] em psicologia social, reciprocidade refere-se a responder uma ação positiva com outra ação positiva, e responder uma ação negativa com outra negativa. Ações recíprocas positivas diferenciam-se de ações altruístas, visto que ocorrem somente como decorrência de outras ações positivas e diferenciam-se de uma dádiva social, visto que esta não é concedida na esperança ou expectativa de respostas positivas futuras.”

E nada obstante o meu senso de justiça seja o motor da maior parte dos meus sentimentos, não acho, de verdade, que o mal mereça qualquer resposta. E aqui eu penso em mal em sentido lato, isto é, extenso e não específico, que pode ser entendido como a conduta direcionada a causar mal, a negligência, falta de zelo para com o outro, etc.

Ao seu causador me basta saber que nesse mesmo mal ele está mergulhado. E que lide com isso. Que seu corpo se nutra do seu mal sentimento (e eu não estou praguejando, só acredito ser um processo natural) e me deixe fora dele, como diria o Ministro Luis Roberto Barroso do STF (o que já deve ser horrível por si só), e que a vida um dia se ocupe de lhe responder, mas sinceramente eu não preciso e nem quero estar ao lado para assistir.

A minha caminhada na vida me ensina a dispender o meu tempo com o que eu amo, com o que me comove, com o que me move, me excita, me ilumina, me alegra e me transborda. O resto não merece atenção, simplesmente.

E então 2018 me ensina o valor do desprezo.

Veja bem, eu não estou falando daquele desprezo rancoroso e covarde que nada mais é que uma mágoa fantasiada de superioridade. Estou falando realmente de, dentre toda a complexidade de acontecimentos que me circunda, eu dar atenção aos que me fazem bem. Aos demais, nada. Nada mesmo. Nem repulsa, raiva, ou sequer tristeza. Na-da. Um desprezo ressignificado, livre e leve.

E quando mal chegar a seu malfeitor eu espero estar inebriada de felicidade e ocupada demais com ela para perceber que ele aprendeu a lição. Se aprender, que ótimo para ele. Se não, que eu continue muito envolvida com pessoas melhores para me lembrar daquela existência.

E naquela menina que sempre achou que ninguém lhe devia nada mudou alguma coisa? Mudou.

Mudou porque eu sempre acreditei que, independentemente do que me fizessem, eu deveria ser boa e justa. Mesmo que eu me doasse unilateralmente.

“Isso mudou? Agora você é mais uma agente da reciprocidade?”

Não. Mas acho que, dada a desproporcionalidade da relação que me causa mal, é melhor que eu me ocupe em ser boa e justa com quem faz o mesmo comigo. E não é pela reciprocidade. Até porque, em sentido inverso, não me sinto no direito e não me dou o direito de ser ruim com ninguém, de prejudicar quem quer que seja. Porém, eu não preciso me ferir, me colocar na presença de quem não é bom comigo em busca de uma bondade canonizadora.

Sabendo que é impossível dar atenção, se doar, se empenhar e ajudar todas as pessoas da nossa vida, por que razão eu me ocuparia em fazê-lo justamente a quem nunca se dispõe em igual medida?

Veja bem, que fique claro: não se trata de negar ajuda. Ajuda se fornece até mesmo a desconhecidos – o que se faz por si mesmo, não pelo outro –, mas se refere a deixar de nutrir relações desiguais, de, comprando uma samambaia com outra pessoa, você seja a única a regá-la (vale destacar que no caso da samambaia, você a pega, leva para casa e continua regando porque a pobre da planta não tem nada a ver com a pessoa horrível que a comprou junto com você… hahahaha).

O mais importante é não dispender tempo e sentimentos (nem mesmo ruins, como os de raiva, frustração ou tristeza) com quem não se importa com os seus, apenas porque há como utilizá-los – o tempo e os sentimentos – com quem age de forma contrária.

É óbvio que isso também é um processo, é um aprendizado que se desenvolve. É preciso respeitar o seu próprio tempo. Ficou chateadx com alguém ou alguma coisa? Fique, passe por isso. Converse e tente resolver se quiser. Se não quiser também, não resolva. Sabe quem é a pessoa que resolveu todos os problemas da sua própria vida? Isso mesmo, ninguém. Então por que motivo eu seria a primeira?

A chave para mim tem sido não destruir minha saúde mental ou os processos pelos quais preciso passar para evoluir, mesmo que a desculpa seja a própria saúde mental. Não usar receitas de bolo quando o assunto for auto-respeito. Exceto se estivermos falando de um profissional qualificado, se alguém diz que é preciso resolver alguma coisa, é importante se consultar para saber se realmente é, se é isso que se quer e se esse é o tempo de se mover por esse motivo. E ótimo se for. Se não for, respeite o seu processo.

Ninguém me deve nada. Mas se algo que me fazem ou que deixam de me fazer me machucou, tudo bem, vamos lidar com isso.

Apenas não deixo de me conduzir racionalmente e aos pouquinhos me concentrar nos meus bons momentos, naqueles que se querem fazer presentes (no sentido de presença, de tempo e de dádiva). E viva o desprezo real e vazio, que me deixa mais leve em relação aos antigos sentimentos ruins que ocupavam espaço e pronta para receber e cultivar o que há de melhor à minha volta.

Obrigada a 2018 pela contribuição e às pessoas que me ajudaram a entender a minha necessidade de selecionar meus sentimentos, seja porque me fizeram bem, mal ou não se importaram durante todo o ano. Esse amadurecimento que vem se desenvolvendo importa, me acrescenta e me permite ser mais feliz. Então, é tudo válido. É tudo bom afinal.

Que 2019 venha cheio de mais sentimentos, amadurecimentos e bons momentos.

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