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Menino veste azul, menina veste rosa.

Essa frase, proferida pela Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, do atual governo, causou uma reviravolta na internet nos últimos dias. A internet estava dividida entre pessoas que refutavam o que a ministra havia dito, e entre outras que achavam absurdo internautas considerarem homofóbico e preconceituoso o discurso de Damares, uma vez que a grande maioria já havia feito/celebrado/participado de chá revelação, evento em que os pais revelam o sexo do bebê, através de um bolo (entre outros) com cor rosa para indicar que é menina, ou azul para indicar que é menino, ou situações similares.

Nesse texto eu vou explicar o porquê a frase de Damares foi sim descriminatória e porque essa justificativa não faz sentido e nem torna hipócrita quem a criticou por sua fala.

Para começar vamos nos familiarizar com um termo muito citado em pautas sociais mas nem sempre explicado para entendimento geral, que é o termo: problema social estrutural. Que se enquadra no caso em questão: a homofobia.

O que seria uma estrutura social? E porque isso seria um problema?

“A estrutura social refere-se à colocação e à posição de indivíduos e de grupos dentro de um sistema, partindo-se da constatação de que os membros e os grupos de uma sociedade são unidos por um sistema de relações de obrigação, isto é, por uma série de direitos e deveres, aceitos e praticados entre si.”

Simplificando, estruturas sociais são basicamente a forma como nós nos organizamos desde que a sociedade foi se formando até os dias de hoje, e são chamadas de estruturas porque define a hierarquia dentro da sociedade, além de que não são momentâneas, mas sim constantes e contínuas. Ou seja, os hábitos, conceitos, morais, costumes, status, funções etc. que aprendemos a reproduzir e vamos passando de geração para geração são estruturas que vão se formando, vão se fortalecendo e se enraizando na nossa vida, nosso dia a dia, nosso lar, ou seja, na sociedade como um todo.

Então, quando falamos a respeito de problemas sociais estruturais, estamos nos referindo a algum conceito ou algo que veio sendo construído há muito tempo e já está enraizado entre nós, de forma que prejudique, diminua, marginalize, oprima ou exclua algum grupo. Geralmente se tornam muito difíceis de reverter, uma vez que uma sociedade inteira aprendeu que aquilo era o certo e acostumou-se a pensar daquela forma.

Problemas estruturais costumam se alastrar e se tornar maiores do que são inicialmente, pois segundo Raymond Firth, no livro Homem e Sociedade, considera-se uma estrutura social a ligação das partes que compõem o todo, “o arranjo no qual os elementos da vida social estão ligados”.

Podemos dar como exemplo, o racismo, que também é um problema estrutural e começou a desenvolver-se quando a Europa iniciou sua caminhada em direção à conquista econômica e tecnológica sobre o mundo, resultando na escravidão. Mesmo após o seu fim, acarretou em outros problemas como desigualdade social, exclusão dos negros nos padrões sociais, pré-conceito/racismo.

Podemos até subdividir esses problemas como camadas de cebola, onde podemos citar a hipersexualização da mulher negra, índice altos de negros analfabetos e minoria nas universidades/faculdades, maior índice de detentos em presídios, gravidez indesejada na adolescência, maioria moradores de periferia, mortos por policiais, etc.

Olhando por esse prisma, e entendendo o que é um problema estrutural, conseguimos perceber quão injusto é falar sobre meritocracia, principalmente no Brasil que é um país onde, embora estejamos caminhando, ainda estamos muito longe de vencer vários problemas relacionados ao racismo.

Agora voltando a frase de Damares…

Menino veste azul, menina veste rosa

Sabemos que ela gerou polêmica, pois felizmente também estamos caminhando, em relação ao combate à homofobia, e muitas pessoas já têm interesse em entender e discutir sobre ideologia de gênero, homossexualidade, dentre outras pautas. Se pegássemos a frase em um contexto excluído e a analisássemos sozinha, poderíamos dizer que é apenas uma maneira retrograda e antiquada de pensar, por acreditar que rosa é uma cor para meninas e o azul para meninos, como nos ensinaram há muito tempo atrás, certo?

Contudo o problema está no significado contido nas entrelinhas, analisando outros discursos de Damares, podemos ver claramente que ela vê a homossexualidade como algo anormal e errado, então para um bom entendedor uma frase basta. Obviamente ela quis dizer que meninos não devem usar roupas e acessórios que a sociedade classifica como feminino, e vice-versa, que meninas não devem se portar com trejeitos que a sociedade julga inadequados para seu gênero, e vice-versa, e finalmente, que meninos não devem se relacionar com meninos e nem meninas com meninas, fazendo uma referência negativa aos homossexuais, transsexuais, transgêneros e toda a comunidade LGBTQ+.

O que nos preocupa é que Damares é Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e se declarando contra classes minoritárias, que realmente precisam de segurança e atenção, quem ela irá defender? A classe opressora? Sem contar que como ministra ela possui uma influência muito grande sobre toda a nação, e destilando preconceito e descriminação como ela faz, só ajudará a propagar mais destes.

Em relação à hipocrisia apontada por algumas pessoas, referente aos que se indignaram, que usaram como o justificativa o fato de muitos de nós associarmos essas cores aos gêneros, em outras ocasiões de nossas vidas, preciso lembrar que quando falamos de um problema estrutural, estamos falando de algo que atinge até mesmo a você que está lendo esse texto, a mim que estou escrevendo, a todos nós.

Nós fomos ensinados a pensar e agir assim, e vemos e ouvimos coisas como essa todos os dias. É muito difícil desconstruir essas ideias e embora tomemos consciência de que estão erradas, leva-se tempo para abolir totalmente certos hábitos, expressões, costumes e pensamentos de nosso cotidiano, então não vale julgar o coleguinha e apontar o dedo dizendo que ele já fez chá revelação com tema azul e rosa, é mais válido orientar.

Tradicionalmente relacionamos a cor rosa ao gênero feminino e a azul ao masculino por muito tempo, há pouco estamos quebrando esse paradigma, é normal que já tenhamos feito essa associação e até façamos ainda hoje de forma automática às vezes, isso não nos obriga a ficar calados diante uma situação como essa, onde uma pessoa com um poder de influência tão grande sai por aí falando coisas que podem prejudicar toda uma classe, e retroceder e atrasar todos os passos que conseguimos dar com tanto esforço rumo ao combate contra o preconceito.

Outra coisa importante é que a sua responsabilidade em acobertar ou ser conivente com quem pratica a homofobia, é a mesma que a do homofóbico. Então se você tem empatia e se preocupa de fato com os direitos humanos, entenda que ao dizer que quem criticou as palavras da ministra deveria ficar quieto por já ter errado também, você está dando carta branca à discriminação. Toda vez que a gente se cala, o preconceito vence.

Quando dizemos que o problema estrutural na sociedade se alastra e resulta em outros, podemos nos lembrar que todos os dias milhares de transexuais são mortos em nosso país, outros milhares vão para o mundo do crime ou da prostituição porque não têm oportunidade no mercado de trabalho, milhares de jovens são expulsos de casa por causa de sua orientação sexual, milhares de homossexuais são espancados simplesmente por serem quem são, e milhares de pessoas vivem infelizes o resto da vida por medo de se libertarem das amarras da sociedade.

Tudo isso graças a intolerância que é alimentada dia após dia.

Pode parecer uma frase simples, mas um problema estrutural começa de uma forma bem simples mesmo, como uma pequena rachadura em um apartamento que com o tempo pode comprometer e prejudicar a estrutura de todo um prédio. Não é mimimi, não é hipocrisia, é que estamos todos aprendendo a respeitar as diferenças uns dos outros a cada dia, diferenças que nos fizeram acreditar por muito tempo que eram erradas, impuras, sujas e feias.

Agora que não nos deixamos mais influenciar, e não engolimos mais tanto preconceito sendo empurrado guela abaixo, nós não podemos nos calar, temos que continuar lutando. Ninguém solta a mão de ninguém!

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