Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Alguém aqui imagina o que é viver o pré-aborto e ainda se preocupar com polícia?

Precisamos falar sobre o momento que antecede o aborto.

Sobre empatia.

Sobre compreensão.

Ouça o podcast:

Ou leia o texto na íntegra:

O aborto tá na boca do povo e na barriga das mulheres.

Tá na mente de todos e no coração partido das mulheres.

No coração empático de alguns e intestino egoísta de outros.

Todos discutem, julgam, atacam e defendem. Todos lembram de tecer considerações e esquecem do que se trata o aborto pra quem tem que fazê-lo. Para o sujeito da ação.

Aborto jamais será algo diferente de dor, sofrimento físico, psicológico e moral.

Me deixa deveras boquiaberta ver como pessoas – homens e mulheres – debatem a opção de abortar como se fosse a escolha de onde se vai passar as férias, do imóvel que se vai comprar ou da escola onde os filhos vão estudar.

Não se escolhe fazer aborto como uma opção positiva. Aliás, um aborto concretizado jamais foi uma opção escolhida.

É o oposto: a absoluta falta de opções.

Quem já fez sabe.

E quem não fez deveria saber. Ou, ao menos, imaginar.

Aborto é morte. Literal e metafórica.

É morte da alma de mulher que sofre pela falta de outra saída.

Nada chora mais que um útero curetado. Pela mãe que podia se ter sido, pela vida que podia se ter tido, pelo filho que se poderia ter amado. Nada dói mais. Quem não tem útero, creia.

Sendo assim, estamos entendidos: o aborto é ruim demais pra precisar de quem o demonize. Ele já é a perda metafórica de Paraíso e anojs. Entedemos que ninguém precisa ser lembrada do quão assustador é abortar.

Falta feminilidade na alma que não entende a maior questão de todas quando se fala em aborto: a dor de quem aborta. Antes de qualquer outro sofrimento, o maior pesadelo é de quem gerou um embrião e separá-lo de si. Entendidos até aqui?

Ou alguém imagina que seja uma tomada de decisão simples, como onde aplicar o dinheiro?

Alguém aqui avalia o quanto o chão se abre quando lemos o resultado positivo?

Sou mãe e sei o estado de êxtase que vivemos quando queremos ser mãe e lemos “positivo” num teste de gravidez. Éden. Sonho. Chuva de granizo de hormônios e emoções.

Todas, sem exceção, queremos viver édens cotidianos – homens que não assediem, que não machuquem, que não apequenem. Queremos édens diários na vida com filhos ou vida sem filhos (sim, é possível ser feliz sem filhos e sem culpas).

Acontece que as coisas ocorrem sem muita matemática. Regras falham, tabelas falham, camisinha fura, tesão grita (devemos melhorar nosso chip animal), vasectomia decepciona, homem some, bebida sobe, pílula esquece, torpor cega, erros acontecem.

Ou você aí nunca falhou como ser humano que é?

Se você não falha nunca, favor entender que existem pessoas que falham. Que escapolem, que se arrependem e que sofrem na carne por suas escorregadas. Se você falha diferente, aceita que nem todo mundo erra igual. E se você já falhou assim, tenta ser um humano melhor e entender que a saída encontrada pode não ter sido a sua mas deve ter respeitada.

Muitas vezes a dor moral e psicológica de ter que fazer um aborto se mistura ao medo de passar por uma cirurgia. Medo de sangrar muito. Medo de infecção. Medo de esterilização. Medo, medo, medo.

Pronto. Circo de horrores devidamente descrito. Todos concordamos.

Agora imagina ter que sofrer assim e ainda tem que ter medo de clínica clandestina, de falta de higiene, de condições adequadas para se realizar o procedimento abortivo e, o pior, medo de polícia.

Ainda por cima.

Você aí já teve algum medo parecido? Já viveu pesadelo igual?

Se teve, vai entender.

Se é uma pessoa destemida de tudo, faça o favor de compreender. O medo maltrata e mata.

Se pesquisarmos a palavra aborto e a palavra sofrimento, juntas no Google, em inglês, acharemos muitos artigos. Todos falando do sofrimento pós-aborto. Sim, falam do sofrimento da família, dos irmãos do bebê que não nasceu e, era o que faltava, da alma que não veio ao mundo. E a mulher que sofre? Oi?

Não se fala do sofrimento enlouquecedor do momento pré-aborto? Do momento desesperador de não encontrar saídas e marcar o procedimento? Do medo de tudo? Da falta de companhia e suporte? Da solidão da decisão de abortar?

Definitivamente precisamos falar sobre o momento que antecede o aborto.

Imagem: Stocksnap

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