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Outro dia, ao começar a ler o livro “O fio da vida”, da escritora Kate Atikson, me deparei com a seguinte pergunta: “E se tivéssemos a possibilidade de fazer tudo de novo e de novo, até afinal fazermos certo?”.

Após uma íntima e profunda reflexão, concluí que a expressão “E se…” que inicia a citação referida é composta por duas palavras aparentemente inofensivas, porém que quando conjugadas se traduzem em uma indagação angustiante e nostálgica. 

Isto porque o que sucede o “se” é um mundo ilusório quanto ao futuro, em que cabem todas as imaginações possíveis sobre a vida que deixou de ser concretizada.

Normalmente, o poder do “e se…” carrega consigo uma carga inconsciente negativa, uma procrastinação do fim e uma não-aceitação do presente, pois contém o sentimento de uma saudade idealizada e, por vezes, irreal.

E naqueles momentos em que o passado nos revisita surgem questionamentos acerca da incerteza da história do que poderia ter sido, se porventura as escolhas pretéritas tivessem sido diferentes, porém não foram.

Quem nunca se sentiu balançado ao reencontrar um antigo amor ou aquela pessoa que seguiu por caminho distinto, mas que por ironia do destino o sentimento permaneceu inalterado?

Ocorre que, no decorrer da vida, diversas opções válidas são postas ao nosso alcance. Em cada segundo há uma chance de mudar algo para sempre. No entanto, ao optar por uma escolha estar-se-á a renunciar as surpresas contidas no caminho oposto, justamente aquele não vivido.

Imagem: Freepik

E o não vivido sempre parecerá melhor, mais feliz ou menos imperfeito em comparação com a realidade, pois a sua imaginação argumentará de todas as formas necessárias para enganá-lo. O único problema é que nunca iremos saber o que teria acontecido em situações adversas, pois o tempo e as nossas decisões são irrevogáveis.

E se eu tivesse ligado no dia seguinte? E se eu tivesse dito que o amava? E se eu tivesse pedido desculpas?

E se…”

Durante a vida muitos serão os “e se” abandonados pela estrada, mas ficar aprisionados a eles equivale a simbolicamente morrer um pouco todos os dias.

A verdade é que a hipótese do que poderia ter sido, talvez algum dia, e não foi, está marcada pela impossibilidade. A impossibilidade de não poder voltar no tempo e escolher outro caminho, de não conseguir realizar o que se almejou e, principalmente, por aquilo que se deixou de sonhar. Não há dor maior do que a sensação de saudade do não vivido.

E essa dúvida irreparável nos assombra além do tempo, como perfeitamente descrito por Alberto de Campos, um dos heterônomos de Fernando Pessoa, no poema intitulado “na noite terrível”, pois “só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói”.

Eis, então, a insustentável inquietação do “e se…”. O indefinível remorso causado pela ilusão de querer ser o que não se é.

Portanto, mais importante do que pensar na quantidade de “e se…” guardado no coração, é valorizar o presente e entender que tudo aconteceu exatamente da forma como deveria para que você se tornasse a pessoa que é hoje, afinal somos o resultado das nossas vivências.

Imagem: Freepik

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