Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Semana passada, a Youtuber Jout Jout publicou um vídeo onde fazia leitura integral do livro A parte que Falta, de autoria de Shel Siverstein, escritor americano. O livro foi originalmente publicado em 1976. Agora em 2018, dada nova ênfase através do vídeo, a edição viralizou e comoveu muita gente. Como era de se esperar, o número de vendas disparou em muitas livrarias – e vem até continuação da história por aí. Se você não viu o vídeo, clique aqui. Se não está a fim de ver, vem cá que eu te conto.

a parte que falta - livro

No livro, o autor aborda algo sobre o qual muitas pessoas têm medo: o olhar para dentro de si. Autoanálise assusta, sim. E se você para e observa minuciosamente todos os seus cantos, obviamente vai encontrar lugares até então despercebidos que precisam de muita atenção. Lugares que você não visita por receio de acordar coisas difíceis, lugares que você ignora porque pode se afogar caso mergulhe um pouco mais etc.

A história é sobre conhecer-se e revelar-se para si mesmo. Sobre coragem. Sobre a existência de uma plenitude imperfeita que, até então, todos desconhecemos. Nascemos para o mundo com a ideia de que somos incompletos e de que, na vida, as coisas só ganham algum sentido quando encontramos uma metade/parte para nos construirmos como de fato devemos ser. Devemos?

Nas páginas que seguem, com poucas frases e desenhos com traços infantis, o autor nos entrega aos nossos mais intocados sentimentos. É com muita delicadeza e transparência que, a cada virar de folha, nos colocamos do avesso enquanto pensamos: qual a parte que me falta? Será que um dia vou ser completo? E se eu encontrar o que me falta e continuar faltando, vou sempre estar em busca do impossível? Porque vai sempre faltar, sabemos. Mas, como viveremos se nunca conseguiremos ser/estar completos?

No livro, a metáfora usada é a de um ser circular que rola por aí na busca de encontrar sua parte perfeita, triangular, como um pedaço de pizza. Pelo caminho, encontra vários pedaços que não se encaixam. Encontra até mesmo um encaixe que parecia perfeito, mas já era completo em si mesmo. Nessa eterna procura, em meio às andanças, consegue encantar-se com o mundo, o céu, os sons, a beleza natural de tudo o que existe e que parece inteiro, parte do todo, assim como somos cada um de nós. Com o percurso já mais adiantado, finalmente acredita ter encontrado a parte que lhe cabe. Todavia, não consegue, em conjunto, continuar a apreciar todo o resto que lhe destrancava o riso. E como tudo o que antes era encontro para alimentá-lo passa a estar longe dos seus olhos, ao invés de deixar-se minguar, resolve deixar a parte seguir e escolhe também seguir, entendendo-se parte do todo. Entendendo que ser parte é liberdade para estar e não se deixar nunca absorver.

Essa é minha interpretação. Na vida, todas as relações são complexas apenas por serem. A gente com o mundo, a gente com o outro e a gente com a gente mesmo. Essa última, definitivamente, é a mais paradoxal e indecifrável relação de todas. A parte que falta vai sempre faltar, e isso não é uma coisa ruim. Nos anos que vivi até aqui, aprendi que uma das coisas mais bonitas de todo o cosmos é a incompletude – a infinitude. O fato de nunca estarmos prontos, de nunca nos completarmos e estarmos sempre começando no outro. A cada nova relação, abraço, olhar, diálogo, a gente recomeça em alguém, em algum ponto, em um novo universo. A gente se encontra e somos devolvidos a nós mesmos. Somos todos partes. Partes de um inteiro que nunca se completa, pois o círculo dentro do qual vivemos não para nunca de brotar. E rodar. Somos infinitos dentro do espaço de tudo o que pode vir a ser.

A parte que falta “são” muitas. Às vezes você se nota sendo preenchido por algo/alguém que você nem imaginava precisar, mas te faltava. E você soma. Ao mesmo tempo, em processo um pouco diferente, você deixa ir algo que já não era assim tão necessário, porque aquilo que completava também precisa ir em algum momento. Nos refazemos o tempo inteiro. Quem eu era ontem já não é mais quem sou hoje. Tudo o que li, senti, respirei, olhei, amei, encaixou-se em mim. São agora partes. Estão aqui dentro compondo e costurando meus pedaços, para depois seguirem adiante. E entre todas as lacunas que ficam, coisas tão mais lindas chegam.

Percebeu a mágica? É o ir e vir. A liberdade. Todas as partes vêm e vão e retornam quando a gente precisar, porque é tudo cíclico. Tudo o que somos e precisamos está dentro da gente. Algumas partes chegam e acordam algum ponto esquecido. Outras fazem adormecer. O que vem de fora é adubo para todas as sementes que brotamos. O único hiato que existe entre o que temos e o que precisamos somos nós mesmos. Felicidade não é algo/alguém. Felicidade é construção interna, casinha nossa. Se alguém chegar, é para ser extensão. Ninguém é responsável pelo que você constrói, cada um é arquiteto de si.

A parte que Falta é a liberdade. Para sermos. Irmos e voltarmos, sem nunca perdermos o tom e, ainda mais importante, o dom. O dom de jamais nos terminarmos e de entendermos que a beleza maior de tudo é sermos partes do que ainda nem é. Mas será. E seremos.

Enquanto isso, sejamos.

Imagem: Reprodução / A parte que falta


Agora que você pode refletir um pouco mais sobre o assunto que tal responder essa pergunta do Clube?

@ load more