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O que você procura?

“O amor é um complexo fenômeno neurobiológico baseado em atividades cerebrais que desencadeiam sensações como desejo, confiança, prazer, felicidade e a sensação de recompensa – envolvida com mensageiros químicos. Ou seja, o amor, falando a grosso modo, é um sensação química-reativa do nosso corpo em relação a outro corpo (ou até a nós mesmos, narcisisticamente falando).”
Desejo de que? Prazer em que? Amor a que?

Nem sempre o outro corpo, objeto de seu amor, é alguém. Muitas vezes trata-se de amor a algo: um sonho, um modelo a ser copiado, um mito, uma tradição. Muitos e muitas amam, por exemplo, a ideia do amor como o melhor dos motivos para se construir juntos uma vida, para se casarem e terem filhos. É um amor ao futuro projetado que é incubado nas pessoas inconscientemente e até bem antes da idade de se casarem.

O amor pelos desdobramentos do amor é uma espécie de amor manufaturado – aquele que se apresenta incansavelmente nos mais diferentes tipos de mulheres e homens (desconfio que mais em mulheres pela maldita herança cultural “tenho-que-casar-e-ter-filhos-biológicos-a-tempo) repetindo um mesmo padrão de idealizações, vontades e planos.

Uma manufatura de um amor que deveria estar sempre em estado bruto.

Elas (e às vezes eles) não querem “qualquer” parceiro ou parceira, eles não se apaixonam por “qualquer” personalidade ou aparência. Tem que ser aqueles que atendam àquilo que mais amam: seus planos cultivados numa estufa afetiva desde antes da adolescência, muitas vezes. Esses planos nos homens geralmente incluem o abominável clichê “mulher pra casar” e “de família boa/conhecida” e na mulher é quase regra que o plano inclua homem com boa situação financeira e também, claro, de boa estirpe.

Em outras palavras, ama-se o sonho, pelo sonho, ama-se pelo futuro idealizado, pela projeção material da vida a dois e pelo que o outro ou outra vai corresponder. E acreditem os que vivem o amor manufaturado não acham que estão se enganando, eles acreditam nessa forma de amor como sendo o amor que entendemos nos romances.

Mas, afinal, o que é um amor manufaturado?

Eis a manufatura: é um amor com número serial quase, etapas de produção e execução, controle de qualidade e até garantia estendida, dependendo do caso. É o amor padrão, o amor ISO 9001.
Observo muitas mulheres ainda hoje tratando a relação a dois como networking, tem approach e investimento de tempo, saem pra jantar, vão a festas, fins-de-semana a dois, fotos românticas instagramizadas e planos de viagem.

Tudo tem que acontecer no tempo certo até… Começar a concretização do futuro planejado, ops, até começarem a falar de casamento. O casamento passa a ser o objeto da paixão que muitas vezes nem chegou a acontecer em carne-e-osso: cerimônia religiosa, decoração, dieta, vestido, maquiagem, padrinhos, lua-de-mel, iCasei.com.br, lembranças, DJ, chás, despedidas, apartamento, decoração, passagens aéreas, bem-casados… Serão eles bem casados mesmo?

Terão eles tempo para se preocupar com o sexo e seus últimos dias de glória total antes de começarem a morar juntos e transformarem a relação? Viver um amor manufaturado é como fingir orgasmo ou mesmo passar o dia em shopping center (shopping centers são todos parecidos, uns mais caros e outros mais populares, mas são a melhor representação da manufatura). Amor manufaturado é comer sashimi em fast food. É real, mas é de plástico. É meio comida de hospital, sabe?

O amor deveria ser único e anárquico. Deveria se preocupar com as afinidades do casal, pois é o que sobra no final da paixão (assim como falamos aqui sobre companheirismo). Deveria ter um fator X por semana ao menos. Deveria surpreender sempre, mesmo que com esforço mútuo. O amor tem que ser mais roots do que somente casar e ter filhos. Casar e ter filhos pode acontecer de maneira torta e fora do script e, ainda assim, funcionar divinamente. Se limitar aos padrão interior plasmado é ser prisioneiro de grilhões.

Paixão não é pra sempre. Amor sexual, muitas vezes, também não. Mas amizade é. Tentar desenvolver vínculos de parceria e companheirismo ao lado do tesão (ah, esqueci de mencionar que tem que ter muito tesão no start do amor) é sábio, consome tempo e, portanto, meu conselho é: gastem o tempo que seria investido no ritual festa-de-casamento-decoração-da-nova-moradia-enxoval-do-bebê-em-NY buscando exercitar a empatia de um pelo outro e fortalecer o elo que transcende o sexo entre os dois, a parceria verdadeira – é ela que segura a onda de dias de temporal matrimonial. Invistam em conhecer o corpo um do outro, em dar prazer um ao outro. Quantos sabem exatamente o número de convidados da festa ou o hotel da lua-de-mel, mas não sabem quais os carinhos e carícias que mais dão felicidade ao outro/outra?

Quanto ao futuro de porcelana das namoradas e namorados apaixonados, aí vai o segundo e último conselho: a vida a dois pode ser inacreditavelmente linda na cama velha do seu namorado ou num apartamento Airbnb. A vida a dois pode ser “duca” com uma mulher uns quilinhos acima do peso ou faltando a hora marcada na manicure.

Mais, ainda, o rito que unirá o casal pode ser uma festa para muitos (quem não adora festas) , num simples cartório, numa praia vazia ou até num banho a dois (um box espaçoso tá valendo).
Ritos são bonitos demais, mas devem ser mais sobre acelerar nossos próprios batimentos cardíacos do que sobre animar a festa de convidados beberrões e comilões. Sem falar que ir montado um espaço a dois pra morar no mesmo ritmo da construção da relação amorosa é bem mais gostoso e verdadeiro do que juntar dinheiro de convidados e padrinhos numa espécie de crowdfunding da casa nova, onde em pouco tempo nenhum dos dois lembrará quem deu o quê de presente. (Aliás, devo dizer que se me casasse hoje seria extremamente old school e pediria a cada um dos amigos que torce pelo casal que escolhe um presente que seja a nossa cara, se a cara vier muito torta, ok, eu troco, mas dinheiro em site da internet não. Ah, não mesmo!)

Enfim, amem almas nuas, corpos nus e mentes desprovidas de ideias prontas. Quem sabe juntos não desenham o melhor e mais duradouro futuro a dois? Afinal, como diz um amigo “o amor é lindo, a gente é que estraga casando”.

Imagem: Pinterest

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