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Dizem por aí – e talvez eu mesma possa comprovar empiricamente – que, embora cruel, a dor é sempre o melhor combustível para a criatividade. Eu gosto de coisas produzidas com dor. Elas são sempre mais viscerais. Mais sinceras. Mais factíveis. Batem melhor, acariciam melhor. Acho que é por isso que eu gosto tanto das canções da Amy Winehouse.

E da própria Amy Winehouse, sem sequer tê-la conhecido. Porque ela sentiu muita dor. E a dor, de certa forma, nos faz vulneráveis. A vulnerabilidade, por sua vez, nos faz carentes. E a carência, como não poderia deixar de ser, nos faz dóceis. Por trás das dezenas de tatuagens, do cabelo extravagante, da saúde problemática e dos relacionamentos doentios – com a fama e com o ex-marido, Blake Fielder-Civil – morava uma mulher dócil.

É isso o que Amy, o documentário dirigido pelo britânico Asif Kapadia e recém-adicionado ao catálogo da Netflix, escancara aos olhos do mundo. Que Amy era uma amiga querida, daquelas que mandam mensagens de voz carinhosas, que reclamam da saudade e da distância e que dizem “eu te amo” sem cerimônia. Que Amy era uma artista de extremo talento, daquelas que nasceram cantando, que improvisam o mais cabeludo jazz sem sequer fazer careta e que são capazes de compor um álbum cheio de obras-primas em uma única semana. Que Amy era uma filha presente, uma virtuose acanhada, uma amante devotada.

Amy, o documentário

Talvez, devotada até demais. O fato de que ela abusava de drogas lícitas e ilícitas – álcool, cocaína, crack e heroína são algumas das que figuram na lista – é de conhecimento público. O que pouca gente sabe é que, antes de ser abusadora, ela foi abusada. Artística e mercadologicamente, por um pai cuja ganância falava mais alto do que o senso de preservação da própria filha. E sentimentalmente por um companheiro que a amava, mas que inegavelmente desenvolveu com ela uma relação conturbadíssima e a usou como muleta para o próprio vício de drogas.

Se uma relação é problemática, é sempre culpa da mulher, que é louca, pirada, histérica. Ninguém deu a mínima para quantos compromissos Amy quis cancelar e não pôde, porque Micthell Winehouse, o pai que a fazia de galinha dos ovos de ouro, não deixou. Ninguém se interessou em saber o quanto Blake, namorado e depois marido, a puxou para o fundo do poço no mundo das drogas. Porque a gente não tinha dúvidas: Amy era a louca da história. Essa carapuça lhe caía tão bem… A drogada que vivia aparecendo publicamente com restos de pó nas narinas. A bêbada que, no palco, se sentava sobre as caixas de som e se recusava a cantar para o público que havia pagado caro só para ouvi-la. E por mais que seu olhar rogasse encarecidamente por ajuda – e que a gente percebesse isso –, era mais fácil taxá-la de insana, de promíscua, de traste humano.

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Eu disse que era encrenca

O que a mídia, por sinal, fez com maestria. Amy virou piada. Por ser viciada em drogas, por ser bulímica. Por estar doente. Ver Amy mal era o nosso prazer mórbido de cada dia, alimentado com êxito pela imprensa mundial. Dançar You Know I’m No Good na baladinha underground da Augusta, botar Fuck Me Pumps pra tocar no rádio do carro, sofrer ao som de Tears Dry, cantar Rehab no karaokê – a gente amava muito todas essas coisas que só a Amy pôde nos proporcionar. Mas a gente preferia vê-la sofrer. Apostar com os amigos qual o próximo show que ela cancelaria, rir da próxima foto vexatória dela que estamparia a capa dos tabloides sensacionalistas ingleses, torcer pela próxima luta que ela travaria com os paparazzi. Amy foi, durante sua carreira tão trágica quanto meteórica, um insumo e tanto para a sordidez da humanidade.

Quando ela se internava numa rehab e dava a volta por cima – como algumas vezes deu – a gente se entristecia um pouquinho. Ficávamos carentes de todo o espetáculo que sua vida desregrada e desgraçada nos proporcionava – afinal, a Amy de verdade era uma artista reservada, que odiava holofotes, flashes, cartazes, fama. Mas pra nossa alegria de urubu, ela vivia tendo recaídas. Uma pior do que a outra.

Até que Amy morreu. E muito embora a tragédia já fosse anunciada, muita gente se surpreendeu – de fato, ela já tinha estado muito pior. À época, especulou-se overdose de tudo: de heroína, de cocaína, de crack. O que ninguém desconfiou foi que Amy morreu de tristeza. Na verdade, ela morreu de parada cardíaca depois de ingerir muito álcool – sim, aquela droga bacanérrima e lícita que todos nós consumimos sem moderação, inclusive nossos imaculados pais. Mas Amy só ingeriu tanto álcool porque estava triste. Desesperadamente triste. Com a impossibilidade de estar ao lado de Blake, o amor de sua vida que, à época, estava na prisão. Com a falta de motivação para continuar fazendo a turnê do Back to Black – o que ela queria mesmo era se envolver num projeto de rap. Com a cruel invasão de sua privacidade por parte da imprensa. Com a fama e com todas as agruras que vêm junto dela.

E é assim que eu termino esse texto: triste, desesperadamente triste, rosto lavado por lágrimas. Seja ao cantar, seja ao tornar públicas sua vida e sua história, Amy sempre me levou às lágrimas, porque, melhor do que ninguém, ela representa a personagem de uma tragédia que poderia ter tido um final – senão feliz – menos triste. Amy é uma das 70 mil pessoas que morrem por ano em decorrência do uso de drogas? Sim, sem dúvidas. Mas antes de qualquer coisa, Amy foi vítima, em incontáveis níveis, da nossa estupidez. Da insuperável estupidez humana.

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Imagem: Pinterest

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