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O que você procura?

Você já ouviu falar no termo carga mental? Recentemente, a Hell Mother gravou um vídeo explicando direitinho o que ele significa (e que você pode ver abaixo), porém, achamos importante falar sobre esse assunto por aqui também. Isso porque, muito provavelmente, você sofre com ele todos os dias, mas não tem consciência sobre isso.

A carga mental nada mais é do que a responsabilidade de gerir todos os afazeres da casa e da vida em família. Você sabe como é isso: pensa no que está faltando na geladeira, quando é preciso fazer a faxina, se é hora de chamar o dedetizador novamente, quem vai fazer a mala do filho para a viagem, se o parceiro ainda tem camisas limpas e passadas no armário… Enfim, tudo o que engloba cuidar de uma casa e de uma família.

É por isso que as mulheres se sentem tão mais cansadas que os homens, diariamente. Enquanto eles apenas trabalham e voltam para a casa, as mulheres muitas vezes trabalham e ainda precisam se preocupar com todas as tarefas de casa e cuidados com os filhos, o que significa que elas mantêm uma jornada dupla: além do trabalho tradicional, elas têm um segundo emprego, repleto de outras responsabilidades.

A carga mental é uma consequência machista

Sim, a gente sabe que vocês não aguentam mais esse assunto, mas é exatamente isso que acontece. A ideia de carga mental não surge só quando casamos e vamos morar com o marido, ou quando temos um filho. Ela começa muito antes, quando as meninas são ensinadas a brincar de casinha e os meninos, de carrinhos.

Eles são os heróis, os aventureiros, eles podem tudo e têm o poder de conquistar o mundo. As meninas aprendem como cuidar da casa, a cozinhar, a brincar de boneca e fazer às vezes de mãe. É por isso que, quando crescemos, muitas vezes os homens não assumem tarefas em casa porque sabem que as mulheres vão dar um jeito de fazer tudo o que precisa ser feito.

É óbvio, porém, que esse nível de ocupação mental causa um cansaço generalizado. Enquanto o homem tem mais tempo para fazer coisas diferentes com os seus dias e finais de semana, a mulher precisa se preocupar com tudo aquilo que envolve a vida em família e abre mão do seu tempo livre para lidar com essas responsabilidades.

Se você duvida que isso é assim, nós temos dados para comprovar. Segundo uma pesquisa do IBGE liberada na última semana, os homens gastam, em média, 11 horas por semana com as tarefas domésticas. Já com as mulheres esse número pula para 20. São 20 horas na semana gastas cuidando da casa.

Esses dados explicam porque, por exemplo, as mulheres têm menos espaço no mercado de trabalho – como são as responsáveis pelo lar, elas não têm tanto tempo assim para dedicar a carreira, e isso gera um efeito cascata: elas são, historicamente, conhecidas por esse papel de gerente do lar e na hora de uma contratação uma mulher terá menos chances do que um homem, porque eles não precisam de tempo para essas atividades.

A solução não está só em dividir as tarefas

Ou jogar toda essa carga mental para uma terceira mulher, em situação menos privilegiada que a sua e que recebe um salário e benefícios menores do que você. Ou seja, contratar uma empregada pode, sim, ser uma solução prática, mas não resolve o problema que é estrutural.

E é por isso que só dividir as tarefas com a parceira não é a solução para o problema da carga mental. Porque, normalmente, o que acontece é a mulher precisar pedir para que o homem lave a louça ou faça a mala do filho para uma viagem ou limpe a cozinha. Nesses casos, ela continua como gerente do lar, encarregada de todas as responsabilidades, e o homem aparece nesse contexto apenas como um subordinado, um executor das tarefas delegadas.

O objetivo precisa ser o compartilhamento dessa carga mental, e isso é um processo de desconstrução dos dois lados. Primeiro, por parte dos homens, que precisam aprender a serem mais observadores e terem mais ideia de gestão dentro do lar: prestar atenção quando a comida está acabando, pensar nos legumes que precisam ser comprados para a semana, buscar uma escola de natação para o filho, organizar a dinâmica de férias, quando os pais seguem trabalhando, mas a criança está em casa… Enfim, compartilhar essa organização mental de gestão da casa.

Por parte das mulheres, a desconstrução vem a partir do momento que elas permitem esse compartilhamento e aceitam que nem tudo será feito do jeito que elas querem e aprenderem a fazer. Fomos muito treinadas, desde crianças, a como fazer todas essas tarefas e nos sentirmos responsáveis por elas, por isso, também precisamos aprender a aceitar a ajuda conforme ela vem e entender que o outro lado não teve o mesmo treino que a gente nesse âmbito.

Um quadrinho criado pela ilustradora francesa Emma (e traduzido pela equipe do Bandeira Negra), mostra exatamente como isso funciona: os homens vivem sob a premissa do ‘se você precisa de ajuda é só pedir’ e não da proatividade. Eles até apontam que algo precisa ser feito, mas não fazem (por exemplo, eles dizem que é preciso chamar o dedetizador, mas não ligam no lugar, fazem a cotação do preço, agendam e pagam o serviço). É um trabalho pela metade.

E é por isso que as mulheres se sentem tão cansadas, porque têm uma ocupação mental que as deixa exaustas além da correria do dia a dia, do trabalho e das preocupações comuns a todos. Mesmo se uma mulher for dona de casa em tempo integral, isso também não significa que ela é obrigada a ficar com essas preocupações na mente o tempo inteiro – ela tem o direito de descansar e de divertir, sem ficar com a mente focada em coisas que precisa fazer para a casa continuar em ordem.

Por isso é tão comum mulheres sofrerem de síndrome de burnout, a exaustão extrema que afeta a produtividade e a vida como um todo. Segundo Sheryl Sandberg, CFO do Facebook e uma das autoras de um artigo sobre mulher e o mercado de trabalho publicado pelo The New York Times no ano passado, existem 540 mulheres com burnout para 460 homens com a mesma síndrome.

Mudar esse cenário é uma questão de prática e exercício de desconstrução – mas é um fato que isso precisa ser feito para chegarmos em um patamar onde homens e mulheres são tratadas de forma igual. Esse mundo ideal não é desejável só para o mercado de trabalho ou para que as mulheres possam andar na rua sem medo, mas para criar um ambiente mais saudável para todos, em que trabalhar e cuidar da casa seja uma responsabilidade 100% compartilhada e não algo que recaia só sobre os ombros de um dos lados.

Foto de capa: Reprodução / Desperate Housewives

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