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Não posso colocar data nem horário, muito menos endereçar esta carta. Olho o calendário e ele pouco me diz. Os últimos meses são ambíguos, tive minha vida em minhas mãos por tantas vezes, e ao mesmo tempo que a abandonava, eu a agarrava. Algo existia, além das cartelas de remédios vazias e o vômito no chão. Eu queria pulsar mas a dor me paralisava.

Muitas vezes escrevi o meu adeus, sempre acompanhado de um pedido de desculpas. Pedido que me permitiu continuar a viver. Não poderia deixar outras pessoas serem consumidas pela dor que me consumia. Chorava, me virava do avesso e me segurava no colo, enquanto eu me fantasiava novamente com meu melhor sorriso e seguia pelo labirinto.

Oras, não foram tentativas de suicídios que eu tive, eu passei por inúmeras mortes neste processo. Matei partes dentro de mim que renasceram com diferentes facetas. Enquanto algumas partes morreram e se enterraram como raízes de novas verdades e sentimentos. Eu desafiei a morte, esse bicho de nome feio, por sorte eu ganhei!

Por vezes relutei escrever esta carta, eu que tenho casa, carro, família, amigos, emprego, estudos e comida na mesa, não me sentia no direito de me doer. Ingrata! Eu me julguei tantas vezes e não sabia o que mais me cansava, a mente ou o corpo. Respirar é cansativo! E no cansaço do caminho o mal do século me alcançou. A doença da alma, a doença de ricos, a frescura, a falta de Deus, o drama…

Pelo julgamento muitas vezes me calei, outras vezes esperneei por um socorro. Do modo avião ao não responder do meu corpo, deixei em luto meus pais e amigos. Eu vivi o meu luto, alma morta de corpo vivo.

Aos poucos ia percebendo que ao meu redor outras pessoas se matavam, abertamente ou em lutas silenciosas. Dor, medo, ansiedade, pavor, tristeza e choro! São palavras que estão no dicionário, mas são incapazes de mensurar  o sentir, sentir calado. Não há palavras para o ato de fazer a dor parar, a não ser a morte.

Foram as palavras, ah, as palavras! Ouvi muitas, palavras de força e carregadas de amor. Acredito que foram elas que me salvaram, as que eu escrevi e as que eu ouvi. Palavras que gritei chamando a morte, que eu agradeci por não terem desistido de mim, que me sussurram no ouvido que eu era capaz.

É minha morte, eu quis te antecipar, mas você foi generosa comigo e me fez cuspir todas as feridas e verdades que eu tenho. Escancarou os meus sentimentos mais profundos, deixou a mostra meus pontos fracos. Mas eu estou aqui, de pé, infelizmente não são todos que te vence. Continuo aqui, assim como todos que se reconstroem, se reinventam, dia a dia, numa constante procura por um sentido que talvez exista ou não…

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