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Você já viu isso acontecer algumas vezes: um casal tem um filho e a vida passa a girar em torno do bebê. Uma criança pequena exige esse nível de cuidado e atenção, mas há uma linha tênue entre o foco 100% voltado para a criança e um equilíbrio na dinâmica pais-e-filhos. Foi a partir dessa visão que a empreendedora Karen Kanaan pensou em um negócio que foca no desenvolvimento da criança, mas, principalmente, que quer facilitar a vida daqueles que cuidam dela.

Como a própria Karen explicou para o Superela, o objetivo da sua empresa, a Baby & Me, feita de produtos para a primeira infância, aparada por uma comunidade de mães que participa ativamente tanto da criação quanto da distribuição desses produtos, veio de uma necessidade surgida da própria experiência dela como mãe. A empreendedora teve dois filhos em um espaço pequeno de tempo – quando seu primeiro bebê, João, tinha seis meses, ela engravidou da filha, Maya. “Nesse processo, como eu escolhi ser mãe full time e não quis a ajuda de ninguém, eu pensei: ‘Não é possível não ter nenhum produto que me ajudasse nisso!’. Alguma coisa mais ligada à praticidade”, disse ela.

Pesquisando no exterior, ela percebeu uma diferença gritante em relação ao mercado brasileiro de maternidade: enquanto por lá era fácil encontrar itens que trouxessem mais facilidade para os pais e mães – uma ‘maternidade prática’, como ela mesma chamou –, aqui ela percebeu a falta dessa cultura e questionou se conseguiria trazê-la para o Brasil.

É possível perceber a importância dessa praticidade quando lembramos que, segundo dados do IBGE, o Brasil conta com mais de 1 milhão de mães solo, ou seja, mulheres que têm filhos, mas não contam com a ajuda de um parceiro presente na criação dessas crianças. A saída para muitas delas, que se veem em uma jornada solitária, é o empreendedorismo – mesmo sem a ideia de glamour em torno de abrir a própria empresa, elas recorrem ao trabalho autônomo para sustentar a casa. Aliás, de acordo a pesquisa “Quem São Elas”, feita pela Rede Mulher Empreendedora, 75% das mulheres passam a empreender depois de se tornarem mães, o que apenas comprova a grandeza desse cenário por aqui.

O empreendedorismo entre mulheres ganha ainda mais destaque no mercado brasileiro porque, conforme explica o IPEA, o Brasil conta mais 7 milhões de mulheres donas de micro ou pequenas empresas, um aumento de 34% nos últimos 14 anos. Quando olhamos para o mundo, onde acima de 50% dos empreendedores mundiais são do sexo feminino, percebemos o papel de peso que essas mulheres têm na economia mundial.

sororidade no empreendedorismo

Carol e Karen, da Baby & Me

Karen explica que essa praticidade é importante para reforçar a ligação entre pais e filhos, independentemente da situação familiar de quem cuida do bebê. Ela explica que certa vez estava na fila do táxi em um aeroporto quando o filho fez cocô. Ao invés de deixar a fila e correr atrás de um banheiro com trocador (e, vamos combinar, as condições de manutenção desses lugares nunca são as melhores), ela abriu um trocador portátil ali mesmo na fila, trocou a fralda do bebê, entrou no carro e foi embora para casa. “Os produtos têm essa característica de prezar pelo estado de presença, para que o trabalho não pareça um trabalho. Os vínculos são formados nessa fase, nos primeiros seis anos de vida da criança. O cuidado não pode virar um trabalho em que você não perca o estado de presença e a criança vire um estorvo”, explica ela.

Por isso, ela decidiu trazer essa cultura de praticidade para o Brasil, e ajudar outras como ela a terem uma rotina mais tranquila. A Baby & Me começou com produtos que focam no cuidador e não necessariamente na criança – ou seja, são itens que auxiliam na criação desses laços porque facilitam a vida de quem cuida, abrindo mais tempo na agenda para aproveitar todos os momentos e tirando da cabeça preocupações que estressam.

Karen entrou nessa jornada acompanhada de outra mãe, Carol Vaz, que teve uma ideia brilhante para a época do desfralde: ela usou os tapetinhos absorventes usados com animais de estimação para evitar a sujeira na cama nesse período de transição. A ideia de empreender já existia, mas Carol não tinha equipe para tirar a vontade do papel – Karen foi a cola que faltava para o projeto alçar a voo.

Karen também já tinha experiência no ramo – ela trabalhou por muito tempo na Endeavor, uma empresa que apoia empreendedores, e de onde saiu quando engravidou do segundo bebê. O histórico profissional foi importante para dar a base nessa nova etapa e um impulso para se diferenciar no mercado através de uma comunidade.

Essa nova rede de apoio se tornou o ponto principal do negócio: tanto entre Karen e Carol, que juntas começaram a pensar em soluções para essa falta de praticidade na maternidade, quanto de outras mulheres que surgiram no caminho, mostrando as soluções que elas mesmas encontraram para essas questões do dia a dia. Por isso mesmo, a Baby & Me é uma marca que tem uma linha própria (incluindo o tapetinho de desfralde, que virou um dos seus carros-chefes) e trabalha com revenda de produtos desenvolvidos por essas mesmas mães.

Com todo esse contexto em mente, percebemos como a sororidade – isto é, o auxílio mútuo entre mulheres – aparece como uma ferramenta de suporte ao empreendedorismo feminino. Para ter essa ideia de pertencer a algum lugar, as mulheres se unem em torno de uma causa comum e se ajudam no meio do caminho. Quando falamos de maternidade, já existem projetos voltados para ajudar mães que empreendem – a aceleradora B2Mamy é focada em negócios desenvolvidos por mulheres com filhos, por exemplo, e mantém uma parceria com a Baby & Me. Você pode saber mais sobre projetos que incentivam o empreendedorismo feminino clicando aqui.

Karen diz que o principal, porém, é lembrar no dia a dia de incentivar essas mulheres, e atentar outras pessoas para o fato de que essa cultura empreendendora existe e é benéfica. A nossa cultura não foi criada para olhar para mulheres com negócios, mas para um sistema 100% voltado para o sucesso masculino e as grandes corporações. “Isso é uma questão cultural – para muitas pessoas, pensar dessa maneira é até natural, principalmente quem está dentro desse universo de ser mãe. Mas fora disso, existe a questão de ensinar pelo exemplo”.

Isso significa que dar voz ativa e espaço para essas mães, como fez Karen, é essencial para que essa malha empreendedora cresça cada vez mais forte. Em um país onde 40% das famílias são chefiadas por mulheres (IPEA), as mulheres levam nos ombros uma responsabilidade dupla: de cuidar da família (uma função culturalmente imposta) e ainda sustentar o lar financeiramente – e essa jornada dupla pode ser extremamente solitária. Encontrar outras mulheres em posição semelhante, com quem possam compartilhar dificuldades e vitórias é um refúgio e um incentivo. “O que eu tenho vivido hoje dentro dessa comunidade, é que muitas mulheres que chegam estão felizes só por pertencerem e encontrarem afins. Você encontra um grupo que compartilha os mesmos valores”, finaliza.

assinatura Itaú Superela

Foto de capa: Pexels

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