Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Eu sempre achei que quando eu fosse contar algo sobre mim, o tom seria de comédia (uma comédia romântica, talvez?) A história da mocinha desajeitada e meio perdida, mas com algum tipo de talento, que deixaria de fracassar em um determinado momento (não sem ajuda das suas amigas incríveis ou do seu melhor amigo gay) e, claro, encontraria alguém que acharia os seus TOCs, neuroses e vícios um charme. Tipo “Que gracinha quando ela vomita bêbada no meu pé”, “Nossa, que maravilhoso é ter uma companheira instável e bipolar para compartilhar a vida” ou “Mano, eu fiquei muito orgulhoso do vexame que você deu na frente da minha família”.

Mas, obviamente, as coisas não transcorreram dessa maneira. E vamos combinar que aos 35 anos, um divórcio e vários relacionamentos terminados, eu já sou grandinha o bastante para saber que o “Felizes para Sempre” não existe. Isso não quer dizer que a felicidade não exista. Mas já não acredito mais nela como uma entidade. A FELICIDADE. Como um órgão protetor dos meus direitos de viver bem, ser equilibrada e estar sempre cercada de amor. Como um direito garantido.

Você acha que a felicidade é um direito garantido?

“Olha, vem chegando mais um bebê. Dá aí para ele um pacotinho de felicidade para a vida e manda ele se virar lá embaixo. Vai minha filha, vai ser feliz! ”. Se fosse assim, eu diria que o responsável por essa tarefa é alguém bem distraído e esqueceu de olhar para algumas pessoas. Ou, inclusive, para algumas partes do planeta.

Não. A felicidade é algo muito particular. Eu tenho uma amiga que fica muito feliz quando assassina mosquitos na raquete eletrônica. É uma sensação de euforia tão grande que ela chega até a suar. Eu fico um pouco assustada porque — enquanto persegue os mosquitos com raquete em riste — ela aperta os dentes e tira o cabelo da testa com passadas de mão contínuas. Pode ser um claro sinal de psicopatia? Talvez. Alguém com alto potencial para se tornar uma serial killer (ainda que de mosquitos)? Quem sabe! Mas ela é minha amiga. E eu a apoio. Mesmo nos seus momentos de Louca Obsessão. Porque ela está feliz!

Imagem: Prawny / Pixabay

Tenho outra amiga que fica feliz de passar longos momentos em silêncio com seu boy, com a cabeça apoiada no peito dele. Embora eles conversem bastante, eu já os flagrei com o sorrisão mais besta quando estão assim: juntinhos e calados… E, sem trocar nenhuma palavra, eles acariciam os cachinhos um do outro. Quase dá para pegar no ar a vibração de felicidade que se forma ao redor deles. Mas essa é outra coisa sobre a danada. Ela é efêmera. Quando você se dá conta, ela já foi embora. E outra coisa, é que ela é particular. Aquela felicidade é deles, não é minha.

Para mim, a felicidade é quando eu paro de surtar, não estou fazendo nada autodestrutivo, me sinto totalmente fincada no presente e minha alma relaxa. Sem pensamentos a mil, sem ideias mirabolantes, sem crises de ansiedade. Caramba, a felicidade tem que vencer muitos obstáculos até me encontrar. Não me estranha que ela tenha se afastado um pouco…

E de repente a felicidade se revela

Mas hoje mesmo eu tive um momento de felicidade inusitado. Eu estava na minha primeira sessão de terapia com um novo profissional. Eu já fiz terapia outras vezes. Sou macaca velha, meu bem. Olha pra mim, você acha que uma bomba-relógio como eu viveu 35 anos sem nenhum acompanhamento psicológico? Vou tirar isso de letra! Só que não!

Totalmente errado! Primeiro porque eu pensei em desistir de 12 formas diferentes no curto tempo-espaço de casa até o consultório. Diarreia, vomito, assalto, sequestro relâmpago, abdução, ameaça terrorista, algum familiar morreu, meu cachorro engasgou com a tampa da lata de atum, urticária, viagem inesperada, infarto, crise de ansiedade.

Bom, crise de ansiedade não era mentira. Expulsei todas essas desculpas ridículas da minha cabeça e cheguei lá. Com uma PUTA de uma crise de ansiedade. Depois abri todas as janelas do local, enfiei metade do corpo pra fora (de um 11º andar), sentei no sofá, tomei meio litro de água e comecei a chorar. O choro era por não encontrar mais nenhuma mentira para justificar porque eu estava ali. Eu sabia exatamente o motivo. E também já não conseguia mais acreditar que podia resolver tudo sozinha, porque já estava há muito tempo tentando. Eu estava devastada e sofrendo muito. E como eu cheguei ali no meio da loucurinha, suando, ofegante e com o coração a mil, não deu tempo de colocar a máscara. Eu não tive a chance de me recompor. Estava lá. De cara com o analista. Chorando.

Onde entra a parte da felicidade? Calma, vamos chegar lá. Ao longo da conversa com o rapaz, o meu batimento cardíaco voltou ao normal, a temperatura corporal também, consegui recuperar a minha voz e, por um momento, eu me senti feliz. Depois de uma crise de ansiedade. Depois de chorar. Depois de querer fugir mil vezes. Eu tinha feito algo bom pra mim. Tinha dado um passo importante. Por que não aceitar o absurdo da esquizofrenia sentimental e abraçar a felicidade? Aquele era meu momento.

“Com licença, eu vou ficar um pouquinho feliz aqui e já volto a surtar, moço. Pode ser?”

Não seja o seu pior carrasco

Acho que ainda não falei o real motivo da minha ida à terapia hoje, não é mesmo? E aí voltamos ao começo da história, quando eu disse que sempre me imaginava como protagonista de uma comédia romântica. Eu tinha certeza que seria assim, mas de repente a vida ganhou tons mais dramáticos. No lugar da música pop animada e ruim, veio a angústia e o quarto escuro e vazio. Em vez de coreografias ensaiadas, tombos e tropeços que me deixaram cicatrizes eternas. O grande amor? Descobri que passei muito tempo olhando pra mim mesma pra ter vivido um AMOR de verdade. A vilã era a pior pessoa que eu poderia encontrar no meu caminho. Aquela que sabe tudo sobre mim. A mais canalha e cruel de todas: EU mesma.

E olha como eu pareço inofensiva…

E foi então, que em uma dessas voltas para casa pós bebedeira, veio o metrô. Uma luz muito forte me atraindo para os trilhos, um impulso grande de me jogar e a sensação de que aquilo era o melhor que eu poderia fazer por mim mesma. Eu fechei os olhos e quando estava prestes a me entregar, já sentindo o vento do primeiro vagão se aproximando, ainda de olhos fechados, eu pensei nos meus pais. Como eles reagiriam se tivessem que ir buscar o cadáver da sua filha no metrô? “A sua caçula se jogou na frente do metrô”. A filha que tanto recebeu amor, que tanto ama seus pais e a sua família. A filha que todo mundo pensa que é forte e corajosa, mas que desistiu de lutar. E depois que eu me afastei da frente da fila e fui para o fundo pensar no que tinha acabado de acontecer, eu me dei conta que havia alguma coisa muito errada comigo.

Você sabe quando tem algo muito errado acontecendo aí dentro

Uma mulher de 35 anos, saudável, com bases sólidas para construir a sua vida, que sempre viveu intensamente, só não se matou por causa dos seus pais. É só isso que me mantém aqui nesse plano? A minha vida se sustenta por isso? Não é possível que eu não queira mais de mim.

Foi então que eu me rendi. Já está na hora de me encarar e cutucar uma ferida que eu levei disfarçada de tatuagem por muito tempo. Eu estou pronta para falar de ansiedade, depressão, vícios. Falar de tendência suicida. Falar de padrões de comportamento autodestrutivos. Abrir esse espaço para diálogos sinceros sobre as dificuldades da vida (a foto bonita e a legenda espirituosa a gente deixa para os influencers/coachs).

Imagem: Pixabay

Logo que marquei a minha primeira sessão de terapia sabia que teria que mudar minha rotina para abandonar velhos hábitos ruins. Eu já inventei um milhão de desculpas e justificativas, mas o fato é que não se chega a novos lugares fazendo os mesmos caminhos. Êh clichê ordinário, mas super verdadeiro. Foi aí que pensei em fazer O Ano do Novo e contar por aqui minha jornada de transformação.

Você vem comigo?

Imagem: Unsplash

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