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Quem vive nesse planeta chamado internet com certeza já ouviu falar de lugar de fala. O termo é hiper recorrente nas conversas (e brigas do Facebook) sobre feminismo, por exemplo, ou sobre racismo e homofobia. Se discutir esses temas já não é fácil, imagine falar sobre o próprio lugar de fala. Querendo ou não, é desconfortável falar sobre algo que pode ser tão facilmente não compreendido e usado para gerar ainda mais conflito.

Desconforto porque existe um acordo velado que diz assim: quem não é negro não pode falar sobre racismo. Quem não é homossexual não pode falar sobre homofobia. Quem não é mulher não pode falar sobre feminismo. E tudo isso sob o tal discurso de local de fala. Na era do politicamente correto, dar uma opinião virou uma questão complicada porque podemos, a qualquer momento, cair para o lado errado da luta social, mesmo que o nosso coração tenha a melhor das intenções.

Antes de mais nada, um pouco sobre lugar de fala

Se você não tem ideia do que é lugar de fala, não tem problema, a gente explica. Lugar de fala é quando não existem mediações em um diálogo, a pessoa oprimida fala por si mesma e sua experiência é legitimada e levada em consideração. Ou seja, se uma mulher negra fala sobre o preconceito e o racismo que ela passa diariamente por ser negra e mulher, essa visão de mundo tem o seu valor na conversa. A mesma coisa para uma mulher lésbica ou transexual.

Até então, existia apenas um tipo de voz que tinha força na nossa sociedade: a do homem branco. Historicamente, ele é dominador e opressor e o passar das décadas nos mostra como essa cultura criou um sistema que não vê as minorias como importantes e deslegitima as suas vozes. O objetivo do feminismo e até dos movimentos de militância negra, em parte, é a recuperação desse poder de fala. Entra aí esse termo tão usado na internet (e fora dela também).

O termo não pode ser desculpa para o silêncio (ou mais opressão)

Depois de ler muito sobre o assunto, a conclusão que eu cheguei é o que esse termo tem sido usado também como mais um mecanismo de opressão. A gente sabe que isso não é incomum, e é muito normal a gente se abster de falar qualquer coisa sobre qualquer assunto com a desculpa de ‘não é nosso local de fala’. Ou ainda julgar e brigar com outra pessoa que está expondo o que pensa sobre um tema, dizendo que ela não está no local de fala dela. Existem casos e casos, claro.

A ideia por trás do conceito é dar espaço para todos os lados compartilharem as suas experiências sem que elas sejam desconsideradas. É a tal da empatia: você abre espaço para entender a visão de mundo do outro e aprender o que puder com isso. Em resumo: uma única pessoa (o homem branco) não é mais ‘responsável’ por dizer o que importa ou não na vida de um homem negro ou de uma mulher LGBT+. Essas pessoas têm a capacidade e o espaço (físico ou virtual) de falarem por si mesmas.

local de fala
Não é difícil entender o seu local de fala

Isso não significa que as suas experiências e visões sobre um assunto também devam ser consideradas. Uma mulher hétero pode não saber como é sofrer homofobia, mas ela pode se abrir para entender o que outro sente e não ficar calada diante de um caso em que a representatividade não se faz presente. Vi um exemplo que diz assim: se em um grupo de homens brancos e racistas, aquele que não se vê dessa maneira e acredita na legitimação dessa minoria deve ficar calado por esse não ser o seu lugar de fala ou deve falar algo a respeito para tentar mudar a visão do grupo no qual está inserido?

A questão inteira gira em torno de interesse: o quanto as pessoas estão interessadas em ouvir o outro e abrirem mão dos seus próprios julgamentos para entrarem em contato com a verdade sobre esses assuntos, gerando mudanças estruturais. E outra: mesmo em discussões de Facebook ou mesa de bar, a culpa nunca é do indivíduo que reproduz um discurso, mas de um sistema que perpetua essa ideia. É sistêmico e não individual.

O sistema precisa fazer uso do lugar de fala porque ele, por tantos anos, ignorou a presença das minorias no seu meio. Pense nas faltas de leis que protegem as mulheres da violência doméstica ou sobre o aborto, da não permissão de casamentos de mesmo sexo no mundo inteiro ou então na falta de oportunidade e marginalização dos negros no Brasil.

O papel do indivíduo, em casa caso, é aprender cada vez mais sobre porque é importante dar espaço para todo mundo falar sobre as suas experiências e como isso pode ajudar para criar um ambiente de aceitação e respeito mútuos.

Local de fala não significa que apenas algumas pessoas específicas podem defender uma ideia ou uma luta, mas que todos têm a mesma importância no contexto. Criar um ambiente de medo, apenas mantém a opressão no mesmo lugar em que ela sempre esteve: se as pessoas não se sentirem livres para ajudar a mudar um sistema tão defeituoso, será que ele pode, de fato, mudar?

A ideia não é reforçar as diferenças, mas criar um senso de unidade e igualdade. Enquanto as pessoas forem vistas como diferentes umas das outras, é impossível a criação de uma sociedade que dê o mesmo espaço para todos. O lugar de fala serve, dessa maneira, como uma forma altamente válida de fazer com que todos os lados tenham a mesma importância na conversa, e principalmente que as minorias encontrem a sua voz, e que as suas experiências acrescentem para um aprendizado mútuo. Assim, todo mundo cresce junto e ninguém fica para trás.

Imagem: Reprodução / Pexels / Elas por Elas

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