Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Quem já teve ou está no processo de depressão sabe o quanto é difícil viver um dia de cada vez. Temos dias melhores, dias piores, dias rápidos, dias intermináveis. Temos alguns dias que parecemos nem lembrar da depressão, já outros, ela faz questão de passar 24h com a gente.

Ela, que já me é íntima, vem acompanhada da ansiedade, companheira na qual anda comigo desde quando eu era pequena. Era minha amiga invisível, sabe? Aquele que você tem por perto, mas ninguém enxerga? Então, minha ansiedade sempre esteve aqui presente.

Os sintomas eram claros para quem quisesse enxergar.

Na época do colégio eu sempre era a mais falante da sala, eu tinha muita dificuldade de prestar atenção em silêncio. Quando tinha que fazer prova? Era um terror! A mosca passava e eu me perdia e perdia 10, 15, 20 minutos olhando pra ela voando na sala de aula. Se a prova era de história, onde geralmente a gente tinha que ler aquelas questões enormes e responder com (V) ou (F), quando chegava nas perguntas eu já nem me lembrava do começo do texto.

Fora o suor nas mãos, a enxaqueca diária, o pensamento sempre negativo, a necessidade de aprovação dos amiguinhos de turma, a necessidade de aprovação das professoras, a falta de confiança em entregar qualquer tipo de trabalho. Desde essa época, a ansiedade estava ao meu lado como uma “companheira invisível”.

Sim, é bem difícil perceber a diferença entre ser uma criança/adolescente ansiosa ou ser apenas uma “questão de personalidade”. Apesar de tudo que relatei, nunca fui reprovada, nunca fui uma aluna de notas baixas.

O ápice da depressão junto com a ansiedade.

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A melhor coisa que aconteceu foi ter enxergado que havia algo errado e que tinha como colocar tudo nos eixos. Eu sei que você sente dor. Eu sei também que você quer se livrar dessa dor. A vontade de levantar da cama não existe. A vontade de comer é bem pequena, parece que tem algo atravessado na nossa garganta como se fosse um miolo de pão, ou às vezes, parece que tem um buraco no estômago que dói muito, mesmo depois de um prato de comida. Dá fome toda hora! Aquela fome de ansiedade. Aquela fome de nervoso. Eu também sei que mesmo ficando o final de semana todo em casa, sem fazer nada, suas pernas estão doendo como se você tivesse andado o dia inteiro.

Dá uma preguiça… Uma dor no corpo imensa.

O quarto fica bagunçado dias, semanas… O interesse vai indo embora junto com todas as energias. Os dias vão passando e a gente já decorou nossa rotina de todos os dias. Acordar. Comer qualquer coisa. Deitar. Ligar a TV. Mexer no celular. Comer alguma coisa. Mexer no celular. Fingir que você está bem para os seus amigos, afinal, você não quer causar preocupação. Comer mais alguma coisa. Confirmar presença na reunião com as amigas, mesmo sabendo que você não vai. Já são 22h. Você vai ficar mais um dia sem tomar banho, afinal, você nem saiu da cama. Mais um sábado acabou. Entre uma coisinha e outra, bate aquela bad, você chora. Vem uma porrada de pensamentos horríveis na sua cabeça.

Começa o looping sem fim.

Você já tem quase trinta anos e ainda não se casou, nem namorado você tem, você não tem nem um emprego digno na verdade, você não mora sozinha, você não consegue pagar nem suas contas praticamente, você ainda não se formou, você tem foco mesmo? Sua prima é mais nova que você e já está morando fora do país.

Pronto. O choro vem com toda força. Sua cabeça parece que vai explodir de tantos pensamentos ao mesmo tempo. Não sei nem por onde começar, acho que não tenho mais jeito. O looping volta. Deito na cama e fico olhando para o ventilador que gira super rápido. Se eu morrer não farei falta alguma. Aquela mulher motivada, que adorava sair, que adorava fazer qualquer coisa, está ali deitada na cama dormindo depois de tanto chorar. O sono é outro refúgio. Ele vem para dar uma acalmada, mas esse excesso de sono não é bom. À noite, enquanto todo mundo dorme, você já não tem mais sono. Você precisa ter uma companhia, a depressão te obriga a ter alguém ao seu lado. Comida, cigarro, álcool, além da cama (é claro), eu tinha a comida. O combo depressão+ansiedade = compulsão alimentar, eu estava totalmente descontrolada.

Era uma briga em cima da outra…

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A irritabilidade e agressividade também faz parte da rotina de quem sofre com a depressão e com a ansiedade. Geralmente descontamos em quem mais amamos. Estranho, né? Pois é! Infelizmente, a mudança de humor e a agressividade foi um pesadelo. Além de perder a vontade de fazer coisas que eu gostava, perder a vontade de sair de casa, ter pensamentos obsessivos, chorar, chorar, chorar, comer muito, dormir muito, sentir muito sono, sentir um calor fora do normal, sentir um medo enorme de andar na rua…

Ainda tive que lidar com estar sempre com uma bomba relógio ativada e prestes a explodir sem que eu soubesse a hora. Sim. Eu não sabia a hora que eu mesma ia explodir. Eu perdi a noção da minha própria capacidade de me controlar. Quando eu percebia já estava brigando, falando alto, batendo porta. Depois logo vinha o sofrimento. Como é difícil conviver com você mesma.

Me afastei de amigos, de pessoas da minha família, terminei com namorado… Era incrível como a mudança de humor era rápida, e o pior: eu não entendia o motivo da minha raiva, só sei que sentia uma raiva muito forte por motivos pequenos e não conseguia reverter. Falando assim parece até que mentira, né? Mas eu juro o sentimento era esse. Eu tinha medo de mim.

Até o dia que comecei o meu tratamento.

Como saí do fundo do poço…

Eu queria muito ficar boa. Eu estava sabendo que não estava bem e que precisava de ajuda, e esse foi o primeiro passo para o começo de um tratamento. Você precisa entender e saber que pode ser ajudada. Como é bom ser ajudada. Como é bom ter alguém pra te dar a mão e te puxar.

Como é bom você ouvir: você vai melhorar a partir de agora.

Como é bom começar a ver os resultados. Como é bom poder escrever esse texto sem ter uma angústia. A análise é o melhor caminho para começar o tratamento, tem casos que somente com psicólogo você se recupera, sem precisar de remédios. Mas caso seja necessário, ter uma ajuda psiquiátrica não é nenhum bicho de sete cabeças. Na verdade, é também mais uma pessoa que vai te ajudar e estar disposta a te dar a mão nesse momento. Pelo menos pra mim foi muito importante ter esses dois acompanhamentos.

Os remédios estão fazendo efeito, a terapia também, mas nada vai adiantar se EU não estivesse disposta a melhorar. Se eu não estivesse disposta a superar. Se eu não estivesse disposta a dar um impulso para sair do buraco. Não adianta nada você dar as duas mãos para alguém te puxar de um buraco bem fundo, se você não fizer nenhum esforço para sair.

Além do tratamento o que mais me ajudou?

Pode até parecer ironia. Uma pessoa que sofre de ansiedade, que não consegue ficar 1h30 no cinema sem mexer no celular, ou se o celular vibra na hora do banho sai toda molhada para checar de quem foi a mensagem, fazer MEDITAÇÃO?! Pois é! Confesso que foi uma grande surpresa o poder de conseguir me desconectar da internet enquanto ouço a meditação guiada no aplicativo.

A tática é deixar o celular sem som e sem vibra, assim nada vai distrair, e também escolher um lugar sem muita movimentação. Geralmente na hora de dormir é o melhor horário. A meditação guiada tem de vários temas, inclusive para depressão, síndrome do pânico, ansiedade, insônia, autoestima, fim de relacionamento, concentração e muitos outros temas legais. A melhor coisa que aprendi foi trabalhar a respiração.

Um certo dia eu estava me arrumando para sair, mas esse processo de “me arrumar” já estava demorando duas horas, justamente pela dificuldade que estava de sair de casa. Começou a dor meu corpo, dor minha cabeça, me dar tonteira. Começou a chover. Tudo era empecilho naquele momento. Mas eu precisava ir, era dia de sessão na terapia, eu sabia que era importante e sabia que eu ia me arrepender muito de não ir. Então fiquei totalmente pronta, deitei na minha cama e comecei a praticar o exercício de respiração e a conversar mentalmente comigo mesma:

Você vai sair hoje. você precisa ir, vai te fazer bem. qual é o problema em sair? você vai sair, ver gente… muito melhor que ficar nessa cama. Depois você vai tomar aquele sorvete gostoso que você adora. Vamos lá! Você consegue!

E fui. Sem olhar para trás. E foi ótimo, não aconteceu nada durante o caminho, não senti nada e foi super legal. Então, eu estou conseguindo me motivar sempre que percebo que minha cabeça não está me obedecendo.

Um segundo fato que me ajudou muito foi compartilhar com meus amigos. Não tenho vergonha nenhuma de conversar e abrir o jogo, assim eles estão sabendo e podem me ajudar também. É uma troca bem legal. Tem dias que marco alguma coisa, mas no dia não estou legal, mas como minhas amigas sabem que não é todo dia que estou bem, elas não ficam chateadas. Talvez se não soubessem, isso poderia gerar um conflito. Compartilhar é sempre a melhor opção!

Sobreviver um dia de cada vez.

Só peço que viva um dia de cada vez. Não há nada que dure para sempre. O medo aparece sim, mas ele também vai embora. Às vezes a gente pensa que não tem mais jeito, que não tem outra saída, a ansiedade nos atropela e nos faz pensar que era tudo pra ser feito ontem, quando na verdade não existe ordem, data de validade e dia certo para nada.

Se você tem algum problema, antes de deixar a ansiedade tomar conta dele, senta e respira. Hoje eu estou bem, amanhã posso estar mal, assim como você. Continuo em tratamento e lutando todos os dias, mas de uma coisa eu tenho certeza: vamos viver um dia de cada vez!

Imagem: Pexels

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