Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Cultura do cancelamento, como assim? Você já parou de seguir alguém depois de ouvir como ela pensava? Ou já cogitou não ir à algum lugar que se relacione a algo que você discorde? Já levantou no twitter alguma tag #fulaninhocancelado?

Trata-se de um costume dos internautas de “cancelar” figuras públicas, sejam pessoas ou empresas, quando estas tomam alguma atitude reprovável. É um fenômeno no qual uma grande quantidade de pessoas, em um efeito manada que a internet proporciona, deixa de seguir personalidades nas redes, promovem boicotes à serviços ou produtos relacionados àquela figura pública e até vão diretamente às redes sociais destes para tomar suas satisfações e falarem diretamente a eles o que acham sobre a conduta.  

A prática é popular porque gera resultados: as figuras públicas perdem empregos, contratos, amigos e tudo o mais. O termo “Cultura do Cancelamento” foi definido como a expressão do ano de 2019 e especialmente nos últimos dias, em que eu acompanhei o Big Brother Brasil pelo Twitter, percebi que a prática é super atual e que eu até contribui com ela.

Sempre me esforço pra pensar nos motivos pelos quais eu faço o que quer que eu faça, por isso, faz um tempo que eu venho me perguntando por quais razões nós, como sociedade, estamos praticando atos de cancelamento de pessoas.

Um dos primeiros pontos que vieram à minha cabeça foi o fato de que a dinâmica da vida real muda a dinâmica do nosso comportamento na internet e vice versa. Logo, a cultura do cancelamento pode estar sendo reflexo da polarização e dicotomia infelizmente tão presentes nesse nosso mundo onde às vezes só parece existir heróis ou vilões, nenhum humano.

Seguindo esse princípio acabamos vivendo de fantasia e sem querer enxergar o que todos os heróis e vilões que escolhemos entre uma cancelada e outra são: humanos.

Mas por que temos tanta dificuldade em lidar com o real e humano?

Talvez porque o real pode ser feio e imperfeito e nas redes sociais não há espaço para isso e o pior é que levamos a dinâmica da vida virtual à vida real, não deixando espaço para imperfeição. 

Ultrapassando a telinha dos celulares, não apenas no feed e nos looks, hoje exigimos perfeição também no modo de pensar, agir e de falar. Mas será que quando cancelamos alguém essas pessoas mudam sua forma de pensar?

Acho que não, acho que pra mudar de fato os pensamentos de alguém só se consegue através do convencimento e do confronto de ideias. Cancelar é como dar o remédio mais fácil para alguém muito doente, um analgésico. Ele vai ajudar, mas apenas provisoriamente, porque ele estará mascarando os sintomas sem curar a causa da doença. E é isso que pode acontecer nos cancelamentos, as pessoas mudarem seu modo de agir e de falar, mas não seus pensamentos.  

Eu consigo ver as boas intenções da cultura do cancelamento porque é muito bom sentir que podemos fazer algo para mudar o mundo, nem que seja virtualmente.

Estamos acostumados à sensação de impotência frente às maldades então quando sentimos que temos alguma arma para transformar coisas ruins em melhores nós vamos lá e fazemos, porque temos que fazer isso. Então vem um sentimento de justiça e de integração, afinal, não é só você que acha aquilo errado e vai tomar providências.

Ver as pessoas fazendo as atitudes de cancelamento tanto motiva quem não fez a fazer como confirma as convicções dos que já fizeram, é um ciclo, no qual todos sentem que fazem parte do grupo dos que estão certos. 

E como é boa a sensação de fazer parte desse grupo não é?

Talvez, inclusive, seja essa a motivação interna de muitos ao tomarem essa atitude. Sentir que se está do lado bom da força faz bem pro ego.

Até chegarmos aqui percebemos vários motivos pelos quais tomamos atitudes de cancelamento de outras pessoas: polarização do mundo que nos faz achar que só existem dois lados, exigência de uma perfeição não humana em todas as áreas da vida, sensação de potência que a internet nos dá e de estar no lado certo da questão.

Mas é legítimo fazer justiça sem sair de casa, pelas redes e sem se responsabilizar individualmente? Ou isso não seria uma forma de fazer justiça com as próprias mãos dentro de um tribunal sem direito a contraditório?

Todos concordamos que não é justo que pessoas com atitudes opressoras e preconceituosas não sofram consequências por isso. Eu mesma dificilmente consigo justificar esses comportamentos e caso eu tente eu sinto que não posso, pois estou “passando pano” para aquela atitude.

Mas acho importante trazer essa pauta aqui para que reflitamos sempre sobre a eficácia e as reais motivações das nossas atitudes. No tribunal das redes sociais, em pouquíssimos minutos uma pessoa é condenada, sem direito a defesa ou a contraditório, só que isso também não é justo.

Falamos muito em sensatez quando escolhemos nossos heróis, mas sensatez tem mais a ver com ponderação do que com discursos rápidos e respostas imediatas.

É  preciso e mais do que necessário nos darmos um tempo para pensar antes de julgar qualquer pessoa. Eu sei que parece que devemos ter nossa opinião pronta e formada sobre tudo sempre, mas não é assim.

Estamos lidando com pessoas e por isso temos que diferenciar pessoas de comportamentos. Meu sonho seria cancelar comportamentos opressivos do mundo, mas qual é o meu direito em cancelar pessoas?

São pessoas que mudam o mundo, pessoas humanas e não heroicas.

Vamos educar uns aos outros e ajudar a fazer aquelas pessoas crescerem, é o caminho mais difícil, mas é o único realmente eficiente.

Imagem: Pexels

@ load more