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Danuza Leão foi o assunto da semana. A escritora causou ao escrever um texto sobre as suas impressões a respeito do Globo de Ouro deste ano, em que todas as atrizes se vestiram de preto em um protesto contra a cultura de assédio em Hollywood.

Segundo ela, “toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”. Sim, a gente percebe o quanto isso é absurdo. Mas antes de começar a criticá-la (mais uma vez), nas redes sociais, podemos levar esse assunto para outro lado.

Acredite se quiser, houve uma época em que as mulheres acreditavam ser normal o assédio do dia a dia. Aliás, para os homens também. Assobiar para uma mulher na rua, buzinar enquanto passa de carro perto do que considera uma mulher bonita, soltar ‘elogios’ e comentários de cunho sexual para a mulher que passa era comum. Cantá-la no trabalho também. Pedir por um ‘a mais’ por um trabalho ou favor idem.

O que Danuza Leão representa é uma mentalidade – atrasada, fato –, mas uma que por muito tempo dominou a nossa vida em sociedade. É óbvio que, assim como a justificativa de José Mayer, uma educação antiga não significa que você precisa continuar com essa mesma mentalidade a vida inteira. Porém, ela é apenas uma prova de que essa mentalidade existe e continua aí reproduzindo uma cultura do absurdo.

A escritora não é a única. Catherine Deneuve demonstrou uma ideologia semelhante. Ela disse, em um manifesto, que os homens deveriam se sentir ‘livres para flertar’ com as mulheres. Junto de outras 99 mulheres, ela escreveu uma carta aberta alertando para os perigos do novo ‘puritanismo’ e lamenta as denúncias públicas de assédio que tem custado o emprego de alguns (poucos) homens.

Danuza Leão representa uma inversão de valores

De novo, não podemos julgar uma mulher pela educação que ela recebeu – na verdade, não podemos fazer isso com ninguém –, mas mais do que falar barbaridades nas revistas e jornais, ela mostra muito claramente como estamos 100% acostumadas com uma cultura que vê as mulheres como objetos sexuais.

A gente já sabe que existem mulheres que reproduzem uma cultura machista – e a desconstrução deve fazer parte da vida delas também, porque esse machismo afeta, muito, a forma como elas lidam com o mundo e como são vistas pela sociedade. A questão é que, antigamente, na época em que Danuza Leão e Catherine eram jovens, machismo não era algo falado ou reconhecido. Era, talvez, uma ideia muito distante da realidade que elas viviam. O que, claro, não significa que ele não existia ou que já não tinha os seus efeitos na rotina.

Para elas, o ‘flerte’ na rua, as cantadas na frente de obra, os olhares insinuantes, eram parte do dia a dia, eram comuns. Essas mulheres são de uma época em que o casamento era a coisa mais importante que uma mulher poderia fazer na vida.

As duas nasceram em um período em que as mulheres já tinham mais direitos do que suas antepassadas, mas ainda assim eram vistas de forma inferior. A década de 1950, aliás, é muito marcada pelo tal ‘sonho Americano’, a família (branca) feliz com a esposa que fica em casa e cuida dos filhos e dos afazeres diários.

Danuza Leão diz, em seu texto, não saber definir o que é assédio. Até aí, tudo bem. Muita gente ainda não sabe mesmo e o nosso papel é educá-las sobre como esse comportamento funciona e como ele é nocivo para a vida das mulheres, alimentando uma cultura de estupro e violência que domina o mundo inteiro.

A questão – e onde a escritora se mostra mais equivocada – é dizer que denúncias de assédio estão na ‘moda’ porque as mulheres não sabem mais como receber um elogio. Assédio não é elogio porque funciona segundo uma dinâmica de poder: o homem, por acreditar ser superior à mulher, usa dessa posição para satisfazer os seus desejos. Existe uma sensação de ameaça envolvida, além de medo e sensação de humilhação (da parte da mulher, claro).

Apesar de ser compreensível de onde vem os pensamentos de Danuza, é outro erro acreditar que vamos aceitar que essa mentalidade continue assim. A questão do movimento Time’s Up, que levou as atrizes a usarem preto no Globo de Ouro e um discurso mega empoderador da apresentadora Oprah Winfrey, é mudar essa mentalidade porque as mulheres perceberam que o que era considerado ‘normal’, na verdade, era muito absurdo.

O movimento também não surgiu do nada. A gente bem sabe que 2017 foi um ano importante para as mulheres e campanhas anteriores a isso, como a #AskHerMore, que pedia para os entrevistadores perguntarem mais para as mulheres  do que ‘o que você está vestindo hoje?’ no tapete vermelho das premiações, começou a trazer mais atenção para esse assunto. Foi uma crescente do movimento até chegar no Globo de Ouro 2018.

Ainda temos um longo caminho a seguir? Claro, afinal, mulheres como Danuza e Catherine  nos mostram que a mentalidade machista ainda está por aí e que a ideia do ‘faz parte’ e ‘homem é assim mesmo’ tentam manter o absurdo como normal. Por isso que é um movimento de mudança e não um interruptor que, quando ligado, muda toda a mentalidade da população mundial.

O que podemos aprender com os discursos de Danuza e o manifesto de Catherine é que ainda existem mulheres equivocadas e, provavelmente, elas não são as únicas que compartilham dessas ideias. Aliás, muitos homens também mantêm esse posicionamento e defendem que as mulheres estão ‘exagerando’. Os protestos em Hollywood representam apenas a ponta de um iceberg, uma mudança muito mais profunda que precisa acontecer em todas esferas da sociedade.

Nenhuma mulher deve ser assediada em nenhum momento da vida. Ou sujeita à uma violência pelo qual ela não pediu. O tempo acabou mesmo – ou nos atualizamos e começamos a olhar o mundo por um viés de igualdade ou, infelizmente, vamos ficar para trás.

Foto de capa: Instagram / João Weiner 

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