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O que você procura?

Como leitora assídua que sou, recentemente uma obra da lista obrigatória para o vestibular da Unicamp me chamou a atenção. Intitulado ‘Quarto de Despejo’ e subintitulado ‘Diário de uma favelada’, logo fui procurar por mais informações e então me encontrei com ela.

Carolina Maria de Jesus

Um nome comum. Uma vida que parecia ter tão pouco valor. Uma força interior inexplicável.

Quem é essa tal de Carolina?

Diário de Uma Favelada - Carolina Maria de Jesus

Carolina é uma catadora de papel e moradora na favela do Canindé na década de 50, local onde hoje é a Marginal do Rio Tietê na cidade de São Paulo.

Solteira, possui 3 filhos e os cria sozinha, sem ajuda de nenhum familiar.

Estudou somente até o segundo ano do ensino fundamental, porém é apaixonada por livros e prefere gastar seu tempo livre com leitura e escrita, ao invés de socializar com os vizinhos da favela, pois acredita ser mais útil se dedicar à essa atividade do que beber, fofocar ou namorar (três entretenimentos muito comuns em sua comunidade).

Sua rotina – e de seus filhos – é viver na incerteza se haverá comida para a próxima refeição. Suas vidas giram em torno da felicidade por ter o que comer e do desespero quando não o tem.

E do que fala o ‘Diário de uma favelada’?

'Quarto de Despejo, Diário de Uma Favelada'

Mesmo em meio a uma triste realidade, Carolina pega cadernos que encontra no lixo e começa a escrever um diário.

É nele que ela conta a hostilidade da comunidade onde vive, dos políticos que só aparecem em época de eleição (Carolina, por sinal, entende muito de política e está apta a discutir o assunto com quem quer que seja), da sua luta diária contra a fome, da humilhação sofrida por ela e pelos filhos e da sua condição como negra, favelada e mãe solo. Se tudo isso é difícil nos dias de hoje, imagina há mais de 50 anos atrás?

‘Diário de uma favelada’ contém relatos fortes e muito tristes! É sobre uma realidade escrita há muitos anos, que continua tão real e mais próxima de nós do que imaginamos.

Carolina passa mais de 5 anos escrevendo esse diário e seu sonho é que um dia ele seja publicado.

Ela não busca fama, mas seu objetivo é expor o cotidiano dessas pessoas que são excluídas da sociedade e, com a venda dele, poder morar em um local melhor do que seu barracão atual e ter condições de alimentar seus filhos diariamente.

Ela é motivo de chacota entre seus vizinhos por a acharem muito sonhadora e pretensiosa.

Até que um dia, o jornalista Audálio Dantas visita a favela para fazer uma reportagem sobre a rotina dos moradores e conhece Carolina.

Quando ela mostra seu diário ao jornalista, ele fica tão deslumbrado com a riqueza daquele relato, que desiste de fazer uma matéria superficial sobre o local e passa a ajudar Carolina na publicação do seu livro.

O subtítulo “Quarto de Despejo” se dá porque Carolina faz uma analogia da sua condição.

Ela explica que SP é uma casa e as regiões luxuosas são a sala principal, enquanto a favela é o quarto de despejo da cidade, onde ficam as coisas insignificantes e sem valor.

Chocante, mas muito real, não?

O lado bom é que essa é uma história real com final feliz, pois a nossa protagonista e guerreira consegue o que queria! Seu livro foi um sucesso, sendo traduzido para 13 línguas e publicado em mais de 40 países.

Isso possibilitou que Carolina tivesse uma casa digna para seus filhos e enfim pudesse alimentá-los de forma apropriada.

Inspiração suficiente para investirmos e acreditarmos nos nossos projetos de vida assim como ela, não?

E por que você deveria ler ‘Diário de Uma Favelada’?

Se você ainda está conferindo esse artigo, é provável que já esteja convencida de que essa obra é leitura obrigatória para seu desenvolvimento como cidadã, certo?

Caso ainda não esteja, aqui vão dois dos maiores motivos para que compre esse livro agora mesmo:

1. Não podemos mais tapar os olhos em relação à fome

E esse diário mostra que ela está mais perto de nós do que a gente imagina.

Desde que li esse livro, passei a ser grata por cada refeição e por não passar pela inconsolável situação de ver meus entes queridos com fome e não poder fazer nada.

É impressionante pensar que todos os problemas diários que enfrentamos se tornam insignificantes diante da fome.

Mais impressionante é pensar que domingos e feriados, dias que normalmente mais amamos, eram os piores para Carolina, pois ela não conseguia vender papel e muitas vezes ficavam com ainda mais fome.

Além de aumentar minha gratidão, a leitura do ‘Diário de Uma Favelada’ aumentou a percepção do quanto a fome está mais perto do que a gente imagina.

Passei a guardar minhas sobras no restaurante para dar à alguém e prestar mais atenção quando vejo uma pessoa pedindo comida pelas ruas de SP – continuo não dando dinheiro, mas já não posso mais negar comprar-lhe uma comida.

2. O poder do conhecimento e da leitura é subestimado na nossa sociedade

Mas esse livro é a prova do quanto a educação pode mudar a vida das pessoas

Mesmo sem educação formal, Carolina aprendeu a ler e escrever de sua própria forma, sem se intimidar com seus erros de português.

Essa atitude é tão louvável que os editores do livro resolveram manter a sua linguagem mesmo com erros gramaticais, ajustando somente as frases que dificultavam a compreensão do leitor.

Carolina, muito mais do que inteligente, era uma mulher sábia. Ela sabia que a leitura e a educação, por mais rara e “fora de moda” que fossem, tinham mais poder do que a bebida e as drogas, tão populares no meio em que vivia.

E, por esse motivo, ela relata que prefere ficar em casa com seu diário do que na rua na companhia de seus vizinhos ou namorado.

Por fim, tenho certeza de que você vai sofrer com as dores dela, mas também vai vibrar à cada pequena vitória, a cada pacote de comida comprado e à cada doação feita por pessoas do bem.

E vai se emocionar, admirar muito essa heroína e querer que o nome dela se torne ainda mais conhecido, objetivo pelo qual esse texto foi escrito.

Vida longa ao nome e à obra de Carolina Maria de Jesus!

Imagem de capa: Beleza Black Power

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