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Eu já voto, tenho o direito e agora também a obrigação de trabalhar fora (já que atualmente as mulheres que têm a enorme carga de ficar em casa passaram a quase ser consideradas vagabundas aproveitadoras, ou seja, até quando a gente evolui, a gente também regride) e de sair do país sem autorização do meu pai ou do meu marido.

Mas não posso sorrir para os “Parabéns” que estou recebendo hoje sem me lembrar que eu já deixei de ir a algum lugar a noite por ser mulher e que eu compartilho minhas viagens noturnas no Uber com o meu marido, mas ele sequer tem a mesma preocupação que eu quando a situação é inversa.

Queria poder agradecer aos ‘Feliz dia da mulher‘ sem viajar mentalmente nas inúmeras vezes que atravessei a calçada para não passar em determinado lugar ou em frente de um grupo de homens por ser mulher.

Gostaria de verdade de, ao receber flores neste dia, não rememorar quantas vezes troquei de roupa para não ser julgada, inclusive por outras mulheres. De quantas vezes já fui chamada de piranha ou outro adjetivo de cunho sexista por agir de alguma forma que muitos homens agem ou por simplesmente desagradar a expectativa sobre o que deveria meu submisso comportamento feminino.

Ganhar o bombom e não ter entre as minhas memórias quantas vezes já deixei de reagir a atos de homens estranhos e próximos que me incomodaram e violentaram profundamente por temer a sua agressividade contra mim enquanto eles podem se dar ao luxo de se descontrolar.

Sem pensar que em mais de uma oportunidade já tocaram alguma parte do meu corpo sem o meu consentimento e como isso ainda é visto como um detalhe desnecessário para muitos homens à minha volta. Sem notar como eu sou muitas vezes ignorada ou interrompida diante de outros homens no meu trabalho ou do meu convívio; como as pessoas se sentem no direito de opinar sobre a minha aparência muito mais vezes do que fazem em relação ao meu marido, que é o homem com quem mais convivo, e como sempre perguntam a opinião dele sobre isso antes sequer de questionarem a minha. E também de como tenho que me policiar e me lembrar de que as escolhas de outra mulher sobre sua aparência ou vida não me interessam, são dela e pronto, muito mais do que tenho que me policiar sobre isso em relação a homens.

Não ver quantas vezes eu já fui propositalmente antipática, seca ou fria com outros homens para não ter educação e simpatia confundidas com interesse sexual e afetivo, às vezes, até quando eles são parceiros de amigas e conhecidas. Como deixo de ficar sozinha com esses mesmos homens em diversos ambientes para uma conversa despretensiosa sobre interesses comuns não ser encarada como “dar em cima”.

E como ainda sou uma grande privilegiada, pois as limitações que a minha condição de mulher me impõe são muito menores que a de várias outras mulheres, que são humilhadas, agredidas, torturadas, estupradas e mortas, por estranhos, por afetos, por seus pais e pela sociedade em geral.

Estes todos que nos dizem como deve ser a nossa aparência, as nossas decisões de vida como casar e ter filhos, como deve ser o nosso comportamento diário, o nosso tom de voz, a nossa “feminilidade” e tantas coisas mais.

Eu só consigo pensar como ser mulher exige.

Exige força para continuar respirando, para continuar de pé, para se manter livre ante tantos atentados à nossa liberdade e principalmente para continuar lutando e avançando. Mas como diante de tudo isso poderíamos não lutar?

Imagem: Reprodução

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