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A VIDA DO HOMEM É UMA CONSTANTE INTERROGAÇÃO

Nunca me foi uma posição confortável o desejo de uma conduta contrária à minha condição biológica; seja para me sentir bem, sentir prazer ou expressar espontaneamente minha intensa feminilidade. Há muitos transgêneros com experiências e naturezas bem distintas da minha – é um universo extremamente complexo – mas, no meu caso, o sentimento feminino sempre esteve enraizado na alma.

Faltou-me escolha e sobraram sonhos que pareciam absurdos e irrealizáveis – tanto no estado consciente quanto no inconsciente. Ter outro corpo? Ser outra pessoa? De onde vem esse sentimento e porque eu preciso viver tal fardo? É um pesadelo em vida, estar em permanente confinamento à representação de uma identidade oposta à sua. Em todos os sentidos. Qual caminho eu nasci pra seguir? E qual o sentido dele?

Essa sou eu!

No romance “Édipo Rei”, nosso herói caminha sem rumo, transtornado e fugindo de um abominável destino revelado pelo oráculo. Surpreendentemente, faz o oposto – reencontra seu pai biológico e, casualmente, num ataque de fúria, acaba por cumprir a terrível profecia da qual fugia – assassina o pai e regressa À Tebas, sua cidade natal. Lá, se depara com uma temível esfinge, frente ao portão principal. A fera impõe que Édipo lute pela vida por meio de uma charada: “Decifra-me ou te devoro!”.

O príncipe dá de ombros e expressa recolher-se à sua insignificância. Visivelmente amedrontado e confuso, e sem falar uma única palavra, faz a esfinge crer que desvendou o enigma. Surpreendentemente, Édipo liberta seu povo da tirania do monstro e é imediatamente empossado o novo rei, desposando sua própria mãe, sem sequer saber quem era. Quando descobre, por força da circunstância, a realidade trágica e repugnante de sua vida, Édipo transtorna-se. Ludibriado pela culpa, arranca os próprios olhos, ao se dar conta de o quanto foi cego, lançando seu povo à desgraça e ao infortúnio.

Este grosseiro e superficial resumo de uma das mais simbólicas e enigmáticas histórias da literatura nos ajuda a compreender melhor a que se pretende o termo “ideologia de gênero”. Édipo já nascera para reinar sobre os tebanos, ao lado de sua esposa-mãe. Seus pais o baniram e abandonaram ainda na primeira infância. Forçado a crescer longe de casa e sem saber quem era, inevitável e inconscientemente, ele vai de encontro à própria identidade e destino, mesmo com todas as barreiras que se lhe impuseram.

Sua trajetória marca o constante conflito entre as certezas e as dúvidas presentes na vida de todos nós – a falta de rumo, o acaso, a ira, a falta de conhecimento – todos estes ingredientes levaram Édipo a seguir seu destino: reinar sobre Tebas, praticar incesto, atrair sofrimento; errando para se descobrir e para passar a tomar decisões acertadas. A cegueira foi o carma e o renascimento de Édipo. “Cegar-se para enxergar”. Era necessário? Foi justo? Ele tinha o direito de arrancar os próprios olhos? Este eterno conflito humano (certeza x dúvida) é uma das tantas razões que tornaram esta tragédia mito. Mas onde a Ideologia de Gênero entra nisso?

IDENTIDADE SEXUAL X IDEOLOGIA DE GÊNERO

Todos já nascemos com a identidade de gênero constituída no cérebro antes de sairmos do ventre materno, independentemente do genital ser masculino ou feminino. Ela é uma certeza. No caso das crianças transgêneras, o gênero de cabeça conflita com o físico desde o pré-parto. Esta identidade, portanto, não é algo a ser definido, mas percebido, sentido e trabalhado (geralmente a partir dos três ou quatro anos de idade).

Tal como Édipo, a criança trans vive uma infância que não lhe pertence, e se vê, desde o nascimento, frente a um caminho tortuoso e repleto de encruzilhadas, precisando alcançar seu próprio portal de Tebas para poder decidir de que modo irá enfrentar a sua esfinge – ou se decidirá fugir dela e de seu destino. A luta é individual e não cabe interferência. Mas a triste realidade é que muitas passam a vida inteira sem conseguir adaptar-se à sua psique, mesmo contra a sua vontade; por vezes, chegam ao extremo de interromper suas vidas prematuramente diante dos pesados obstáculos impostos pelo âmbito social.

A suposta “ideologia de gênero” funcionaria, nesse contexto, verdadeiramente como o oráculo: abre os olhos das crianças, em todos os sentidos, e as liberta de exigências e parâmetros que podem provocar angústias, transtornos, sentimentos de inadequação, de incompletude e de frustração, e ainda, sem assentar obrigatoriedades didáticas ou sociais em função de seu gênero aparente.

Mas note-se que eu usei essa palavra “suposta” porque há uma vertente política, no Brasil, que insiste em assacar a consideração à diversidade sexual e convertê-la em algo sujo, bizarro e degenerativo. Sendo rotulada, de forma rude e depravada, como “ideologia de gênero”, essa asseveração converte-se, de forma criminosa e indiscriminada, num discurso que, apropriado de uma pseudo-logicidade, ganha propriedade para demonizar quaisquer dissensões de gênero manifestadas no período infantil.

Protejam nossas crianças trans.

Mas precisamos entender que é básico e natural a todas as crianças o direito de aprender a compreender e respeitar a complexidade da alma humana, sem que sejam coibidas a ter condutas, brinquedos, roupas, enfim… Sem que tenham suas identidades construídas por outros que não elas mesmas. Precisamos deixar de instruí-las a julgar outras crianças sempre que tomem para si alguma dentre aquelas tantas peculiaridades que ainda insistimos em impor ao universo do gênero oposto.

Apenas meninas usam brincos e se maquiam? Meninos brincam com carros e meninas com bonecas? Azul é masculino e rosa é feminino? Quantas já foram agredidas, atormentadas ou ridicularizadas por outras crianças, e mesmo por adultos, simplesmente por fugirem de padrões e estereótipos?

Crianças precisam ter o direito de serem crianças. De estarem confortáveis ao se vestir e se manifestar, sem intromissões. A concepção de ideologia de gênero é um mecanismo doutrinador, usado para proteger os pais no seu “direito” de não permitir aos filhos o direito vivo de expandir as suas mentes e se abrir para a compreensão e o apreço à complexidade do ser humano, e ainda sob a proteção dos muros da escola e longe de suas vistas e crenças.

Não há qualquer adulto capaz de decidir por uma criança quem ela deve ser; ou de influenciá-la a ser quem jamais será. Portanto, a única novidade a respeito de gênero, a ser aprendida nas escolas, que levantaria de fato a bandeira trans é, tão somente, dar à criança e ao adolescente a oportunidade de se libertarem de paradigmas, romper preconceitos, sufocar o bullying infantil e colocar as crianças transgêneros em pé de igualdade com as demais, ou seja, com espaço para viver este embate entre quem elas são e as dúvidas que se constituem a todo tempo em suas cabeças, sem serem coagidas a viver confinadas aos estados de vergonha, isolamento e agonia.

Todas, desta forma, passariam a ter igual oportunidade de exorcizar as suas esfinges. O tempo, hoje, é o maior inimigo dos transexuais, e as normas de conduta, da forma agressiva com são impostas, desde a infância, atrasam demais sua busca pela identidade e a corrida pelo entendimento e a aceitação de si próprio, lançando-lhe um pesado calvário a ser carregado na vida adulta.

Não tenha medo de viver a sua verdade.

O termo “ideologia de gênero”, portanto, não existe, tampouco possui sentido prático ou teórico; é uma invencionice com a clara pretensão de debochar, excluir e, principalmente, degradar e ridicularizar a população trans. Carrega consigo o nítido intuito de aterrorizar e confundir pessoas ingênuas e alimentando uma cultura de medo, rejeição e ódio. O que existe, de fato, é uma nova concepção de que a educação nas escolas precisa evoluir e se adequar à diversidade.

Todas as crianças devem ser escutadas em seus, ainda que silenciosos, questionamentos, e na formação da identidade. Ensinar-lhes a tolerância, a cortesia e a noção da liberdade que possuem para externar sua sexualidade não são, nem de longe, o mesmo que sexualizar crianças ou induzi-las a seguir alguma conduta sexual específica. Elas precisam se desenvolver plenamente, sem estigmas, culpas, radicalismos ou especismos.

Ninguém é capaz de transformar ou modificar a orientação sexual de qualquer criança; respeitar a personalidade de cada uma é uma questão de solidariedade e humanidade. Paira no ar a polêmica sobre qual seria a forma mais adequada de protegermos e salvarmos nossas crianças de uma vida trágica, tal qual fora a de Édipo, afinal, nenhum pai deseja que seus filhos sigam um caminho distorcido ou de tristeza, dor, depressão e arrependimento.

Entendamos que uma criança cisgênero só tem a ganhar vivenciando um aprendizado escolar com uma diretriz de valorização da diversidade sexual. Ela terá a oportunidade de aprender a considerar e amar as crianças que são diferentes, tal qual já faria com seus demais colegas e amiguinhos. Precisamos rumar para uma sociedade que enxergue todas as pessoas como quem elas são inquestionavelmente: pessoas. E onde dar a alguém a oportunidade de explorar suas potencialidades seja um ato efetivamente democrático, independentemente daquilo que fazemos com nosso corpo ou de como nos reconhecemos.

INICIANDO A MINHA TRANSIÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há algumas semanas dei os primeiro passos para minha transição de gênero. Nas primeiras visitas ao Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), conheci três mulheres trans com histórias completamente distintas: a primeira, uma bela morena com quase 1,90m de altura, 26 anos, e divinas tranças longas e prateadas. Ela estava inconsolável, acreditando estar iniciando tardiamente a sua terapia hormonal.

Aprendi com ela o que são pessoas binárias e não binárias, e enxerguei o quão plural pode ser a constituição de artifícios que trapaceiam a nossa mente. Gabi, por ter se considerado, primeiramente, uma pessoa não binária, passou quase uma década ignorando que sua essência feminina lhe cobrava alto diariamente. Tal como Gabi, Édipo havia deixado o tempo passar ao envolver-se diariamente numa relação incestuosa que não lhe pertencia. Enxergou sua cegueira.

Ambos, sem saber, acabaram por construir um forte sentimento de culpa que, no caso de Gabi, refere-se à demora em dar início às mudanças físicas para constituir um corpo feminino. Entretanto, por sorte, ela ainda possui toda a juventude pela frente, mesmo não tendo sentido desta forma.

Conheci também outras duas mulheres. A primeira, muito jovem e feminina. Os hormônios trouxeram-lhe belíssimos resultados. Seus seios já começaram a brotar, e o rosto estampa encantos que atraem facilmente homens heterossexuais. Em seu caso, a esfinge foi o sistema público de saúde. A constante falta de medicamentos a afastou, por anos, do acesso gratuito aos hormônios durante a fase em que esteve desempregada.

Por não saber como lutar por seus direitos, decidiu usar o salário atual para bancar sua terapia hormonal do próprio bolso. A mesma coisa passou a fazer a terceira mulher trans que conheci, com uma história de vida bem emocionante… Nordestina e funcionária pública, lhe foi imposta uma orientação familiar extremamente conservadora, machista e violenta. Seu pai costumava resolver conflitos no braço ou na ponta de peixeira.

Essa mulher, já aos quase setenta anos, sentia-se pertencente ao sexo feminino desde criança, mas apenas recentemente se desprendeu do preconceito consigo própria e quebrou as correntes que a prendiam à figura do pai. Infelizmente, as circunstâncias mantiveram-na cega por muito tempo, e ela se privou de ser autêntica e feliz por toda a juventude. Ainda assim, sobram-lhe motivos para se orgulhar, pelo simples fato de ter preservado uma fé pessoal que Édipo jamais pretendeu ter.

Reconheço-a como uma heroína que não se afligiu diante do tempo, e manteve viva uma fagulha de esperança. Estou certa de que ela conseguirá, mesmo que nos últimos anos de vida, obter a dádiva de experimentar o encanto de sentir-se uma pessoa plena e realizada. E eu, sigo agora, com firmeza, a estrada pelo reconhecimento do meu gênero: exames médicos de rotina, separação interminável de documentos, idas a cartórios, conversas com psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, participação em palestras, em grupos de autoajuda, estudos sobre as leis e os direitos das pessoas LGBT… Este ano, devo iniciar a minha terapia hormonal, o que me deixará mais apta a falar, especificamente, sobre esse assunto tão complexo e cercado de tabus.

Mas, voltando à educação nas escolas, é seguro afirmar que os pais de hoje estão desorientados e despreparados, em sua maioria, para orientar os filhos sobre diversidade sexual. O ensino didático, realizado por um corpo docente competente, é ainda o melhor caminho para ajudá-los a dar fôlego ao processo infantil de construção da identidade com respeito, fraternidade e empatia, permitindo que as crianças trabalhem o autoconhecimento integralmente.

É um deslumbramento descabido e fantasioso, e, decisivamente, uma hipocrisia, formalizar a sugestão de que exista algum conceito ou ensinamento com poder para influenciar um petiz a desviar-se de sua conduta sexual, no presente ou no futuro. Assim como a identidade de gênero, a orientação sexual é algo sagrado, blindado e inquebrantável na construção de nossa individualidade.

Combater o ensino sobre diversidade nas escolas é legitimar que pais mal informados continuem perpetuando conflitos psicológicos e enraizando em crianças a segregação sexual, a violência, a intolerância, e a definição do indefinível, usando o corpo como parâmetro para se impor sobre a psique infantil. Crianças precisam ter o direito de brincar como quiserem, de se vestir como preferirem, de experimentar, errar, acertar e errar de novo, enfim, viver… Sem que sejam cercadas de privações por razão de gênero.

Esse é o verdadeiro significado impresso na bandeira trans, conhecida em todo o mundo – o ainda utópico desejo de que possamos viver em uma sociedade mais integrada, harmônica, pacífica e fraterna. É urgente tentarmos desconstruir os cárceres que criamos e que nos trancafiam em redomas negativistas e provedoras da violência, em seu estado mais brutal.

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Nós somos muito mais!

A bandeira trans possui uma faixa no centro, de cor branca, representando a paz entre duas outras cores, também presentes nesta mesma bandeira. Ela expressa o desejo de que estas duas cores, o azul e o rosa, passem a ser apenas cores, como todas as demais, e não símbolos do indesejável conflito entre os mundos masculino e feminino. O seu ícone afirma o masculino ao lado do feminino, sem guerra dos sexos, e também a mescla do masculino com o feminino.

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