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Eu sou Raquel, tenho 23 anos, ainda não me casei e não tenho filhos. Também não comecei uma carreira da qual eu preciso cuidar e não estou em um emprego do qual eu não posso sair. Não tenho bens ou um nome a honrar.

Na verdade, assim como boa parte das pessoas da minha idade, eu estou em uma fase em que não tenho nada. Mas a parte boa dessa fase é que eu também não tenho nada a perder, e quando eu notei isso foi a primeira vez que eu tive alguma consciência sobre o lado bom da juventude, que é essa liberdade.

Logo, no ano passado, decidi que queria conhecer o mundo e comecei a juntar dinheiro. Havia tantas razões para eu desejar fazer uma viagem pelo mundo e uma delas era: talvez essa fosse a melhor época da vida para isso.

E foi assim que eu e meu namorado, Matheus, partimos para a viagem das nossas vidas, cinco meses atrás. Passamos dois meses e meio morando no Canadá e um mês e meio mochilando: Hong Kong, Filipinas, Indonésia, Myanmar e Inglaterra foram os principais destinos a nos abrigar enquanto éramos testemunhas e partes em uma dinâmica de experiências individuais e como casal.

Vimos cada um crescer individualmente e o nosso ”nós” se tornar ainda mais forte. Lembrando agora de cada lugar que eu passei e das experiências que vivi, me sinto grata por ainda estar na fase de não ter nada e vou tentar descrever como cada destino me ajudou a construir mais do que qualquer conquista material.

A preparação para começar a viver tudo isso foi dura: entre brechós, rifas, poupanças e muita fé consegui chegar no Canadá e, apenas por ter conseguido esse primeiro passo, fui percebendo minhas capacidades.

Capacidade de realizar meus sonhos, de me virar sozinha, de ser eu mesma e de fazer o que eu quiser. Ter a rotina de ir de pegar o metrô todo dia para ir à escola de inglês me fazia muito feliz. Qualquer passeio sozinha ou compra de chocolate quente para mim era um grande acontecimento.

Saía para andar e me perder ou para caminhar no parque depois da aula, nos melhores dias também saía com grupos de amigos de todas as nacionalidades possíveis para exposições ou pontos turísticos.

Reencontrei minha leveza, meu olhar atento sobre as pequenas coisas e também um encantamento contínuo, sem deixar os olhos se acostumarem. Enfrentei em terras canadenses dois dos meus maiores medos: montanha russa e dentista. Aprendi a cozinhar, me divertia imaginando alguma forma de variar o cardápio e amava quando ele dizia que estava ótimo.

Fazer feira no supermercado era a nossa hora do recreio e nossos finais de semana eram simplesmente os melhores, perambulando até conhecer cada cantinho da cidade.

Sentia Toronto na palma das mãos, aprendi que podia ir para onde eu quisesse e a minha jornada tinha apenas começado.

Saímos do Canadá dividindo apenas uma mochila nas costas e fomos para Hong Kong, na China. Hong Kong é o local onde o Ocidente encontra o Oriente, a cidade mais visitada e com maior número de arranha-céus do mundo.

Lá eu comprovei como esse mundo tem espaço para tudo, porque meus olhos viam uma mistura muito única; é Ásia, mas tem muito do Ocidente; é China, mas é capitalista; é uma ilha, mas é quase toda feita de concreto; todo mundo é chinês, mas quase todo mundo sabe falar inglês.

Perambulava pela cidade vendo aquele universo paralelo no qual eu, a ocidental, não era o centro, e isso foi ótimo para eu sentir na pele o que é ser uma minoria. Admirei os painéis luminosos, sofri pra encontrar comida, contemplei o horizonte de um rooftop, fui parar até em um protesto.

Senti-me capaz de me virar até do outro lado do mundo, e pude ver como apesar do mundo ter espaço para todas as diferenças, ainda há muito mais semelhanças que distinções prevalecendo entre nós. Hong Kong foi tudo em uma só.

Em contraposição às grandes cidades que foram Toronto e Hong Kong, chegamos às Filipinas. Ali a única grandeza era a da natureza, todo o resto eram pequenos vilarejos ao redor.

Naquele lugar eu senti que Deus fez alguns lugares no mundo como presentes pra nós, como quem diz: ”aqui vai ter tudo o que for de bonito e vai ser um local para fazer os humanos serem felizes por verem a beleza da criação”.

Digo isso porque as Filipinas são um grupo de ilhas feito especialmente para guardar tudo o que for belo da natureza, sério. Existem todos os tipos de beleza natural em um lugar só: há o mundo à parte que é o fundo do mar, os lagos verde-turquesa, os bancos de areia com água azul e cristalina, as rochas de calcário, as ilhas desertas no meio da imensidão do Pacífico, há quase tudo de naturalmente belo.

Percebi como a natureza preservada é um outro universo paralelo do qual não somos o centro, e que a nós cabe apenas a contemplação, deixando tudo como está.

Dali eu só levei o que senti: felicidade, simplicidade e paz.

Almocei sentada na areia da praia mais bonita que já fui, pratiquei snorkel e vi o Nemo, me machuquei pisando em corais, jantei em uma mesa na areia da praia arrodeada por fogueiras, pulei de barcos em direção ao mar… Na memória ficam esses dias que eu passei dentro de barcos me surpreendendo com todos os tipos de beleza existentes no mundo em que eu vivo. Todas elas no mesmo lugar.

Hora de ir para a famosa ilha dos deuses, Bali, na Indonésia. Naquele lugar eu me sentia tão em casa que parecia até que eu já estivera ali antes, mas era a primeira vez. O tempo em Bali foi menos contemplativo para ser mais envolvente. Eu ocupei, eu dancei, eu me diverti, eu fiz parte.

A sensação de que eu estava exatamente aonde deveria estar era tamanha que me fazia estar totalmente imersa no momento presente, vivendo as coisas como elas eram, nem parava pra pensar em nada.

Não por acaso, foi o lugar onde menos tiramos fotos, porque estávamos ocupados demais vivendo e nos divertindo. Me balancei dentro de um terraço de arroz, fomos pegos em uma blitz, fui mordida por macacos, dancei em beach clubs na frente do Oceano Índico, viciei na cerveja da Indonésia, conheci o hinduísmo balinês, fomos a muitos templos usando saias: em um deles assistimos o pôr do sol mais incrível da viagem e recebemos uma benção hindu.

Em outro templo fizemos um ritual de purificação: tomamos banho em mais de dez fontes fazendo nossos pedidos para a vida. Conheci pessoas no sentido mais amplo da palavra conhecer, ouvi sobre suas famílias, seus países, suas histórias.

Viramos amigos dos donos da pousada e passamos boas noites reunidos com os hóspedes na mesa jogando conversa fora e criando laços. A rotina lá era só acordar, pegar nossa moto sem planejar nenhum roteiro e descobrir o que a vida tinha nos preparado para aquele dia. Em Bali eu fui mais livre, mais jovem e mais em casa com o mundo do que nunca havia sido.

E como falar do Myanmar? A maioria das pessoas que eu conheço nunca tinha ouvido falar de lá e, de fato, foi o lugar menos turístico e mais diferente da minha vida.

A linguagem, as pessoas com rosto pintado, as roupas, a fé e o seu poder. Estive em uma cidade, Bagan, que tem cerca de três mil templos que mais se parecem com castelos, já imaginou? Olhar para os lados e só ver mini castelos em um horizonte totalmente singular.

Aprendemos sobre budismo, comemos comida vegetariana, quebramos nosso celular, vimos mini monges cantando, escalamos templos e assistimos ao nascer do sol mais inexplicável da minha vida: eu em cima de um templo, quando olhava para o chão eu via as centenas de outros templos dentro do campo verde e quando olhava para o céu eu via o sol nascendo em meio a centenas de balões no ar.

Me sentia abençoada, sortuda, sem acreditar.

Olhava pra o céu ainda escuro e cheio de estrelas antes do dia nascer e pensava ”Onde eu vim parar? Meu Deus, olha onde eu tô!”. Até hoje olho para as fotos daquele cenário e ainda não acredito que vivi aquilo. Só pode ter sido um sonho.

Ainda no Myanmar, nós resolvemos nos desafiar de uma maneira inédita: fizemos trabalho voluntário no interior de um monastério budista. Trata-se de um lugar que acolhe absolutamente qualquer pessoa que precise de abrigo e alimentação, inclusive eu e Matheus, mas também pessoas em situação de rua, idosos, órfãos ou pessoas doentes.

Lá foi tudo muito intenso, eu me senti tão privilegiada, olhava para os lados e conseguia enumerar coisas que eu não precisava me preocupar na minha casa: esgoto na rua, baratas, ratos, sapos, alimentação, ter um colchão, ter água potável, entre tantos outros privilégios.

Levei pacientes para dar um passeio, perguntei seus nomes, dei banho, dancei e cantei nos hospitais, ensinei inglês para crianças que vivem no lixo, saí pra recolher as doações que seriam nossos alimentos, conheci pessoas, aprendi a não rejeitar nenhum ser humano, a respeitar a velhice, enxerguei a verdadeira pobreza e estive de frente com as doenças.

Eu vi o sofrimento humano em várias faces e isso foi transformador porque encurtou qualquer distância entre eu e as outras pessoas que também estavam abrigadas ali, afinal, sermos suscetíveis ao sofrimento é o que todos nós temos em comum.

Deixamos o Myanmar e duas paradas depois – uma na Tailândia e outra na Suécia – chegamos ao nosso último destino, Londres. Chegar a países prósperos como Inglaterra e Suécia logo após ter saído do Myanmar foi como ver todos os contrastes desse mundo espirrados no meu rosto.

Do calor de matar para o frio de 3°, de um monastério budista para uma cidade totalmente iluminada para o natal cristão, do país mais barato que já fomos para o mais caro, da antiga colônia para o antigo colonizador.

No primeiro, nós vimos crianças brincando no lixo. E no segundo nós vimos crianças brincando de patinar no gelo. Apesar de refletirmos ”a custo de que isso aqui é tão bom?”, é fácil e gostoso demais amar Londres, se encantar com as ruelas só para pedestres, com as feirinhas de natal, com a arquitetura única e com a monarquia mais lembrada do mundo.

Me senti fascinada por aquele lugar, passeei pelos parques cheios de folhas do outono pelo chão, dei comida aos cisnes e esquilos, fui à um musical da Broadway, assisti à troca de guardas no palácio da rainha, vi o horizonte londrino através da London Eye.

Até patinei no gelo ouvindo música ao vivo e nessa hora chorei emocionada lembrando de tudo que tinha vivido até ali, me senti tão abençoada e pequena demais para aquilo tudo, tendo a certeza de que não há sonho que seja alto demais para alguém.

Já estou de volta à minha cidade natal – João Pessoa – e neste momento percebo em mim muitas pequenas mudanças ocasionadas pelas experiências que vivi, a maioria delas mudanças invisíveis, mas todas absolutamente significantes para mim.

Apesar das transformações que tive pelo caminho algo não mudou: a consciência que tive sobre a minha juventude e a minha liberdade.

Me vendo aos 23 anos de idade sem ter construído nada ainda, eu poderia ter ficado triste, achando que tinha muito a perseguir ou que estava atrasada para a vida – como se ela fosse medida apenas por conquistas materiais.

Porém, preferi tentar entender que quando não há o que se perder também não há ao que se prender. Há um mundo a se ganhar. Ou seja, existem muito mais coisas que podemos fazer do que as que não podemos e temos muito menos limitações do que achamos que temos.

Por isso, jovens, eu digo pra vocês e reforço para mim: olhe para os lados, olhe para a fase presente, você só vai passar por ela uma vez, esqueça um pouco a pressa em construir tudo de uma vez e vá se construir, vá ser alguém diferente: se arrisque, o mundo está de peito aberto para nós e estamos diante de um infinito de possibilidades. Se você está sonhando em fazer qualquer coisa que necessite de desprendimento – uma viagem, uma mudança de curso, de emprego, de cidade ou de casa – tente enxergar verdadeiramente se você não está esquecendo que é jovem e tem milhões de caminhos pela frente.

Se for, releia o conselho acima que eu dei para você e para mim, acredite, a maioria de nós não sabemos que somos jovens e como somos livres por isso. Livres principalmente para focar em SER primeiro do que em TER.

De material nessa experiência eu só trouxe alguns chaveiros e souvenirs, porém, eu pude SER várias em uma só: namorada, intercambista, hóspede, gringa, dona de casa, mochileira, voluntária.

E em todas elas jovem e livre.

E se você achar que, por causa de tudo que eu vivi, eu voltei querendo me manter nessa fase de juventude e liberdade para sempre, você estará enganado.

Pelo contrário, a sensação é de dever cumprido. Quando você de fato vive uma fase, você não se importa em ir para a próxima, você vai até com gosto, porque você já sentiu o que aquele ciclo podia te conceder.

Hoje eu me sinto bem mais motivada pra retornar o processo de construção das minhas coisas, da minha profissão e da minha família, e quando eu as tiver construído eu quero olhar pra trás e saber que eu não pulei a parte boa que a juventude podia me dar, que eu confiei no processo e pude viver plenamente o que naquele momento a vida podia me proporcionar. E eu vivi.

Juventude, foi ótimo te descobrir em mim, obrigada por tanto, seguimos juntas por mais algum tempo e uma parte de mim estará com você pra sempre, afinal, sua liberdade mudou quem eu sou.

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