Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Nesta quarta-feira, dia 17, a maior discussão da internet foi uma música de Mc Diguinho, chamada ‘Surubinha de Leve’, que de tão problemática ganhou o seu próprio texto no Superela (clica aqui para ler). Pois bem, um dos comentários que a gente mais leu em relação à essa questão (e ao próprio texto), é que a gente enalteceu o vídeo de Anitta, Vai Malandra, mas estamos maldizendo o tal funk de Diguinho. Ou seja, estamos sendo contraditóras.

E o que isso tem a ver com a cultura do estupro?

É mais simples do que a gente imagina.

Uma letra como a de Mc Diguinho escancara uma ideia que está muito enraizada na nossa história: os homens têm domínio sobre as mulheres, que são vistas puramente como objetos sexuais, à serviço dos prazeres masculinos. Tá, isso ficou bem difícil de entender desse jeito, em palavras tão grandes. No dia a dia isso significa que uma mulher não consegue passar na frente de uma obra, por exemplo, sem levar uma ‘cantada’ (e a gente discutiu bastante isso em outro texto, que você pode clicar aqui para ler).

liberdade sexual e cultura do estupro

O mesmo vale para uma passada de mão na balada. Um cara se acha no direito de tocar no corpo de uma mulher ou tentar beijá-la à força – e isso é considerado normal, afinal, ‘os homens são assim mesmo’.

O estupro entra, justamente, nessa mentalidade: a partir do momento que o homem acredita que tem direito sobre o corpo da mulher, ele tem certeza que pode fazer coisas com ela à força. Prova disso é a resposta do próprio Diguinho às críticas: “Se a minha música faz apologia ao estupro, prazer, sou o mais novo estuprador”. O comentário foi feito com a desculpa do ‘viva a putaria’ e fazendo pouco caso sobre uma realidade que afeta milhares de mulheres no mundo.

liberdade sexual cultura do estupro

Para trazer a coisa toda um pouco mais para perto, é assim: no Brasil, 135 mulheres são estupradas POR DIA. Os dados são do ano passado, liberados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que soma a isso 12 assassinatos de mulheres POR DIA também. Essa é toda a base da violência contra a mulher, o feminicídio e a cultura do estupro.

Ao dizer que é um estuprador e fazer uma música com apologia ao estupro, Mc Diguinho reforça essa cultura, que também tem por base o não-consentimento: essas mulheres que são estupradas são obrigadas a fazerem algo contra a sua vontade. Ela são forçadas a servirem aos desejos masculinos só porque são mulheres.

Não estamos negando que o que Diguinho chama de ‘putaria’ seja a realidade da periferia Brasil afora. É comum vermos nos jornas que, nas favelas, a população mais pobre está em contato com um nível de violência muito maior do que a classe média e que, mutias vezes, essas mulheres não tem consciência de que o que acontece com elas é uma violência – mas elas com certeza sentem o efeito disso diariamente. Mas isso, mesmo assim, é uma visão muito limitada de quem não vive essa realidade e não sente na pele como é viver desse jeito.

Onde entra Anitta e a liberdade sexual nessa história?

Citarem Vai Malandra, o clipe de Anitta, nesse caso, é muito significativo. Fale bem ou mal, mas a cantora fez todo um serviço de mostrar para o mundo inteiro como funciona a mentalidade da favela. Os ditos ‘eruditos’ (ou aqueles que falam que ‘funk’ não é música e que esse tanto de bunda na tela é uma baixaria) não sabem como vivem essas pessoas – mas a cantora fez questão de mostrar.

O ponto é que tanto ela, quanto Karol Conká, estão representando também um movimento de liberdade sexual feminina. Mas o que isso significa?

É assim: como as mulheres foram ensinadas que precisavam 1) satisfazer os desejos masculinos e 2) seguirem um padrão de comportamento muito bem definido como ‘santa na vida e puta na cama’, elas foram reprimidas e tiveram os seus desejos sexuais podados. Não à toa, tantas mulheres não sabem o que é ter um orgasmo e sentem nojo da masturbação (a gente pode ajudar você mudar isso, sabia? É só clicar aqui).

Aliás, essa sexualidade é tão censurada, que o clipe de Karol para a música Lalá, que falava sobre sexo oral em mulheres, agora tem uma notificação de ‘conteúdo provocativo’. “Eu não acho que o vídeo mereceu a censura, e eu sei que ele foi censurado por causa do número de pessoas que se sentiram ofendidas com ele e o reportaram como um vídeo inapropriado. Isso é a prova de que o prazer da mulher ainda é um tabu”, disse a rapper brasileira em entrevista ao Huffpost norte-americano.

Ao contrário, o vídeo com o funk de Mc Diguinho segue no ar, sem nenhum aviso, com mais de 14 milhões de visualizações.

Mesmo a própria Anitta, que não falou diretamente sobre esse assunto em Vai Malandra, tem um histórico de defender a própria sensualidade e explorar o seu corpo conforme a música – no caso desse clipe em especial, como ela não faria isso, se o morro é tão marcado pela sexualidade? Por que a bunda (sem Photoshop, vale lembrar!) de Anitta é uma ofensa, mas uma música que diz “taca a bebida, depois taca a pica” é ok? Por que é hipocrisia criticar um e enaltecer o outro?

A resposta é: porque as pessoas estão muito acostumadas com a imposição masculina no mundo, e a ideia de que as mulheres são inferiores e não merecem respeito quando enaltecem a própria sexualidade ainda existe por aí. O resultado são mulheres frustradas sexualmente, oprimidas e que sofrem uma violência diária que as coloca em risco por causa do gênero que têm.

Então, não. Não estamos aliviando a barra de Anitta ou o discurso de Karol Conká. Esse não é o assunto. Estamos lutando contra algo muito maior, uma cultura de violência que existe até em comentários do Facebook que dizem que ‘os homens são assim’ e que ‘mulheres deveriam se dar o respeito’.

Foto de capa: Reprodução / Twitter


O que você acha desse assunto? Acredita que existe uma diferença entre a cultura do estupro e a liberdade sexual? Dê a sua opinião respondendo a pergunta abaixo ou clicando aqui.

@ load more