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Uma jovem prestes a completar 18 anos vivia no ponto mais alto da torre desde muito pequena. Ela observava o mundo pela janela do espaço. A solidão era confortada pela presença da mãe, que a fazia se sentir protegida. Ainda que o cuidado fosse excessivo, para ela isso era uma manifestação de amor.

mães abusivas

Sobre mães abusivas e a busca pela aceitação

A história do filme Enrolados da Disney, uma releitura do clássico infantil Rapunzel, ilustra o relacionamento abusivo da mãe com a filha. Esse tema, pouco debatido na sociedade, é facilmente confundido com demonstração de afeto, cuidado, amor e o desejo de bem-estar para com a filha.

Muitas mulheres se sentem culpadas em fazer escolhas diferentes das desejadas pela mãe, como se isso significasse uma traição e o fim do amor entre elas. Essas filhas acabam se tornando dependentes da figura materna, sentem que devem corresponder às suas expectativas. Porém, nada do que fazem consegue completar o buraco afetivo que foi cavado nessa relação com as mães.

Qualquer pequena manifestação de confiança é rebatida com crítica, o que abala a autoconfiança da filha. Nesses casos, é comum encontrar exemplos de filhas que, na busca pela aceitação, optaram por abandonar a possibilidade de construir uma carreira. Desistiram de um relacionamento amoroso, ou até mesmo do poder de decisão da sua própria vida. Mas isso não é suficiente para as mães abusivas. As cobranças sempre retornam.

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Tradução: eu vejo uma jovem lady forte, confiante e linda. Oh, veja! Você está aqui também.

Está surpresa? O “abuso” se faz presente em diversos tipos de relação e não apenas entre casais, como estamos mais familiarizados. A mãe que mantêm um relacionamento abusivo com a filha não apenas projeta os aspectos pouco desenvolvidos em si, mas também estabelece uma relação simbiótica negativa com a filha.

Busca pela aceitação

Esse tipo de mãe abusiva é também ambivalente. Protege ao mesmo tempo em que desmerece a filha com críticas e cobranças excessivas. Desperta sentimentos conflitantes como cuidado e rejeição. Muitas mulheres passam a vida em relações de dependência com essa figura materna.

No trabalho psicológico com elas é muito comum encontrar grandes feridas nessas relações. Muitas filhas têm dificuldade para viver a própria vida porque carregam em si a culpa e uma demanda de amor em relação à mãe que nunca se esgota.

Mães abusivas e ambivalentes seduzem oferecendo o bem estar ao mesmo tempo em que machucam e ofendem. Isso gera uma grande ferida para a construção do amor próprio. Filhas com esse tipo de vivência vão precisar construir esse amor internamente sozinhas e nas relações com o mundo. Afinal, esse amor dificilmente virá dessa figura materna.

Voltando ao filme, a invasão da torre por um jovem ladrão, o qual representa um novo aspecto na psique da filha, desperta na antiga dinâmica instalada durante o desenvolvimento inicial da menina um novo olhar para o mundo, que não só o da mãe. Rapunzel começa a conhecer a vida com a ajuda do jovem e compreende que está presa e não protegida.

Prisão interna

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Uma filha que tem uma mãe abusiva está presa, mas se sente protegida. Perceber que isso é uma prisão e que existem outras saídas pela vida afora pode levar um tempo. Exige força interna, amadurecimento e coragem. Esse é um dos motivos que leva algumas mulheres a procurar ajuda psicológica. O ladrão do filme por quem Rapunzel se apaixona representa algum aspecto psicológico que surge na psique e que permite que a filha possa começar a ver o mundo de outra maneira. Não é uma tarefa fácil, muitas filhas se separam, voltam e caem na armadilha de suas mães abusivas novamente.

Em muitos casos são mães que oferecem bem estar financeiro aos filhos, mas os fazem pagar um preço alto por isso: o desenvolvimento da própria vida. Quando a filha tenta se diferenciar, demonstrando algum sinal de separação, a mãe usa a culpa ou a chantagem emocional como ferramentas para tê-la de volta. No próprio filme existe uma cena em que Rapunzel diz que acha que o jovem ladrão gosta dela e a mãe bruxa rebate com críticas e termina com a frase “sua mãe sabe mais”, repetida e inúmeras vezes.

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Tradução: acho que eu sempre soube que esse dia chegaria

Ruptura – é necessário romper laços

Do ponto de vista do desenvolvimento psicológico, é fundamental que os filhos possam se separar psiquicamente dos pais. Nesses casos de dependência e ambivalência, uma das grandes saídas é a separação física: se mudar de casa, arranjar um trabalho, e sair com um grupo de amigos. A figura paterna também é importante para incentivar a ida para o mundo.

Desta maneira, constrói-se uma vida mais autônoma, em que se oferece a força e a segurança necessárias para que a filha crie uma outra dinâmica psíquica e cresça. Em que possa se sentir amada pelo que é, sem a interferência da figura materna.

Clarissa Pinkola Estes, ao falar sobre o processo de desenvolvimento da mulher em seu livro Mulheres que correm com os lobos, cita que “A antiga parte dominante da psique oferece-lhe a possibilidade de mantê-la escondida e em segurança para sempre, mas sua natureza instintual recusa o oferecimento, pois sente que precisa lutar para viver em plena consciência, custe o que custar.” É possível compreender essa antiga parte da psique como a imagem interna da mãe negativa, ainda formada através dessa experiência com uma mãe ambivalente.

No filme, Rapunzel descobre que é filha da rainha e não da bruxa.

Do ponto de vista psicológico, essa rainha, uma mulher forte, é uma nova imagem de mãe interna, a qual foi desenvolvida a partir da separação da mãe abusiva e ambivalente das novas experiências de vida. Desse processo de conscientização e amadurecimento sobre si mesma.

Essa mãe interna é o aspecto psicológico que cuida, ama e fortalece, uma mãe mais consciente e flexível. Essa nova imagem de mãe interna também pode ser construída em um processo psicoterapêutico. Nesse momento do desenvolvimento psíquico, a filha não busca mais o amor através da mãe ambivalente, ela já está construindo esse lugar dentro dela mesma.

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Considero importante registrar que as mães abusivas e ambivalentes têm as próprias feridas, as quais estão abertas, sangrando e ressoando no cuidado com as filhas. O cuidado com o próprio sofrimento é fundamental para o desenvolvimento psicológico e emocional, mas nem sempre as pessoas estão disponíveis para esse movimento. Buscar esse caminho é uma escolha e toda filha ou mãe tem esse direto.

Imagem: Reprodução/ Carrie (2013)


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?

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