Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Poucas vezes na vida eu vi um show de horrores tão vil quanto o Roda Viva da última segunda (25). Caso você tenha passado os últimos dias hibernando – ou caso você simplesmente não ligue pra política, o que é uma tremenda ignorância, com o perdão da agressividade, porque tudo é política -, a sabatinada dessa semana foi a Manuela D’Ávila, candidata à presidência da República pelo PCdoB.

E o que era para ser um espaço para discussão de propostas políticas e planos de governo – afinal, é isso o que a gente espera de um programa jornalístico que se propõe a entrevistar candidatos a cargos executivos – virou uma tentativa de fuzilamento.

Em rede nacional e ao vivo, importante lembrar.

Entrevista é quando um pergunta e o outro responde. Manuela não foi entrevistada. O vídeo é auto explicativo sobre o assunto tratado: um homem machista tentando calar uma mulher e fazendo valer a sua opinião a qualquer custo dizendo que não existe cultura do estupro.

Publicado por Elika Takimoto em Terça-feira, 26 de junho de 2018

Tentativa porque Manuela D’Ávila, além de conhecimento e consciência social, tem um sangue frio invejável. Foram 90 minutos – ou quatro blocos – em que cinco jornalistas mais o mediador destilaram ódio, insistiram em provocações sem fundamento, atacaram e interromperam continuamente a entrevistada.

Eu tenho zilhões de motivos e argumentos para criticar o que aconteceu naquele estúdio, mas, para preservar a minha sanidade mental, os meus dedos e o tempo de vocês, vou me ater a apenas um deles: o machismo claramente reproduzido pelos que compunham aquela bancada de sabatinadores, representando o jornalismo jurássico e todos os valores e tradições que eu, a Manuela D’Ávila e provavelmente boa parte de vocês gostaríamos de ver enterrados a sete palmos. Juntinho com o chorume, que é o único lugar de direito de qualquer tipo de preconceito e silenciamento.

Comecemos com dados. Graças à boa e já velha internet, tenho em mãos a informação de que Manuela D’Ávila teve seu discurso interrompido 62 vezes ao longo de uma hora e meia de programa. O que dá, em média, uma interrupção a cada pouco menos de um minuto e meio. Vejam bem, em um minuto e meio vocês não conseguem sequer ler esse texto. Mal dá pra vencer a preguiça, levantar e ir buscar um copo d’água. Fui fazer xixi e, pronto, a Manu foi interrompida. Fui retocar o desodorante e, voilá, mais uma interrupção. Fui fritar um ovo e – olha só! – mais uma interrupção. O que mostra, claramente, que a intenção de quem a entrevistou não foi ouvir o que ela tinha a dizer, mas, sim, fazer a própria voz prevalecer.

Eu, como mulher, infelizmente posso afirmar que essa situação não me soou nada nova. Ser interrompida – ou sofrer o famigerado manterrupting – é parte do nosso cotidiano. Antes, eu sofria calada. Hoje, com um pouco de vivência e cara de pau, o que eu faço? Isso mesmo, cutuco o bracinho do colega e digo: “você me interrompeu. Será que eu posso terminar de falar?”. Postura essa, aliás, que a Manuela D’Ávila teve que assumir diversas vezes ao longo do Roda Viva – o que me trouxe um misto de tristeza pelo fato do manterrupting ser uma prática machista tão institucionalizada que acontece até em rede nacional com a alegria de ver que nós não vamos mais ficar quietas.

Manuela D'Ávila - 1

Imagem: Ferrugem

Roubaram o nosso espaço, a gente vai tomar de volta. Nem que seja à força.

Como se isso já não bastasse para compor um festival de desrespeito e machismo, teve mais. Muito mais. Teve jornalista pedindo para a Manu exemplificar situações de machismo que ela tenha vivido ao longo dos 13 anos de carreira política, como que querendo tirar a prova de que ela não estava “reclamando à toa” – afinal, mulher é mimizenta e exagerada, não é mesmo? Teve jornalista insistindo cinco vezes na mesma pergunta: “você não vai desistir da sua candidatura?” – afinal, a mulher é sempre o elo mais fraco da cadeia, e se alguém tiver que desistir de concorrer à presidência em prol de uma esquerda mais unida, que seja a mulher, esse ser que foi posto no mundo única e exclusivamente para embelezá-lo, não é mesmo? Teve homem querendo se certificar de que realmente é incômodo uma mulher ouvir que ela é bonita quando ela está tentando mostrar a sua competência – afinal, a nossa prioridade na vida é tão somente chamar a atenção dos machos, não é mesmo?

Teve, inclusive, homem branco e cis, do alto de seu trono de privilégios, reproduzindo a maior falácia que nós, mulheres e feministas, lutamos para combater no nosso dia a dia: a de que cultura do estupro não existe. Num mundo onde homens cercam uma mulher estrangeira e a fazem se referir à sua genitália de maneira pejorativa e objetificada; num mundo em que meninas são sequestradas e usadas como escravas sexuais; num mundo onde a gente toma passada de mão nos peitos, na bunda e na boceta no espaço público e sem consentimento; num mundo em que filmes mostram com mais naturalidade uma cena de estupro do que uma cena de orgasmo feminino, um homem vem dizer que não existe cultura do estupro.

Num país onde 135 mulheres são estupradas por dia, onde homens gozam à força no nosso ombro dentro do transporte público, onde macho bota o pau pra fora no ponto de ônibus para intimidar uma menina de doze anos, um homem tem a pachorra de dizer que não existe cultura do estupro. Homem esse, aliás, que é assessor de um candidato à presidência – cujo nome eu não vou citar pra não envenenar os olhos de vocês – que adora se referir a estupro como método corretivo.

Felizmente, Manuela D’Ávila resistiu com braveza a toda essa afronta machista e misógina, mostrando que é competente, forte e coerente. Mas infelizmente, esse episódio vergonhoso para o jornalismo brasileiro não é nada diferente do que nós, mulheres de luta, enfrentamos diariamente na nossa batalha por um mundo melhor, mais justo e menos desigual.

Imagem: TV Cultura / Reprodução

@ load more