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O que você procura?

Me encontrei esses dias em um bloquinho de Carnaval, dançando e cantando forró. Eu abria os braços e gritava junto com o cantor “EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS”, só para voltar a dançar agarradinha com o moço de novo. De longe eu parecia absurdamente feliz, transcendendo. Fiquei com inveja de mim mesma e fui lá me cutucar.

“O que é que tá acontecendo aqui?” Eu parei de dançar abruptamente, me encarei assustada, acho que eu não espera me ver. O cara também parou, com um sorriso no rosto que depois foi se apagando ao olhar para minhas duas versões. A minha impostora abriu um sorriso bem largo e depois cochichou alguma coisa no ouvido dele. Ele voltou a sorrir e se despediu com uma piscadela pra mim.

“Não esperava te encontrar por aqui” ela diz.

Paro para analisar a situação. O cabelo dela não está mais como era antes. Ela vê minha expressão e diz que o nosso cabelo nunca foi liso. É claro que ela sabe o que estou pesando. O corpo dela está quase todo a mostra e ela parece não ligar para isso. Está confortável naquela carcaça como eu nunca estive.

“Isso é uma realidade paralela?” pergunto. Ela gargalha. Deus, como eu odeio a minha risada. “Não é uma realidade paralela, eu sou o futuro” diz minha versão voltando a dançar de novo. Tento assimilar isso por um momento. “O futuro?” repito. “Sim, ou você é o passado, mas como dizer ao certo?” ela diz dando de ombros.

A encaro tentando achar coerência. Nem me lembro como eu cheguei aqui. “Chega de tentar entender, finge que isso aqui é um sonho e pergunta o que você quiser!”. Entro na onda. “Eu e o…” Mais risos. “Não, você e ele não vão ficar juntos.” Choque e tristeza aparecem no meu rosto. “Calma, vai ser uma coisa boa. Vocês não foram feitos para durar, só para acontecer”. Balanço a cabeça, nem concordando, nem descordando.

“Olha, você vai demorar um tempo para esquecê-lo, mas ele sempre estará na sua vida. Você vai se descobrir nos próximos anos, a passos de tartaruga, mas não se preocupa, vai chegar lá” diz essa mulher que eu mal reconheço.

“Onde é lá?” quero saber.

Ela pensa por alguns segundos e me diz que não sabe. Depois muda de ideia, olha ao redor e diz “acho que lá é aqui”. Olho em volto e vejo um monte de pessoas fantasiadas, bebendo, dançando e cantando. Não consigo entender como isso pode ser chamado de “chegar lá”.

Ela nota o desdém na minha cara e balança a cabeça como quem não acredita. “Aqui é um momento, meu bem, não é o paraíso, não é um lugar permanente, mas é um momento que vai fazer todo o resto valer a pena. As pessoas lutam todos os dias só para ter momentos como este aqui. Então pode ficar sossegada, você vai conseguir” diz ela e me abraça.

“Quando?” quase sussurro. “Logo, logo ou daqui a pouco, tu não vai nem perceber quando acontecer, vai tá vivendo”, respondeu ela “e não esquece de dizer isso tudo para a próxima quando chegar a hora, ela está perdida, acha que sabe de tudo, não se gosta muito”, completou.

O cara volta e pega na mão dela.

Aponta para o aglomerado de pessoas que já está se movendo e diz que eles precisam prosseguir. Ela concorda com a cabeça, me abraça mais uma vez e diz que me ama. Depois ela corre para os braços dele. Eles se beijam e sorriem. Mais pessoas chegam ao redor deles, dá para ver que se conhecem. Em fila indiana vão cantando “TU VENS, TU VENS, EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS”.

Sinto uma vontade enorme de chorar, não sabia que eu não estava satisfeita com a minha vida até ver a dela. Cor para todo o lado, música boa, gente se amando e até o céu parece ter sido pintando de azul felicidade. É uma bela cena, mal vejo a hora de ser a mulher dos meus sonhos.

Imagem: Unsplash

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