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Dia 8 de março de 2018. Um grupo de alunas de um renomado colégio carioca se reúne para protestar pelo direito de usar o uniforme de educação física, assim como os meninos. A direção se recusa a recebê-las, desqualificando seu pleito como menor, diante de tantas questões mais relevantes que a sociedade carioca vem enfrentando.

misoginia

Imagem: Reprodução

Seu protesto, inadequado, tendo sido tolerado naquele momento apenas para protegê-las de pessoas de má fé que delas poderiam ter se aproveitado caso a escola aplicasse as medidas que acreditava cabíveis para coibir sua manifestação. Ouvi-las e validar seu lugar de fala nunca esteve em cogitação. Melhor dirigir-se diretamente a seus tutores para que agissem no sentido de acabar com aquele rebuliço até o dia seguinte, em que a condescendência cristã até então praticada, terminaria.

Misoginia se aprende na escola

O protesto continua, com o impensado apoio de alguns dos responsáveis, e ganha destaque na mídia. Feminismo está na moda e a data escolhida ajudou. A instituição aceita receber um grupo de mães e se diz disposta a dialogar. Deixando claro, entretanto, que o diálogo só seria possível caso o protesto cessasse, as meninas voltassem ao uniforme anteriormente determinado e que dialogar não significa alterar resoluções ou renunciar a valores entendidos como inegociáveis. Ou seja, o diálogo proposto não parece ser uma via de reflexão, solução de conflitos, negociação ou mudança.

Egressa garbosa desta mesma instituição, leio a notícia estupefata. Estudiosa da área, os clichês da situação me saltam aos olhos. Claro! Óbvio que isso não é real… A instituição deve estar modernizando seus métodos e trabalhando o conceito de misoginia institucional através da criação de uma situação-problema! Grande ideia! Onde, melhor do que na escola, esses meninos e meninas entenderão o que é a igualdade de gênero e sua importância? Nada melhor do que o tal dia da mulher para abordar o assunto! Assim eles estarão afiados para identificar e lutar contra essa praga da nossa sociedade quando se tornarem os cidadãos atuantes que tal escola se orgulha em formar.

misoginia

Cria-se uma matrix e que, no nível do discurso, pretensamente valores como democracia, cidadania, igualdade e respeito ao próximo são norteadores das práticas institucionais. A desigualdade, contudo, é vivida no dia-a-dia das diretrizes e pressupostos considerados naturais por essa mesma instituição. Misoginia naturalizada, para ser direta. A comunidade escolar vive uma situação de dupla comunicação. Direitos iguais, só que não.

Alguém percebe e denuncia. Imagine! Não é bem isso que você está pensando. A realidade permanece inalterada. A denúncia se transforma em pleito. Querem ter o mesmo direito. Então… infelizmente isso não será possível… porque vocês são mulheres…. O argumento utilizado? A base da cultura do estupro: precisamos controlar o corpo feminino para não ter que controlar o comportamento masculino. Direito a autodeterminação do corpo não é possível para meninas, infelizmente. Sob pena de seus colegas se distraírem durante as aulas. Um preço impagável. Mais fácil vocês arcarem com esse custo. Injustiça? Imagine…

E deixem de mimimi.

Temos tantas coisas mais importantes acontecendo no Rio, no país, no mundo. Pleitos femininos não costumam ter importância. São criação de caso, exageros, mimimi, discussão de relação. Voltem já para a aula, e de uniforme! Protesto? Como ousam? Vou contar para o seu pai. A encarnação da serpente agora virou apenas uma menininha birrenta. Tudo bem… por hoje passa. Mulheres e suas birras infundadas… Melhor ficar quieto e deixar passar. Elas são assim mesmo, fogo de palha, de fases. Amanhã já vão ter esquecido essas sandices. Aos pais: controlem o show que a nossa paciência está se esgotando…

Os pais resolveram apoiar? Meu Deus, esse mundo está mesmo perdido.

Geração sem limites, questionando valores inegociáveis, moldados por anos de opressão. Essas menininhas insolentes agora querendo cantar de galo…

Droga! Saiu no jornal… Oportunistas! Não sabem que em situações de opressão não se deve meter a colher? Se pegar muito mal é capaz de termos que rever nossos valores inegociáveis. Ah! Grande ideia! Vamos oficialmente comunicar que houve um grande mal-entendido. Não era bem isso que vocês estavam pensando. Somos uma instituição comprometida com a igualdade, a cidadania. Estamos abertos ao diálogo. Aquele… que ouve e deixa se esgotar.

Espera a poeira baixar para ficar tudo como antes.misoginia

Estamos aguardando ansiosos as cenas dos próximos capítulos. Comunidade escolar, ex-alunos, sociedade. Até agora a instituição tem muitos motivos para se orgulhar. Uma situação-problema muito bem construída, com todos os elementos sórdidos da misoginia, digna do que ocorre nas melhores famílias, nas mais tradicionais universidades e empresas onde esses meninos e meninas vão se inserir no futuro. Até agora, elas e eles vem conseguindo identificar todas as armadilhas da desigualdade de gênero e se posicionar diante delas com muito mais destreza do que as gerações anteriores.

Eu poderia dizer que eu sou vocês amanhã.

Mas isso não é verdade. Vocês são muito melhores do que nós fomos. Isso que vocês conseguiram fazer, e muito mais – se seguirem em frente – é maior do que os avanços módicos alcançados com muito suor por meia dúzia de vozes isoladas de gerações anteriores. Parabéns a vocês, meninas, pela sororidade, garra e organização. Meninos, pela compreensão de que este é um problema de todos. Mães e pais, pelo apoio imprescindível.

Parabéns à escola, pela oportunidade. A sociedade aplaude o esforço de vocês em tão profundamente ensinar aos alunos e a todos nós a pensar e a lutar contra a misoginia naturalizada nas instituições. Obrigada, pessoalmente, pela chance de meter minha colher e ser didática sobre esse tema crucial. Aguardando o momento em que vocês vão finalmente revelar que tudo isso não passou de um grande exercício de cidadania. Ou estão esperando o dia 1 de abril?

Estamos de olho! Vamos juntas!

Imagens: via El País


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?

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