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Vai ser grande, já aviso logo. Mas quem é mulher e vive sobre pressões e medos, pode ser interessante ler.  Hoje eu conheci a Milena. Infelizmente não foi a melhor forma de se conhecer alguém. Milena estava sentada na calçada de uma rua deserta e chorava feito criança quando esta com fome.

Sentei-me ao lado dela, assustada com aquela cena e com tamanha desolação.Disse para ela não ter medo, que só queria ajuda-la, e lhe perguntei o porquê de tantas lágrimas e desespero. Milena então olhou pra mim e começou a falar.

– Sabe moça, eu sempre fui do tipo de garota que nunca teve papas na língua, sempre enfrentei meus medos e sempre lutei para ser alguém melhor a cada dia. Mas talvez eu tenha falhado em não ter medo de nada, foi essa falta de medo que me fez sair sozinha á noite por esses morros sem fim de Ouro Preto. 

Eu, sem conseguir raciocinar direito, ou talvez sendo inocente lhe perguntei: mas qual foi o problema de tu teres saído sozinha por ai? Eis então a resposta que eu não esperava.

– Eu achava que certas coisas só aconteciam com os outros e talvez por ter essa concepção, eu acabei sendo estuprada. Foi horrível moça, e o pior é que não foi hoje. Já tem um ano que aconteceu e quase sempre me pego pensando nisso, e me sinto suja, me sinto um lixo, me sinto culpada, ai as lágrimas rolam. 

Tive que pensar rápido para saber quais as palavras certas para dizer pra Milena, que me parecia estar no auge dos seus quinze anos, e então decidi lhe contar a minha história.

– Sabe, Milena, quando eu tinha mais ou menos a sua idade, fui a uma festa e me perdi das minhas amigas, e acabei sendo abusada. Desculpe, mas ainda não consigo dizer que fui estuprada. Eu entendo perfeitamente esse seu medo e posso lhe dizer que talvez ele nunca acabe,  só se transforme. Comigo já tem mais de dez anos que aconteceu. Hoje eu continuo fazendo o que sinto vontade, continuo dando a cara à tapa, mas talvez sinta medo por apenas ser mulher e viver nesse mundo machista e violento. 

Este texto foi feito para ajudar uma mulher vítima de estupro 1

Milena arregalou seus belos olhos verdes para mim, já havia parado de chorar e estava assustada. E então me perguntou: – Por que você não denunciou moça? – E lhe respondi:

– Por medo, medo de ser mais violentada ainda, não sexualmente, mas moralmente. Pensei no que os meus conterrâneos iriam pensar sobre mim, pensei no que minha família iria falar, tive medo de ficar sozinha e guardei isso pra mim por uma década. 

E Milena começou a ficar mais curiosa e me fez mais perguntas.

– Desculpe se vou ser atrevida com minha pergunta, mas hoje, depois de tantos anos, a sua vida sexual e amorosa é normal? – Engoli seco depois de ouvir, mas respondi da melhor forma.

– Por muito tempo foi horrível, eu era insegura e morria de medo de ser usada como fui usada naquele dia. Eu sentia ciúmes, virava a mesa, não conseguia sentir prazer. Hoje consigo ter uma vida normal, sem sentir culpa quando as coisas não saem como o esperado. Diz um ditado que se conselho fosse bom, a gente não dava, a gente vendia, mas vou te dar um assim mesmo. 

Milena, nunca mais se sinta culpada pelo o que fizeram com você e muito menos se sinta suja. Procure ajuda psicológica, um bom profissional (temos indicações aqui) irá lhe ajudar a encontrar caminhos para sair dessa bolha que você se enfiou. Não tenha medo de viver, e de ter relacionamentos. Esse mundo é grande demais e, embora eu me considere uma pessoa sem religião, eu acredito na justiça divina, pode ter certeza que quem fez isso com você e quem fez comigo ira pagar de qualquer forma.

Este texto foi feito para ajudar uma mulher vítima de estupro 2

Quando você se sentir mal como hoje, vista o seu melhor sorriso, passe o seu melhor perfume e vá ser feliz. Ajude os outros, essa é a melhor forma de engrandecimento de alma. Não fuja de suas feridas, busque sempre aquele mertiolate que não arde para cura-las. Sempre que puder, conte a sua história para alguém, você ficará assustada em descobrir o quanto isso é normal e acontece frequentemente. Mas também irá se sentir aliviada por saber que não foi a única a passar por isso.

Milena ficou esbabacada e começou a gaguejar, a tropeçar nas palavras.

– Mas moça, eu ate arrumei um namorado e me dou bem com ele, mas não consigo ter relações. Acho que nunca vou perder esse medo. Sei que existem mil casos de estupros, mas também sei que cada pessoa encara de um jeito e o meu jeito de encarar isso, talvez seja fugindo. Fugindo dos outros, fugindo de mim mesma. Enfiando-me num casulo imaginário para me sentir protegida. 

Eu, que jamais me imaginei tendo uma conversa cara a cara com outra vítima de estupro, não sabia mais o que dizer. Mesmo depois de tanto tempo, mesmo sabendo que a maioria dos nossos traumas são psicológicos, precisei olhar para dentro de mim e cutucar minha pior ferida. A de me sentir inferior às outras gurias por isso. Olhei bem nos olhos de Milena e falei:

– Olha, tem dias que por vários instantes eu me sinto um lixo, mas ai me lembro de que eu não tive culpa de nada, que fui simplesmente uma vítima de um crime, uma vítima igual vítimas de assaltos. Ai logo me aprumo, porque me sentir vítima do mundo e inferior aos outros por isso não irá me levar a lugar nenhum, pelo contrário, vai só me colocar no chão. 

Tem vezes que precisamos nos encarar no espelho e falar em voz alta que não tivemos culpa de nada, que não somos piores por isso, e que da pra viver normalmente sim. Basta querer. Queira isso também Milena. Preciso ir agora, fique bem!

Milena só sorriu, me agradeceu pela atenção e disse que a partir daquele dia iria sempre tentar se ver diferente e encarar seus monstros internos.

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Eu, ao ouvir aquilo fiquei feliz e com o coração tranquilo, porque sei que quando a vontade vem de dentro a gente consegue mudar qualquer coisa.

Imagem: Henn Kim | Pinterest


Agora que leu este texto, que tal ajudar a leitora abaixo? Ela precisa MUITO de você! 

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