Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

procedimentos estéticos

Imagem: Getty Images

1. Porque eu não preciso

Antes de você me achar metida e/ou privilegiada, explico. O “não preciso” de procedimentos estéticos não é no sentido de que eu já sou linda ou tenho uma autoestima inabalável. É no sentido do que eu ouvi outro dia de um grande amigo. Reproduzo aqui parte da conversa:

Fulano: Por que você não faz aqueles peelings para clarear essas manchas no seu rosto (se referindo ao melasma que eu adquiri depois da gravidez)?

Eu: Imagina, querido, que você tivesse umas manchas dessas e que a solução fosse ir regularmente passar uma parte da sua tarde na esteticista enquanto ela passa uma coisa que arranha a sua cara ou um ácido que vai fazer a pele do seu rosto queimar e depois descascar? Que você tivesse que fazer isso várias vezes, que de noite você tivesse que passar mais uns cremes antes de dormir (e esperar um pouco ou dormir com o pescoço duro para não esfregar no travesseiro). Que você não pudesse mais ir à praia sem óculos, cara branca e chapéu e que você tivesse que usar um outro creme (filtro solar) de manhã e mais um pouco na hora do almoço? Além disso, que tudo isso custasse uma fortuna.

E a cereja do bolo: que um simples dia na praia sem proteção, ou um passeio de barco inocente pudesse colocar todo esse esforço a perder? Por que você faria?

Fulano (pensativo): Acho que eu não faria não… acho que porque eu já tenho tanta coisa para fazer, e para pensar… Na verdade, acho que eu não faria porque eu não preciso…

Antes de aprofundarmos nessa questão, quero deixar aqui registrado que, como feminista liberal que me considero, acima de tudo: seu corpo, seu dinheiro, seu tempo, suas regras! Além disso, falo de um lugar de mulher branca (mais para parda, na real), classe média, escolarizada e casada com um cara no mesmo perfil. Dito isso…

Esse “eu não preciso” de procedimentos estéticos resumiu um incômodo com o qual eu convivia há anos, sem saber exatamente explicar.

Será que eu preciso? Nesse caso específico das manchas no rosto, senti que não, apesar da grita geral. E virou um experimento socioantropológico! Perdi as contas do número de amigos, familiares e até pessoas com quem eu não tenho a menor intimidade que já vieram me perguntar o que são as tais manchas no meu rosto e porque elas estão ali. Como se uma mulher da minha classe social, da minha idade ou sei lá o quê PRECISASSE fazer algo para elas desaparecerem! É (quase) um incômodo social que eu tenha resolvido, silenciosamente, me rebelar contra essa regra. Isso porque eu sei que todas essas pessoas que vieram até mim tocar nesse assunto de fato se importam comigo. A ponto de vir falar que tinha algo de muito esquisito em eu ter um rosto um pouco manchado.

Sinceramente, devo confessar que mesmo essa minha rebeldia tem limites e que eu não consigo ir a um evento mais arrumado, como um casamento ou uma balada, sem passar um pouco de corretivo e base para cobrir as tais manchas. Ou seja, algo de mim ainda acha que, às vezes, é preciso sim estar com a cara impecável.

Por isso o ‘quase’ do título.

Digo isso porque não me submeter a procedimentos estéticos não é, da minha parte, um ato político ou de militância feminista. É o fruto de falta de tempo, falta de saco, e alguns anos de reflexão que fazem com que, hoje, na maior parte das vezes, eu ache que eu não preciso e prefira gastar meu tempo, meu dinheiro e minha paciência com outras coisas. E é essa reflexão que eu venho aqui hoje dividir com vocês.

Eu raramente falo sobre isso. E quando falo, os homens estranham, mas tendem a achar que é ok (até porque eu não sou mulher deles…). As mulheres normalmente acham que eu sou radical ou então respondem que elas “se cuidam” por que elas querem. Tipo meu corpo, minhas regras, sabe?

Só que algo dentro de mim desconfia que não é bem assim… Por que a grande maioria das mulheres acredita que se cuidar é investir para sua aparência estar conforme os padrões socialmente construídos de beleza? Por que “se cuidar” é almoçar correndo para ter tempo de fazer as unhas antes de voltar para o escritório? Por que “se cuidar” é tomar, literalmente, injeções na testa para parecer mais jovem do que realmente é?

Por que as mulheres tendem a achar que cuidar delas mesmas é usar o tempo livre na hora do almoço para fazer as unhas e não para ter tempo de tirar um cochilo? Ou gastar o dinheiro do botox com algo que realmente as faça rir a ponto de aparecerem todas as marcas de expressão que seus músculos faciais conseguirem produzir? Por que as mulheres que “se cuidam” não se sentem livres para comer o que tiverem vontade, para aproveitarem os momentos ao ar livre sem se preocupar com proteção solar ou mesmo para saírem de casa com o cabelo molhado quando está calor, com as unhas mal feitas ou as pernas por depilar?

Uma coisa que eu aprendi como psicoterapeuta foi que uma forma simples de descobrir nossas reais motivações é perguntar: “Eu acho melhor fazer … por que senão…?”.

Essa forma de olhar as coisas talvez nos ajude a entender o que faz as mulheres acharem que PRECISAM “se cuidar” dessa forma. “Eu faço minhas unhas porque senão sinto vergonha por estar com as unhas mal feitas”. “Eu não como o que eu quero porque não quero ser uma mulher gorda (que, de fato, sofre muito, na nossa sociedade)”, “Eu coloco botox porque assim eu vou continuando jovem aos poucos e ninguém percebe (que você envelheceu?)”, “Eu passo esse creme no rosto todas as noites para não ficar com rugas (e parecer uma mulher velha, que é outra que sofre para burro na nossa sociedade!).

Esse “se cuidar” me parece, no fundo, uma luta inglória para evitar deixar de ser uma mulher jovem, bonita e magra e se transformar em uma mulher velha, feia e gorda.

Porque se já é difícil para caramba ser uma mulher jovem, bonita e magra, imagine ser uma mulher velha, feia e gorda! Podemos lembrar aqui das celulites da Anitta, da Preta Gil, da esposa do Rodrigo Lombardi… e quantas outras mais…

procedimentos estéticos

Estrias da Anitta <3

Eu também não tenho coragem de virar uma mulher velha, feia ou gorda. Isso sim é um ato de rebeldia contra todas as normas da sociedade! Ou de coragem, porque é pedreira!

Aí chego no segundo motivo de porque eu (quase) não faço procedimentos estéticos.

2. Porque não adianta! É enxugar gelo

A não ser que eu morra precocemente, inexoravelmente vou me transformar em uma mulher velha, minhas formas e meu percentual de gordura vão mudar e eu vou ficar “feia”, considerando um padrão de beleza que não comporta nenhum sinal de envelhecimento.

Querendo ou não, é só uma questão de tempo. Posso passar cada vez mais fome, só viver escondida do sol, aplicar litros de botox, cremes e filtro solar, arrancar cirurgicamente toda a pele que for ficando flácida ou excessiva, malhar como uma louca que, de um jeito ou de outro, vou ser, no máximo, a Suzana Vieira. Nada contra ela. De verdade.

Uma hora ou outra vou ter que “me largar” e “me permitir” virar uma velhinha. E como vai ser isso? Como meu senso de identidade vai sobreviver a, de repente, ter que entrar nesse novo papel? Como minha vida sexual vai sobreviver a meu marido ter que transar com uma velhinha?

Por isso que eu decidi pagar essa conta aos poucos. Quem sabe assim o trauma não é menor?

Falo aqui de uma decisão pessoal. Alguma coisa dentro de mim acredita que ir envelhecendo, percebendo em mim as marcas do tempo, da gravidez, da amamentação, do sol, das prioridades que mudam ao longo da vida, é um processo mais natural e talvez menos sofrido.
Digo menos sofrido porque eu não sou essa descontruidona que simplesmente não vai se importar de sair de um lugar de (algum) privilégio (a mulher jovem e bonita) e passar a integrar a massa desprivilegiada do mercado sexual. Vai ser punk! E é exatamente por isso que eu resolvi que vou me acostumando (e a todos à minha volta) com essa ideia desde já.

Quem sabe assim, nós mulheres não vamos, construindo não só um futuro, mas principalmente um presente que, de fato, nos faça mais felizes e menos reféns? Quem sabe assim vamos nos permitindo entrar em contato com as nossa reais necessidades. O que a gente de fato PRECISA.

Que as celulites da Anitta nos ajudem a colocar nosso corpo real em um lugar de mais normalidade e menos ameaça. Obrigada querida! Vamos juntas!

Imagem: Getty Images


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?

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