Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Eu poso para ensaios de nu artístico desde pouco depois de completar dezoito anos.

As diversas experiências de ensaio nu artístico foram o que me fizeram amadurecer. E mais que isso, me encontrar como artista e entender um pouco sobre o que eu gostaria de produzir como forma expressiva de arte.

E quero muito organizar cada experiência dentro da minha cabeça e fazer um textão repleto de tópicos e dicas voltados para meninas que desejam começar a posar. Só que ainda não estou psicologicamente preparada para isso. Então seremos mais práticas aqui, ok? O que não significa que não será um textão (sorry).

Vamos apenas organizar a estrutura deste texto, pois aqui tratarei de três assuntos que se completam.

  1. O nu na arte
  2. O estigma do nu
  3. A minha experiencia com o nu e a importância de dar maior atenção para as fotógrafas de nu

E no fim nós temos uma lista bem gordinha de fotógrafas que você vai amar conhecer assim como eu amei.

O nu na arte

nu artístico marthe

Primeiro vamos refletir um pouco sobre o nu na arte. A ideia de praticidade parece cair por terra, mas prometo que isso não irá acontecer.

Três exemplos pessoais MEUS.

Quando penso em nu logo me vem as imagens das esculturas da Vênus, dedicadas a cultos a fertilidade, sendo a mais antiga datada do paleolítico;

A Olympia pintada por Manet, que chocou não por ser uma mulher nua, mas sim por ter sido pintada numa época em que para pintar nus você precisava da desculpa de estar retratando um ser mitológico. Supostamente a Olympia se tratava de uma simples garota de programa;

Marthe, a esposa de Bonnard e pintada por este em todos os cenários possíveis e poses possíveis, também é um exemplo.

O que cada uma dessas peças tem em comum? A não ser o fato de serem mulheres nuas, nada! E é aí que está a beleza da coisa.

O estigma do nu artístico

O nu sempre existiu e parece loucura precisar falar isto. Mas ele sempre foi retratado de alguma forma e as estatuetas de Vênus estão aí como prova, mesmo que não fosse uma manifestação de cunho artístico, era nu.

E o nu permanece na escultura, na representação de Deuses e seus filhos, como forma de exprimir e saciar a ambição pela representação perfeita do ser humano, de seu corpo.

Por que então a existência do estigma mesmo hoje é um mistério. O nu deixa de ser visto como agressivo quando na forma de escultura ou mesmo pinturas. Sejam os pop eróticos de Tom Wesselmann, que ganham cunho mais satírico do que erótico, ou a inércia doméstica da Marthe Bonnard. O problema se encontra na fotografia e ainda mais no nu pessoalmente e vivo, que se mexe e respira.

Apesar de saber da descredibilidade que uma pessoa pode sofrer posando sem qualquer adorno para cobrir o corpo, eu sempre quis posar.

Por quê? Não sei.

Inicialmente eu pensava na fotografia sensual, mais precisamente para o estilo comercializado pela Suicide Girls (ainda penso, quem sabe um dia). Acho que toda menina que amava tatuagens na adolescência já pensou em produzir um ensaio para a SG. Acontece que eu conhecia somente o nu voltado para o sensual de cunho erótico. Não pensava neste inserido em meios artísticos mais credibilizados. Como uma arte válida sem estar no contexto erótico.

Sempre passei longe do pensamento preconceituoso, realmente achava que o único tipo de fotografia de nu era o sensual.

Talvez pudéssemos atribuir o estigma ao nu a esta conveniente falta de informação.

nu artístico tom wesselmann

Por quê e para quê eu poso para nu artístico?

Focando em ser prática, não posso ficar especulando sobre a aceitação ou não do nu, apenas posso responder o porquê de permanecer posando, o porquê de EU gostar.

Sem textão sobre nu e empoderamento também. Eu não saberia como falar disto. Não é a razão pela qual poso, então não acho que seja algo que caiba a mim. Não cabe a mim dizer “posando nua você se sente livre e passa a se aceitar mais”, isso soaria muito falso vindo de mim e o buraco é bem mais embaixo.

Eu não sei o porquê de ter começado a posar.

Apenas recebi um convite de um colega de trabalho na época e foi isso. Seria para o projeto Sessão Click coordenado pelo Kako Soares, produtor da companhia de teatro Hypócritas (vale a pena dar os créditos a ele e meu eterno obrigada). Seria algo sem fins lucrativos, apenas pela experiência, pela arte e pela curiosidade, então fui.

A partir de então já posei para fotógrafos homens, fotógrafas mulheres, já procurei e já vieram atrás. Tipos variados de ensaios, com propostas variadas e eu não saberia explicar a sensação de cada experiência, sei dizer que a sensação após os ensaios é algo como dever cumprido, parecido com quando termino um texto ou uma colagem, é trabalho.

Por quê eu AINDA poso é mais fácil de responder e talvez ajude caso alguma menina por aí pense em posar.

Além do simples porque eu quero, eu sinto que preciso daquele momento para mim. É como comprar, pintar ou fazer uma tatuagem, é um momento que eu PRECISO.

Cada ensaio de nu artístico é uma experiencia única. Cada fotógrafo é único e trabalha de uma forma diferente, não é um ensaio para fazer grana. São ensaios para sentir e desenvolver em colaboração (se a grana vier, melhor ainda)

Eu adoro tentar entender o que fotógrafo quer, o processo criativo deste e me ver inserida no resultado final.

É claro que tudo isso pode ser dito voltando-se para qualquer outro tipo de fotografia. Mas, eu tenho a sensação de que o nu artístico é mais sensível, mais frágil.

É difícil ver-se exposta, não vou mentir dizendo o contrário e aí encontramos a diferença.

Aceitando fazer um ensaio de nu artístico ou buscando que façam para ti, você também está dizendo que confia em alguém, que confia no olhar deste.

Para quê é mais complicado. Algum dia pretendo trabalhar com performance e o nu artístico estará envolvido, a fotografia também. Porém, ainda não chegou a hora, pouca experiência, falta-me muito aprendizado. O para quê de agora envolve muito mais o meu eu interior. Não somente a questão do precisar posar, estar inserida em arte e a gratificação pessoal por fazer parte de algo sensível. É também o querer mudar percepções.

Nunca olhei o nu como algo estranho ou vulgar. Era algo que apenas existia e com o qual convivemos diariamente. Mesmo assim, ainda tem quem olhe torto para fotografias nuas, mesmo que seja na exposição Mulheres Radicais da Pinacoteca de São Paulo (cara, se você sabe o titulo da exposição e o tipo de arte que estará presente lá, por que você se dá o trabalho de ir sabendo que não vai gostar?!). Isso porque eram registros documentais de ditaduras e épocas repressivas permeadas por protestos.

E acho que é para isso que poso.

Para poder contar a minha experiência para as pessoas e mudar algumas percepções. É isso o que faço hoje e que talvez continue fazendo com as minhas próprias performances (algum dia).

O sensual

A fotografia sensual existe, não dá para ignorar ela aqui e continua sendo uma forma de arte, meus anjos, mesmo quando voltada para o erotismo. Não vou entrar no assunto do que diferencia um sensual de um erótico. O ponto é: o nu sensual existe, pode ser voltado tanto para a arte quanto para o mercado erótico e pode ser algo leve como o que é visto na Suicide Girls. Inclusive, vamos enaltecer um pouquinho a Kasha Lee, dona do perfil ali em cima, que faz trabalhos em grande parte voltados para modelos SG.

Eu já fiz alguns ensaios sensuais. Essa parte do texto é mais para tentar diferenciar experiências do que explicar um tipo de nu e outro.

No tempo em que estudei indumentária e um pouquinho de psicologia de moda, uma das coisas que aprendi é que as roupas fazem você. As roupas fazem a sua imagem e muitas vezes você não tem controle disto. A roupa é uma construção de personalidade, algumas características nossas mudam sutilmente, porém de maneira perceptível, dependendo de como estamos vestidos. Você pode ler sobre isso de maneira mais aprofundada no livro Moda & Inconsciente: olhar de uma psicanalista, de autoria da Pascale Navarri. Ou mesmo algo muito parecido no conto A nova roupa do rei.

O ensaio sensual dificilmente se inicia totalmente nu, na verdade um ensaio sensual não precisa ser nu e por isso o meu apontamento a cima sobre roupas. A roupa, mesmo que uma lingerie, influencia o nosso comportamento naquele momento. Vestida de uma forma sensual você se sente mais confortável em ser sensual mesmo que habitualmente não seja. 

O nu é cru. Trata-se de uma exposição maior não somente por mostrar mais pele, por mostrar mais de VOCÊ. Despida, não há para onde correr. Não tem como você se agarrar a um pedaço de pano, a uma alça de camisola, uma bainha de saia. É apenas você, como se qualquer ensaio vestida fosse uma questão de construção de personagem e somente no nu você se encontra consigo e precisa se confrontar com outra pessoa olhando-te fixamente.

Não é assim no dia a dia?

Digo, quando estamos peladas em casa por estarmos indo tomar banho, ou indo pegar algo esquecido no quarto ou só mofando na cama esperando a hora de nos atrasarmos chegar. Você está nua. Se olha nua, se faz perguntas e dá a si mesma respostas desagradáveis sobre o próprio o corpo, dai reflete um pouco e pensa “que se dane”.

É assim nos ensaios. O fotógrafo é o espelho e dentro da sua cabeça circulam as mesmas perguntas, as mesmas respostas e o mesmo dane-se.

É diferente num ensaio sensual, mesmo num ensaio sensual totalmente nu, você se agarra a um personagem. Você tem a quem se agarrar.

Fotógrafas de nu artístico que você precisa conhecer

E então chegamos ao último item daquela estrutura que eu fiz lá no inicio do post. A importância de dar maior atenção as fotógrafas de nu artístico.

Tem um motivo para modelos mulheres se sentirem mais confortáveis com o olhar de uma fotógrafa mulher quando fazem um ensaio nu. Entra em questão a parte da desconfiança, é triste, mas, mesmo já tendo sido fotografada por homens, me sinto mais segura com mulheres. Tirando essa parte, as propostas são diferentes.

São raros os fotógrafos homens interessados em fazer ensaios nus por arte e apenas. Mesmo quando um fotógrafo homem chega com uma proposta de nu artístico, no fim o resultado é um ensaio sensual velado. Não tinha a intenção de ser sensual, mas o resultado dificilmente é diferente deste.

É claro que hoje em dia há sim meninos que fazem trabalhos de arte inserindo o nu ali de maneira delicada e sensível, os tempos mudaram, mas o ponto é que isto ainda é uma raridade e toda garota que posa para nus já recebeu uma proposta desagradável de algum cara que achava que poderia conseguir algo a mais em troca de fotos no apartamento de chão de madeira dele.

E mesmo as propostas de um ensaio sensual apresentadas por homens e mulheres são diferentes. Uma questão de olhar, construção social de sensibilidade e conexão feminina, você se sente mais bem entendida por uma mulher.

Sendo assim, se as próprias garotas interessadas em nu artístico se sentem mais seguras e mais bem acolhidas pelas lentes das mulheres, nada mais justo que exaltar essas mulheres que desenvolvem um rico trabalho em arte, que trabalham a margem do próprio mundo fotográfico, esquecidas em exposições e mostras de fotografias organizadas por grupos masculinos que priorizam seus amiguinhos.

1. Amanda Morais (@serfilografia)

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Ontem na aula falando sobre os bloqueios do ano passado (que foram muitos) eu percebi o quanto isso foi produtivo no meu desenvolvimento como pessoa e profissional. Vou contar um pouco sobre isso… Nos processos de tratamento das fotografias tentei esconder a nudez que estava sendo exposta, e que de algum modo estava gerando tanta polêmica, durante isso refletindo de quais meios utilizar, percebi que não me identificava com uma tarja preta escondendo as partes íntimas (consideradas culturalmente), então fui experimentando aquela bolinha de retoque do Lightroom, copiando e colando, bolinha em bolinha… O que eu não esperava e o que aconteceu, foi que aquele processo era um descobrimento da minha própria identidade. Tive várias sensações naquele momento, coisas que nem sei explicar, processos intuitivos, sabe? Sobre identidade, acredito que isso não se forma, não se fecha, não se conclui, ela na verdade está em constante transição, mutação, metamorfose. Hoje tirei o dia pra exaltar as novas possibilidades que o bloqueio gerou nesse trajeto. Resiliência artística é sobre utilizar o que temos, é sobre dar sentido as ferramentas mínimas que temos em mãos, processo criativo é sobre intuição, estudo, e ampliação de possibilidades. Resuminho: Utilizei uma T5, lente 18-55, processo de tratamento pelo Lightroom (sem utilização de Photoshop).

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As fotos da Amanda Morais nos dão a impressão de estarmos visualizando quadros pintados a óleo, sobretudo quando ela trabalha com a natureza. É como se a modelo não invadisse um espaço para posar, mas sim fizesse parte daquilo, em uma conexão sóbria, sem contrastes agressivos do Ser humano x Natureza, um pertence ao outro.

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Série: Deusa de si.

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A Amanda também faz outros trampos de arte, pintando e confeccionando cadernos artesanais, bolsas e mochilas ecológicas.

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com marcas me movimentar

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(olhe o feed)

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2. Débora Nis (@deboranis)

Eu adoro o trabalho da Débora, ela não somente faz nus femininos, como masculinos também e desde que eu comecei a acompanhar o trabalho dela (e fuxicar os stories, porque é disso que a gente gosta) vi que alguém tinha um pensamento que batia mais ou menos com o meu.

“[…] De nada adianta a gente se desconstruir se vocês ficam presos num modelo tóxico de masculinidade que também é perigoso para a autoestima.” Débora Nis.

E é isso, Brasil. Homens tem o direito de serem sensuais, exporem fetiches para a pessoa de quem gostam, de fazerem um ensaio sensual que não pareça ter sido retirado de um comercial de academia. Uma vez conversei com um amigo fotógrafo sobre um ensaio sensual masculino que ele produziu. O abençoado não escondeu o desconforto ao dirigir o modelo, ele não conseguia articular a situação (nenhum dos dois conseguia!). O resultado foi um comercial de academia genérica, é isso.

Então, sim, teremos aqui alguns nus masculinos, é necessário!

O trabalho da Débora é real, os modelos (femininos e masculinos) são reais. Ela não retoca a estrutura corporal física da pessoa que posa para ela. Não aumenta peito e nem endurece bunda (o motivo você pode conferir na série de stories dela Sobre meu Trabalho, não cabe a mim expor este aqui). O que é importante para esquecermos a ideia de que o retoque é necessário.

Claro que espinhas, hematomas e machucados são retocados. São anomalias que surgem, não são inerentes ao corpo. Entretanto, a estrutura do corpo é física e querer mudá-la com uma desculpa, eu já ouvi muito essa, de composição fotográfica (umas pelancas atrapalham na composição da foto, sério?) sem aviso prévio é no minimo um insulto á pessoa que esteve ali posando e possivelmente amava algo que o fotógrafo simplesmente tirou e jogou fora.

E sobre os nus da Débora, tanto femininos quanto masculinos, só tenho a dizer que parece encaixar com o meu pensamento de mudança de percepções. É um nu que passa a sensação de ser cotidiano, habitual, que pertence a diversos corpos de diversas cores e formatos, apenas está ali.

3. Camila França (@camilafrancaretratista)

O trampo da Camila não é exclusivamente sobre nu, mas quando o nu aparece normalmente está ligado a natureza, a água ou a estrada, característica artística pessoal que faz muito sentido para uma mochileira. Outro ponto válido é que se trata de um trabalho que diz muito sobre a relação afetiva do corpo sozinho consigo e a relação afetiva com outro corpo.

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“Eu Apenas te Amo. Nada mais. Nada menos. Amor. Livre de expectativas, apegos, rótulos, títulos. Te liberto todo dia, e quantas vezes for necessário. Luto e aprendo com os ciúmes, com os medos, com a entrega, e os espelhos que só o amor proporciona. Que cada um possa seguir sua individualidade, brilhar e tropeçar, em direção a sua própria essência. Do desejo e da vontade própria, não da necessidade ou da carência, brota a relação, e ao se relacionar com o outro, se relaciona em prol da evolução mútua, a serviço do aprender e ensinar, do respeito e responsabilidade com sua vida e a vida do outro, não em sacrifício do seu caminho, mas ao encontro do seu próprio caminho – a relação divina – te amo e te liberto 💐” – @jessejolee GRATIDÃO IMENSA POR VOCÊS! Nati 🌿 Jesse ~ casa do bosque ~ Florianópolis – SC Camila França l Retratista

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4. Andressa Catelan (@_andressacatelan)

Desenvolvedora dos projetos Dela para ela e Aurora, Andressa mostra o corpo feminino de maneira sensível, em contato com outros corpos femininos.

“É sobre aprender a olhar para a outra e para si como responsável pelo espaço que ocupa. O nome Aurora representa o princípio de algo, uma luz, associando as mulheres como o começo da vida e a esperança de diversas lutas relacionadas à elas mesmas” – Catelan

São fotografias que falam sobre mais que aceitação, é também sobre condição. Condição como mulher, condição como amiga, condição de apoio para outras mulheres entenderem seu espaço por direito. Os corpos sempre se tocam, se apoiam, se confrontam um de frente para o outro, se espreguiçam. Simplesmente respiram num ato tão natural quanto estar nua.

“O projeto também se coloca como uma crítica dentro da fotografia, onde o nu só é aceito em sua maioria se feito por homens (privilegiados) e se a  modelo se enquadrar em algum padrão estético. Aqui a nudez é tratada com naturalidade, não é pornografia, não é ousadia, são mulheres sendo elas mesmas, sensuais ou não, é uma escolha de sua liberdade” Catelan 

Eu sempre me incomodei com quando uma pessoa quer elogiar uma foto para a qual eu posei dizendo “Nossa, que ousado!” ou “é preciso muita coragem, né?”. Não é algo ousado. Nudez não deveria ser vista como coisa ousada. É condição natural. Mas, realmente é preciso muita coragem. Ao posar sabemos bem os comentários que vem pela frente, é necessária coragem para saber ignorar ou enfrentar.

5. Amanda Chagaz (@chgz.raw)

Ok, eu sou meio suspeita para falar dessa Amanda. Nos conhecemos graças a uma outra fotógrafa, a @zabells, num dia inteiramente dedicado a invadir um cinema abandonado com a exclusiva finalidade de fotografar. As duas fotógrafas, outras três modelos e eu. Mas essa história fica para outro texto, informação demais para processar.

A verdade é que eu me apaixonei pelo trabalho da Amanda por outros motivos além de eu posar para ela, isso não me faz criar estima por alguém, já posei para fotógrafos dos quais o trabalho não me desperta apreço.

Leva um tempo para entendermos a proposta do fotógrafo, para assimilar o objetivo dele. “Estranheza” foi a palavra que saiu da boca da Amanda e nunca saiu da minha cabeça. Corpos empilhados, entrelaçados, contorcidos, esticados, camuflados no ambiente. Este último termo deve ficar bem gravado na mente de qualquer um.

Camuflado no ambiente. Não somos corpos de carne e osso, somos objetos. Não a mulher objetificada, somos objetos no sentido literal, fazemos parte do local, é devido isto que geladeiras, escadas, relógios e janelas são tão presentes na obra da Amanda com as modelos entrelaçadas, pousadas e repousadas sobre eles.

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Cavo uma caverna com a cabeça a confessar Eco cria avalanche prum monte descartar Reflexo da calcita – a pedra brilha pra mostrar O resto do que cabe na cavidade ocular Crânio já quebrado come terra pra calar Grito escorre fácil pela orelha até tapar Prende o peso vivo mas levita o que dá Pé pro teto livre, me lanço a vaguear @nalurosa, no texto e na foto. o corpo na terra (2/5) #ELEMENTARES . . . #fotografiaartistica #artesvisuais #fotografiaviva #elementos #terra #experimentacoes #artisticnude #portraitvision #nuartistico #galleria #bodyvibes #faceless #artesdefotografas #olharesdelas #visualart #acervofotografico #portraitemfoco #fotografiadicasoficial #muraldefotografias #clubedosretratos #omelhorclick

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Devemos olhar para as fotos da Amanda sem buscar unicamente corpos desnudos, mulheres com algum propósito em especifico. Nós apenas fazemos parte do cenário. O corpo nu é adorno do ambiente, feito um abajur, geladeira ou cadeira, com a diferença de que somos corpos sensíveis, que sentem o local no qual estão inseridos.

PS: Tentem adivinhar quem sou eu nas fotos.

6. Flora Negri (@floravnegri)

Cores vivas, contrastes de pele, e enaltecimento de biotipos longe do “padrão” é o que vemos aqui.

A Flora brinca com as cores de maneira divertida e convidativa ao olhar, sejam as cores da águas, fundos, adereços ou mesmo a cor das próprias modelos.

E, mesmo as cores sendo uma das partes mais legais do trabalho da Flora, preciso citar um trecho de um texto disponível no perfil dela, sobre a modelo Letícia (famosatriz). O contexto é um episódio infeliz em que, na adolescência, quebraram os óculos de Flora enquanto a xingavam de baleia quatro olhos.

“[…] Hoje entendo o quanto foi só um deslumbre, vivi por pouco tempo o que Letícia e tantas outras conhecem como a única realidade possível. Isso porque a gente ainda quer enfiar todo mundo numa caixa, dizer o que é certo, o que é “saudável”, pra realidades que a gente não conhece. Para corpos que a gente não conhece.”

Magreza jamais será sinônimo de saúde, aprendi isso com meu próprio organismo, hoje falho devido minha falta de cuidado e amor. Quantas garotas não morrem anoréxicas, após seu organismo sugar cada gota de gordura e nutriente em seus músculos para manter-se de pé? Quantas pessoas são gordas mesmo alimentando-se corretamente e fazendo exercícios regulares (sim, isso ocorre!)?

Tomamos por saudáveis corpos que cultuam rotinas fora da realidade. Um corpo fitness é logicamente saudável, é um fato, mas um corpo gordo não é necessariamente o contrário. Biotipo físico é uma condição permeada por fatores que não podem ser alterados, não interessa o quão saudável é o estilo de vida de alguém. 

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Dos florescimentos de Leticia. 💖. 🌸. #girlgaze

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Beleza e Medo. @paulinhomoska ❤

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Voa, PássaraPoesia. 💙

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Na obra de Flora, o corpo é adornado e embebido em cores. Ao que são as cores da própria derme, elas se mesclam como num ato de reconciliação daquilo que jamais devia ter sido separado. No fim das contas somos mulheres, no fim “Somos nós por nós” e trabalhos como os da Flora nos fazem lembrar bem disso.

7. Isadora Tricerri (@isadoratricerri)

Recentemente o MIS (Museu de Imagem e Som de São Paulo) recebeu o evento Olhares Delas. O evento carregou o mesmo nome da iniciativa desenvolvida pela Isadora dentro do Instagram como meio de agregar e disseminar fotografias produzidas pelo olhar feminino e SOMENTE.

Com dois anos de vida, a tag #olharesdelas tem mais de cinco mil publicações de fotógrafas, brasileiras e gringas, buscando ocupar seu espaço por direito dentro da fotografia.

“Olhares Delas é um projeto e coletivo, criado em 2017, pela fotógrafa e cineasta Isadora Tricerri, para dar voz as mulheres artistas, com foco em fotografia, já que este meio é ainda muito machista. Atualmente no Brasil, são poucas as fotógrafas reconhecidas, marginalizadas frente ao esquema de divulgação dos homens entre si. O projeto começou com o Instagram @olharesdelas, onde é feita uma curadoria toda semana dos trabalhos de fotógrafas para serem enaltecidas e divulgadas, através da tag #olharesdelas. O coletivo organiza encontros mensais para criação de projetos autorais, troca de conhecimento, e unir as mulheres cada vez mais.” Tricerri

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Venho por meio desta foto (que se tornou uma das minhas favoritas dos últimos tempos), dizer que esse foi o dia da mulher mais insano e mais incrível da minha vida! A @olharesdelas se uniu por uma causa incrível, e conseguimos mudar o pensamento e fazer com que os errados percebessem o que tinham feito, se retratando e se desculpando! Mais de 200 manas mandando mensagem o dia inteiro, mil mulheres maravilhosas se enaltecendo e se amando entre si! Vários eventos lindos que acompanhamos, tudo possível por causa do @olharesdelas e claro, dessas fadas maravilhosas! Queria agradecer à todas as mulheres por lutarem todos os dias por seus espaços! Devemos sim questionar se acharmos que não está certo, e aprender uma maneira de nos posicionar sem oprimir ninguém! Resistir sempre! Sozinhas somos nossa casa, mas unidas somos uma fortaleza! Obrigada! Marquem aqui mulheres que vocês admiram para lerem isso! 🌟 . . #olharesdelas #artesdefotografas #instagrambrasil #omelhorclick #girlgaze #girlgazeproject #8m #feminismo #feminismobrasil #8demarco #diadamulher #mulheresfotografas

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A Isa também desenvolve um projeto a parte, pessoal dela, intitulado “All Glitter”. Focando em nu e amor próprio.

“O projeto surgiu ao perceber que muitas pessoas só dão valor ao que brilha. Sendo assim… o projeto consiste em passar glitter nas partes dos corpos das mulheres, que elas ou amem ou odeiem (mas que são significativas em suas vidas), para quebrar os padrões e fazê-las brilhar.” Tricerri

No próprio perfil, a Isa também descreve o primeiro ensaio deste projeto, que foi realizado com a modelo Amanda Carvalho (@manddycarvalho), que possui 57% do corpo queimado e aprendeu a amar cada parte de si.

E assim chegamos ao fim deste textão “prático” que possivelmente vocês não leram inteiro.

Tudo bem, a amizade continua a mesma.

Para concluir essa enxurrada de informações e reflexões estranhas minhas (para não chamar de monólogo), só preciso dizer por último que pode ser que eu tenha tentado contornar ao máximo a questão amor próprio e nu artístico, mas a verdade é que os dois são indissociáveis.

Quem lia os meus textos lá por volta de 2017 sabe a minha intima relação com transtornos alimentares (quem não sabe pode conferir aqui) Eu nunca conseguiria negar que parte da minha recuperação se deve as sessões que eu tive a oportunidade e imensa honra de realizar com cada fotógrafa e fotógrafo, cada convite e cada acaso. Eu posso não posar com finalidade de desenvolvimento de amor próprio. Mas este cresce por si só ao podermos olhar para nós, sem nenhuma fantasia, e enxergar ali algo mais que um determinado tipo de “bonito” pré-estabelecido.

Imagem de capa: Amanda Chgz

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