Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

A gente já sabe que esse é um tema polêmico. Apropriação cultural tem aparecido a torto e a direito na timeline do Facebook nos últimos tempos (quem lembra do caso da moça branca de turbante que tinha câncer?), mas muito se fala e pouco se entende sobre o assunto.

Como um meio de comunicação, é a nossa função clarear as temáticas que são consideradas polêmicas, explicar e, principalmente, informar e ensinar sobre um tema que aparece com frequência na sociedade. E é exatamente aí que a apropriação cultural começa: na sociedade.

A gente vai tentar explicar o máximo que puder sobre essa questão nos parágrafos a seguir, e o máximo que podemos pedir é que você relaxe na cadeira e leia com atenção, antes de correr para fazer comentários sem fundamentos na fanpage mais próxima.

Afinal, o que é apropriação cultural?

Apropriação cultural é quando um grupo usa elementos de uma cultura que não é sua em detrimento do bem-estar próprio e do lucro. Sim, tem tudo a ver com o capitalismo e é um problema estrutural da nossa sociedade. É assim: os brancos europeus, historicamente, conquistaram e dominaram boa parte do planeta (estamos falando da época de colonização) e por conta de todo esse poder eles se tornaram soberanos diante das demais culturas. Esse povo branco (da qual essa que vos escreve faz parte) ditou uma norma, um padrão de beleza, o que era bonito e o que era feio, e todas as outras culturas, por mais que continuassem vivas, precisaram se adaptar de alguma forma.

Como os brancos seguem sendo a cultura vigente, é comum eles pegarem elementos de outras culturas (como o turbante) e vender como algo legal, tirando todo o significado que o turbante tem dentro da cultura negra. Ou seja: a apropriação cultural acontece quando um grupo lucra em cima do traço cultural de outro grupo, desmerecendo completamente a sua história e importância dentro do contexto cultural.

A apropriação apaga um grupo. Ela tira o significado das origens desse traço em questão, ignora a importância que ele tem dentro de uma comunidade, não vê a identidade impressa ali e mercantiliza isso como sendo algo ‘de todos’. Se ainda não ficou claro, vamos desenhar:

Suponha que um artista gringo (vamos dizer Justin Bieber) venha para o Brasil fazer um show. As pessoas ficam felizes quando ele entra no palco enrolado na bandeira brasileira e solta alguns ‘obrigado’ e ‘eu te amo’ bem enrolados, com aquele sotaque americano. É bonitinho, e a gente gosta porque ele fez um esforço para reconhecer que veio de muito longe se relacionar com pessoas de outra cultura que ele nunca vê. Isso é ok.

Agora vamos imaginar que Justin volte para os Estados Unidos, achando que é ‘brasileiro de alma’, dançando samba, tocando pandeiro, comercializando músicas em português e falando que é um representante da cultura brasileira porque ela ‘é incrível’. Não é mais tão ok, certo? No mínimo, vamos sentir que tem algo estranho aí. Isso é apropriação cultural.

Pontos que precisamos entender sobre assunto de uma vez

1.Apropriação cultural não tem nada a ver com indivíduos

Voltando para a história da moça do primeiro parágrafo: estamos colocando o problema no lugar errado. Falar de apropriação cultural é falar de um problema do sistema, é algo estrutural da sociedade, e não de mulheres brancas que querem usar turbante. Apontar o dedo para uma moça como essa não só cria um mártir para o outro lado (no caso, os brancos) como também gera uma sensação de raiva totalmente mal direcionada.

2.É diferente de intercâmbio cultural

Muita gente usa o argumento de que com a globalização não existem mais limites entre as culturas, e isso até pode ser verdade. É diferente quando rola um intercâmbio e uma apropriação culturais. No primeiro caso, ambas culturas são vistas em pé de igualdade, se respeitam e reconhecem mutuamente, e existe uma troca positiva para os dois lados. No segundo caso, a troca não existe e um lado é visto como inferior ao outro. Uma mulher branca de estampa africana é lindo; uma mulher negra é ‘macumbeira’.

3.Culpar pessoas não resolve uma questão tão profunda

A gente não vai cansar de voltar nesse ponto porque ele é muito importante. Culpar uma mulher branca que usa turbante de apropriação cultural não vai resolver o problema – não é saudável ou produtivo. A questão toda é de uma dominação histórica de uma cultura sobre as outras, da cultura branca e europeia sobre as negras e asiáticas. O que resolve esse problema é uma mudança de base, de representatividade e educação que faz a balança equilibrar e mostrar que todas as culturas têm a mesma importância.

4.O lucro é um grande vilão

Vivemos numa sociedade capitalista (um sistema criado pelos brancos) que insiste em provar que tudo tem um preço. Podemos citar aqui o exemplo da Farm: há alguns anos, ela criou uma coleção cheia de estampas e referências à cultura brasileira que contava com turbantes. Para anunciar as peças, a marca fez um editorial em que mostrava uma mulher branca como Iemanjá. Primeiro problema: a marca comercializou e se utilizou de imagens da cultura negra para lucrar. Segundo problema: ela fez tudo isso usando uma mulher branca como ‘garota-propaganda’. O argumento de apropriação cultural é válido e merecido porque em nenhum momento a Farm pensou em como a comunidade negra se sentiria vendo os seus símbolos representados dessa maneira. Eles perdem o significado, entende? E algo que é importante para uma pessoa vira só ‘mais uma estampa ou foto bonita’.

5.O branco tem mais valor que o negro

Vamos usar aqui o mesmo (incrível) exemplo de Caio Cesar dos Santos para explicar esse ponto (leia o texto dele aqui). Quando uma revista de moda fala sobre turbantes, ela normalmente convida uma mulher branca, que vai falar sobre a questão da beleza, dicas de como usar, como combinar – é puramente uma tendência estética. Se a mesma revista convidar uma mulher negra para falar sobre o adorno, ela vai ouvir toda uma explicação sobre empoderamento, resgate cultural e militância. Mas esse não é o discurso que as revistas de moda querem vender. Por isso até a modelo escolhida para posar para a capa é branca. Um rosto branco vende mais do que um rosto negro porque ele é mais valorizado por uma cultura de dominância branca.

6.Não acontece só com a cultura negra

Há pouco tempo, a modelo Karlie Kloss precisou fazer um pedido de desculpas público porque posou para uma capa de revista (e todo um editorial) como uma mulher japonesa. De quimono, pintura no rosto e com adornos tradicionais dessa cultura, ela e a revista foram acusadas de apropriação cultural. E com razão. Karlie não é japonesa e o editorial fez uso dos elementos de uma cultura para lucrar. O ‘mood asiático’ está na moda, afinal. Ou seja, culturas indígenas, asiáticas e negras estão sujeitas a esse tipo de apropriação. Usar um cocar no Carnaval é tanto apropriação cultural quando um turbante – e o mesmo vale para as roupas de cigana ou baiana.

“Todo dia eu acordo e penso sobre a Karlie Kloss vestida de geisha para a ‘edição da diversidade’ da Vogue”.

7.É preciso saber o contexto

Fazer homenagem à uma cultura depende de muito estudo. Se você quer usar um turbante, precisa saber de onde vem essa peça, o que ela significa, como será que as pessoas dessa cultura vão se sentir se você usar um turbante. Se você está envolvida com aspectos religiosos que fazem uso da peça em questão, a forma como ela é comercializada e qual a sua intenção em usar isso. Acredite, não tem nada a ver com você e os seus quereres, e tudo a ver com uma cultura que foi silenciada por décadas e décadas.

8.’Mas os negros alisam e tingem os cabelos de loiro’

Não confunda as coisas. A população negra e até a asiática criaram um costume de alisar e tingir os cabelos de loiros porque a sua beleza natural era considerada ‘feia’ e ‘suja’ (esta última palavra, aparece muito para as mulheres negras). Como uma população totalmente dominada pela cultura europeia, elas precisaram se adaptar para serem minimamente respeitadas no meio – e nem isso garantia um tratamento igualitário. É mais um efeito da colonização europeia no mundo, que definiu o que era bonito e o que era feio.

9.Use o que você quiser

Infelizmente, ninguém tem o direito obrigar você, mulher branca, a vestir ou não vestir alguma coisa. Você é livre para fazer o que bem entender. Mas saiba que existe um problema muito mais profundo do que a sua escolha de look.

10.Pense na empatia

Tudo bem, você quer sair de turbante, usando um cocar ou o que seja. Você vai chorar as dezenas de indígenas ou jovens negros que morrem diariamente na periferia e nos quatro cantos do país? Vai lutar por direitos iguais e representatividade para todos? Vai pensar em como fazer a sua parte para acabar com o racismo no Brasil? Estamos falando aqui de uma questão que fala sobre uma juventude marginalizada e dizimada todos os dias, e que sofre na pele os efeitos de uma colonização de séculos atrás. Nessa história, você não é a protagonista, mas é um fato que a apropriação cultural existe e que ela precisa ser discutida com a profundidade que tem.

Imagem: Reprodução

 

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