Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Você já foi à um Sex Shop? Eu nunca tinha ido. Em trinta anos de vida, fui pela primeira vez na semana passada. Eu e uma boa amiga, Lívia, daquelas lindas, leves e livres, que não julgam sabe? Porque este é um programa que não dá para fazer com qualquer pessoa. Tem de ser alguém com quem você se sinta à vontade.

Entramos tímidas, mas o sininho indecoroso da porta denunciou nossa presença. A vendedora, uma morena pequena de cabelos curtos e brincos coloridos nos recebeu também timidamente. Trocamos um bom dia acanhado e ela nos deixou à vontade para nos perder naquele mundaréu de brinquedos de adulto. Vibradores de todos os tamanhos, com múltiplas velocidades e texturas. Fantasias, algemas, gel apimentado ou refrescante, que explodem lá dentro, que atiçam a região. Para usar a dois, a três, sozinhos… Lugar de adulto. Coisa de gente grande. (Será que sou gente grande então? Quando foi que isso aconteceu?)

Duas meninas entram logo depois de nós. Silenciosas e em vãs tentativas de se esconder embaixo do cabelo, também são delatadas pelo impiedoso sino da porta. Será que todos entram envergonhados neste lugar?

Por que não conseguimos entrar ali como se estivéssemos entrando no mercado, ou numa loja de roupas? Será que, em pleno século XXI nós ainda ficamos envergonhadas por estarmos interessadas em sexo? É possível que ainda não estamos prontos para reconhecer e aceitar que somos seres desejantes? Que desejamos, sim, mas somos regidos por uma sutil e poderosa tendência a não se permitir? A não assumir ou acolher nossos desejos nem para nós mesmos. E não apenas no sexo. Na “vida pública” também. Onde é malvista qualquer vontade mais apimentada que fuja do convencional.

Espinosa dizia que o desejo é a potência que se origina dentro de cada um de nós e que constitui toda a nossa essência como seres humanos. Ou seja, o desejo é fundamental para nossa existência. Sem ele, não podemos ser. Porém, este desejo quase não tem lugar em nossa vida atribulada, cheia de regras e moralismos. Existe uma exorbitante diferença entre o que você como sujeito protagonista de sua vida deseja no seu âmago, e o que você como cidadão de uma sociedade deseja e “deve” desejar.

Afinal, o que desejamos?

Pelo que ansiamos DE VERDADE? Você sabe? É difícil ter certeza. Deseja mudar de emprego? Viajar? Repensar um relacionamento? Há algum NÃO entalado? Talvez uma vontade muito grande em aprender a tocar guitarra ou a dançar flamenco? Às vezes estamos tão tomados pela vida acomodada e repleta de juízos de valor que não conseguimos sequer reconhecer se há desejos simples e belos assim nos corroendo.

Desejar é se entregar. É íntimo, é constitutivo, mas, infelizmente, proibido. Desejar é viver. É encontrar a nossa força interior e apropriar-se dela. E isso não sou eu quem escrevo, é Espinosa. Me pergunto sobre este desejo reprimido e silenciado pelas expectativas dos que nos rondam. Quem são estes outros que detém tanto poder em nossa vida? Você sabe? E por quê conferimos tudo isso de poder a eles?

Ali, entre as quatro paredes do Sex Shop, não havia outros.

Naquele espaço controlado e acolhedor de pouco mais de 30 metros quadrados, éramos apenas nós por nós mesmas, e tudo podia. Aliás, tudo devia! Foi quase um apelo à liberdade: Me deixe ser feliz. Quero existir. Manifestar meu desejo, ser exatamente quem seu sou – quem eu vim a este mundo para ser – sem julgamentos. Ali, o desejo era autorizado. Mais do que isso: celebrado. Celebrava-se o apetite pela vida. Pela vontade de viver. Celebrava-se o prazer, o tesão – te incomoda essa palavra?

Foi libertador. Ali, éramos cinco desconhecidas compartilhando inseguranças, em olhares carregados de histórias, intimidades e confidências. Reunidas quase num manifesto por um bem maior. Deslumbradas, mas sem saber o que olhar ou escolher.

Com amor, paciência e delicadeza inigualável, nossa vendedora, a poderosa deusa do recinto, explicava cada item. A timidez inicial não demorou a se esvair e retirar-se do perímetro. Não havia julgamento. Não havia olhares acusatórios ou transgressores. Havia sim tamanhos e diversidade para todos os gostos.

Porque cada um gosta de algo diferente. Não somos seres idênticos e mecânicos que buscam as mesmas coisas. Parece óbvio. Mas será que é mesmo?

Saí com minha sacola de desejos.

E com a esperança de conseguir reconhecê-los, assumi-los e colocá-los em prática com a mesma delicadeza e naturalidade na vida real.

Imagem: Unsplash

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