Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Atenção: Contém alguns spoilers

Sex Education é uma série incrível e eu vou te falar o porquê. Seu enredo é envolvente e divertido, sem beirar a superficialidade. Seus personagens são bem construídos e carregam muito além daquilo que se espera de personagens de uma série teen. Além de tudo, é leve. Sabe quando você precisa assistir algo que te distraia, te prenda e descanse sua mente? Então, estamos falando de uma série que traz tudo isso.

Os personagens de Sex Education

O que mais me encantou em Sex Education é sem dúvida a forma como seus personagens foram construídos e trabalhados. Começando por Otis, o protagonista. A princípio pode até parecer que Otis é só mais um menino comum e apagado que cresce na narrativa, como em milhares de outras histórias que já vimos por aí. Mas Otis é muito mais do que isso. Ele é complexo. Procura ajudar os colegas com conselhos sexuais, algo que aprendeu ouvindo os atendimentos da sua mãe, Jean, uma terapeuta sexual. Porém, Otis não sabe lidar com seus próprios problemas, como a aversão que tem à ideia da masturbação. No decorrer da história entendemos que ele associou o prazer sexual masculino a um trauma da sua infância.

Otis tem um melhor amigo, o Eric.

Eric é simplesmente o personagem mais carismático de toda a série e é também aquele que sofre bullying. E a gente vê isso já no primeiro episódio. Ele fala o que pensa, é autêntico, possui um modo completamente único de se vestir, é engraçado e sempre impulsiona o seu amigo Otis a ultrapassar suas barreiras. Mas Eric é muito além disso. Homossexual, ele também gosta de se “montar”. E é muito sensível a forma como a série mostra suas descobertas quanto a si mesmo.

O pai do Eric, mesmo tendo poucas participações, não deixa de ser um dos meus personagens favoritos. Sabe aquele cara durão, que fala pouco? Ele é assim. E mesmo sem dizer em palavras explícitas, percebemos algo apreciável: ele não entende o filho e o porquê de Eric ser assim. Mas ele não o julga, pelo contrário: mesmo sem compreender Eric muito bem, ele o acolhe e o impulsiona a ser forte. Uma das cenas que me fizeram chorar em Sex Education é quando Eric, após passar por dias difíceis, se levanta e vai para festa da escola “montado”, de salto, make e tudo o mais.

O seu pai não deixa de ficar impactado, é verdade, e pergunta a Eric onde ele vai vestido daquela forma. Ao ouvir a resposta do filho, ele diz: “Eu levo você”. Aí vemos o quão o apoio dos pais é magnífico para impulsionar e apoiar um filho que já tem que enfrentar o mundo. A reviravolta que Eric dá em seu contexto a partir daí é uma das melhores coisas da série. Ele enfrenta Adam, seu colega que o ameaça e persegue desde o início da história.

Adam, por sua vez, também é aprofundado além do estereótipo de adolescente que provoca bullying.

Filho do diretor, ele possui uma relação difícil com o pai, que exige muito dele. É como se Adam sentisse que nunca está à altura da expectativas do pai e que por isso não fosse amado por ele. Não ter afeto paterno não justifica, é claro, o ato perverso de provocar bullying com um colega. Mas é uma das explicações para o comportamento de Adam. Assim como é uma explicação para o fato de Maeve, a mocinha rebelde da história ter aversão a relacionamentos apesar de ser uma boa menina. Maeve não tem pais presentes e mesmo sendo apenas uma adolescente, vive sozinha em um trailer. Como esperar que alguém sem nenhum apoio familiar fosse amorosa e bem resolvida na idade mais difícil da vida? A série traz um olhar além do óbvio e nos ensina a sermos mais complacentes com nossos pares.

Maeve, apesar da aversão a relacionamentos, desenvolve uma ligação com Jackson, nadador da escola. Jackson é carismático, querido e popular. Filho de um casal de lésbicas, a sua rotina é voltada para que ele seja o melhor nadador. Sua imagem de líder invencível é desmistificada quando ele assume para a namorada que devido à pressão familiar e da própria escola para ser o melhor atleta, desenvolveu ansiedade e crises de pânico. Mais uma vez, Sex Education acerta em mostrar realidade em seus trabalhados personagens. Quantos de nós estamos inteiros? Mesmo o personagem tido como mais forte e que possui uma boa estrutura familiar, sofre as inerências do seu lado humano.

Em Sex Education também encontramos uma terapeuta sexual, Jean, mãe de Otis, que é muito segura de si sexualmente e socialmente, mas que evita levar suas relações para o nível afetivo pois ainda não superou a traição do ex-marido. E temos a mocinha popular, Aimee, que é amiga da mocinha rebelde (Maeve), por mais que esta última seja vista como “puta”. A série também aborda a descoberta do prazer, seja sozinho ou acompanhado e em uma cena linda, mostra o que a sororidade entre as mulheres é capaz de fazer acontecer. “Juntas somos mais”. Elas se unem para proteger a intimidade de uma colega, mesmo que esta seja insuportável. É muito admirável.

Sex Education ainda acalenta os corações partidos que a assistem.

Em uma cena onde um personagem ameaça se jogar do alto por estar vivendo uma paixão não correspondida, Otis, nosso guru inexperiente do sexo, diz:

“Na vida há 7 bilhões de pessoas. Muitas pelas quais nos apaixonaremos não irão nos corresponder, pois o amor é sorte. Uma hora, no entanto, vai acontecer de o amor ser recíproco. Mas se você se jogar daí você estará jogando por terra todas as possibilidades de viver o amor um dia. Então, resista!”.

No entanto, a cena da série vai para o momento de reconciliação de Eric e Otis na festa da escola. Aqui, o casal dançando no baile não é composto por um garoto e uma garota. São dois amigos que reconhecem seus erros e se desculpam. Otis, branco e heterossexual. Eric, negro e homossexual. Juntos, se tornam um par aos olhares dos outros alunos e dançam uma das suas músicas preferidas, afirmando publicamente o afeto que sentem um pelo outro. É ousado, inovador e é sensível.

Sex Education conquista, nos faz rir e chorar. Seus personagens, tão humanos, lembram a nós mesmos em uma das fases mais difíceis e incríveis da vida, a adolescência; e nos seus dramas e dilemas nos ensinam belas lições. Preciso dizer algo mais?

Imagem: Reprodução / Netflix

@ load more