Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Conversa com o analista em uma sexta-feira, o clássico Dia da Maldade.

“Então o que você vai fazer de bom hoje, Luana?”

No maior desdém, nada empolgada com a minha agenda social pouco ambiciosa, respondo:

“Nada. Vou sentar em um café e trabalhar um pouco.”

“Parece bom”, ele diz.

Bom? Ele só pode estar me tirando, né? Deu pra zoar com a minha cara agora, o rapaz. Já rebato na hora a “piadinha”.

“Bom seria um passeio de balão, sob a luz da lua e um céu estrelado. Ah, em boa companhia e com um bom vinho.”

Agora eu lacrei! Me diz se esse plano não é incrível? Hoje eu tô afrontosa! Por que será que às vezes a gente quer brigar com o coitado do terapeuta que só está lá querendo fazer o trabalho dele?

“É bom ser ordinário”, ele responde.

VRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. Caiu a maçã de Newton na minha cabeça. Dá licença, que esse é o MEU momento de iluminação máxima. Será que eu tive que viver 35 anos da minha vida viajando com o balãozinho purpurinado da fantasia para ouvir isso?

É bom ser ordinário!

Será?

Eu sou especial! Não sou mas, queria ser. Todo mundo quer ser especial, não?

Vou buscar a definição de “ordinário” no dicionário. Não é possível que seja tão óbvio?

Vamos lá!

Ordinário: Aquilo que é de todos os dias; o que é frequente. Orações comuns a todas as missas. Habitual; comum. Regular.

Também pode significar, medíocre, reles, vulgar. Mas vamos nos ater às quatro definições mencionadas acima. Não é de fato tudo isso que eu venho buscando? Uma rotina, um pouco de estabilidade, o coração fora de risco de taquicardia, a respiração longa e constante, uma sensação – ainda que momentânea – de paz?

Minha cabeça bugou por alguns segundos. Mas… eu não sou ordinária. Eu sou especial! Não sou, mas queria ser. Todo mundo quer ser especial… não?

“I wish I was special. You´re so fucking special” (Eu queria ser especial. Você é tão especial). Thom Yorke, você sabe do que tô falando não é mesmo? Não era isso que você queria dizer em Creep? Não é isso que você grita nessa música melancólica, meio sombria e INCRÍVEL?

“Don’t care if it hurts (Não importa se machuca)
I wanna have control (Eu quero ter controle)
I wanna a perfect body (Eu quero um corpo perfeito)
I wanna a perfect soul (Eu quero uma alma perfeita)
I want you to notice (Eu quero que você note)
When I’m not around (Quando eu não estiver por perto)
You’re so fucking special (Você é tão fucking ESPECIAL)
I wish I was special” (Eu queria ser especial) 

“Ter controle”, “corpo perfeito”, “alma perfeita”. “Eu quero ser notada”.

Eu queria ser especial… Você é tão especial

O Thom Yorke sabe o que é depressão profunda. Ele já fez algumas declarações sobre estar “catatônico”. Em entrevista à revista Rolling Stone ele disse que na época do lançamento do álbum “Ok Computer” ele se sentia “uma merda”. “Naquela época, a pessoa que eu via no espelho me dizia: Você é uma merda. Tudo que você faz é merda. Não faça isso, é uma merda”, afirmou.

Expectativa x Realidade

Que doidera! O cara queria ser especial, aí ele vai lá e lança o álbum “Pablo Honey” (que tem Creep como uma das faixas principais), vira um rock star e desmorona? Pera aí, acho que já vimos essa história antes.

Será que ele queria ser especial? Ou ele só queria ser ele mesmo, sem ter que provar nada pra ninguém, sem a pressão emocional de ser um sucesso?

“Se você não reivindica a sua humanidade, você se transforma em estatística”. Essa frase não é minha, infelizmente. É o do Tyler, interpretado por Edward Norton, em “Clube da Luta”.

Peças de um dominó de ilusões, fantasias e desejos vazios caem uma a uma na minha cabeça. Várias frases que eu já ouvi sobre “Não ser especial” começam a pipocar na minha mente.

Imagem: Emily_WillsPhotography / Pixabay

Era isso o tempo todo! Como é que eu não vi antes.

Não existe fórmula mágica para ser feliz. A gente vai se sentir uma merda de vez em quando. Se você não sabe quem é, qualquer coisa que disserem sobre você vai parecer verdade (inclusive os impropérios que a ansiedade fica berrando aí na sua cabeça).

Eu ainda não sei exatamente quem eu sou, mas já faço alguma ideia. Eu já chorei baixinho pra ninguém ouvir, já tive medo, me senti fragilizada, quebrada, incompleta. Mas eu me levanto todos os dias. E mais uma vez vou pro mundo dar minha cara à tapa. Eu estou aprendendo a me impor, levantar a minha voz e enxergar o que tem de melhor em mim. Eu sou MULHER. E eu não estou sozinha.

Essa é a minha oração comum de todas as missas (aquela da definição de ordinário). 

Eu ainda não sei exatamente quem eu sou. Mas agora eu tenho uma certeza: Eu Não Sou Especial. E não quero mais ser!

Ainda bem.

Por O Ano do Novo

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