Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Dos Anjos, Lúcia, Alexia e Dakota. Quatro mulheres com histórias diferentes, quatro garotas de programa.

A jornalista Carol Antunes definiu para si mesma um grato desafio quando resolveu ir a fundo no tema “prostituição” para desenvolver seu trabalho de conclusão de curso. O projeto acabou resultando em um livro recém publicado por ela e disponível no site da Amazon.

Intitulada “Despidas”, a obra conta a trajetória de quatro garotas de programa que revelam de maneira única e particular os detalhes de suas vidas e como acabaram se vendo (na maioria das vezes muito cedo) dentro de um mundo tão alvejado por preconceitos e ao mesmo tempo tão misterioso.

O tema “prostituição” sempre ficou entre aqueles sobre os quais eu não me sinto confiante o bastante para opinar a respeito, justamente porque não me acho suficientemente conhecedora desse assunto para definir convicções concretas. Contudo, “Despidas” me apresentou novas perspectivas através da história pessoal de algumas mulheres que poderiam ser qualquer uma de nós.

O que mais me incomoda são as situações em que houve abuso e violência infantil. Por trás de uma garota de programa, pode ter havido uma menina vítima de assédio ou agressão. E isso é muito revoltante.

Em contrapartida, para uma delas, virar garota de programa veio como somente mais uma alternativa de vida, tão digna quanto qualquer outra. Por isso é tão complicado generalizar. Ainda assim, não há dúvidas que, frequentemente, a prostituição está relacionada à dor, pobreza, sofrimento, abuso e violência (embora exista também no luxo, no glamour e no prazer).

Mas afinal, o que é causa e consequência? Se não mantivéssemos esse mundo tão marginalizado, será que poderíamos tratar melhor as feridas, traumas e sofrimentos das pessoas que o habitam? Como poderíamos cuidar dessas meninas antes de deixá-las com o sentimento de que a prostituição é a única opção? As quatro mulheres entrevistadas conseguiram encontrar alguma forma de felicidade, mas a que custo?

Essas são somente algumas questões que ficaram na minha cabeça quando terminei de ler suas histórias. Cada uma delas abriu um pouco mais meus horizontes e me fez refletir sobre algumas suposições mal fundamentadas que eu tinha sobre a prostituição. A maior lição que tirei do livro é que cada caso é um caso – alguns mais alegres, outros mais tristes.

livro despidas prostituição

Se você também quer saber mais sobre o assunto, pode começar lendo a entrevista abaixo, na qual a autora fala sobre seu propósito e expectativas a respeito da pesquisa, e sobre as motivações que a guiaram durante sua jornada investigativa.

Quais foram suas motivações para começar este projeto?

Carol: A primeira coisa para a escolha desse tema, foi a curiosidade pessoal que eu tinha sobre a vida das garotas de programa. Eu queria gostar do tema do meu trabalho de conclusão de curso, queria algo que eu realmente quisesse saber sobre para que eu não perdesse a vontade no meio do caminho. Daí eu comecei a refletir sobre como linkar a minha curiosidade com o mundo jornalístico. E comecei a conversar e observar os discursos que surgiam quando eu jogava na roda o tema prostituição. Fui vendo que muitas pessoas, mesmo falando “não tenho nada contra”, ainda colocam a garota de programa do outro lado da rua. As notícias que saem sobre elas são todas marginalizadas. Você não vê algo real, alguém ouvindo realmente o que elas têm a dizer. Daí surgiu a ideia de fazer o livro de perfis que pudessem contar de onde elas vieram, a história de vidas delas. Não apenas sobre a parte da profissão, da sexualidade, mas sim todo o caminho que percorreram para chegar até ali. O que me motivou a começar e a chegar até o fim foi a vontade de que o projeto mudasse, nem que fosse um pouquinho, o jeito que as pessoas olham e encaram a profissão. E para mim, se uma pessoa lesse e falasse comigo “eu não via a prostituta desse jeito, agora eu vejo de outra forma”, o trabalho inteiro iria valer.

E o que a pesquisa mudou a respeito da sua própria visão do assunto?

Carol: Então, a ideia era sempre tirar o preconceito da mente da sociedade em relação às garotas de programa, mas no caminho vi que eu também tinha esse preconceito. A gente acha que é “mais evoluído” que algumas pessoas às vezes, mas se descobre com tanta coisa do mesmo jeito. Percebi o medo que eu tive ao ir na Guaicurus, achando a todo tempo que alguém ia me roubar, que a própria prostituta poderia fazer algo comigo. Isso só porque ela era prostituta. A criminalização que gira ao redor delas me trouxe também esse medo inconsciente de todo esse universo. Então eu percebi que elas são mais hospitaleiras que muitas pessoas por aí, mais calmas, mais tranquilas. Eu achava que elas seriam difíceis de contactar, de querer conversar, mas só me deparei com mulheres que queriam abrir seus mundos. Outra visão é de que as garotas de programa só eram dessa profissão porque os meios as levaram até lá. Uma infância difícil, problemas financeiros, com drogas, etc. Mas já na primeira entrevista conheci a Dos Anjos, que sempre quis ser. Ela era prostituta porque ela tinha prazer em ser. Então isso me ajudou a abrir bastante a mente a partir dali.

Qual foi a maior lição que você aprendeu neste processo?

Carol: Aprendi a ser mais humana, com certeza. Me fez entender os caminhos que cada pessoa segue e que elas sempre fazem o melhor que podem para sobreviver. Elas só querem sobreviver. A gente só quer sobreviver! Enquanto os meios para isso não afetarem a vida de outras pessoas negativamente, tudo é válido. Eu aprendi também que o sexo é muito “tabuzado” e a ideia de sexo no casamento e para reprodução é muito forte na cabeça das pessoas AINDA. Apesar de muita gente falar que o mundo está “moderno” e etc, em relação a isso, sinto dizer que não está. Ainda há um longo caminho pela frente. Acho que é isso, eu aprendi a ver o mundo de uma forma que a mídia não me mostrou. Vi e ouvi a vida delas olhando nos olhos. A lição foi escutar e ficar calada. A lição foi não julgue se você não estava no lugar dela. A lição foi “as pessoas ainda estão tão para trás”.

Quais foram os momentos em que você se sentiu mais tocada?

Carol: Acho que todo encontro me deixou muito tocada, de formas diferentes. Toda entrevista/conversa me tocou profundamente. Umas pela força, garra. Outras pela energia. Outras pela vida sofrida que passaram e ainda estavam ali em pé. Acho que todo encontro nos toca e muda algo em nós. Descrevi no memorial do meu trabalho: Nesse percurso, voei com a Dos Anjos. Respirei com a Alexia. Imaginei com a Lúcia. Senti com a Dakota. E acho que foi isso. Cada uma delas me acrescentou algo e me tocou de alguma forma. Não dá para escolher.


O livro “Despidas” é um trabalho muito valioso, e como a própria autora relata, provoca questionamentos que nos fazem analisar a nossa própria forma de lidar com pessoas que consideramos tão distantes da nossa realidade, mas que na verdade só querem sobreviver e serem felizes. Isso é algo que todas queremos.

Imagem: Pexels

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