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Recebi em grupos de WhatsApp um vídeo de poucos segundos seguido da seguinte mensagem “é por isso que o Brasil não vai para frente”. No vídeo, um repórter entrevistava dois meninos, “aparentemente gays” — uma vez que somos condicionados a julgar por trejeitos que não se enquadram no que a sociedade considera pertinentes para pessoas do sexo masculino —, e pedia para que eles continuassem a música. O repórter puxou K.O da Pabllo. E os dois meninos continuaram a música, cantando todo o refrão. Logo em seguida, o repórter puxa o hino nacional. Os meninos dão risada, dizem que aí não sabem não e o vídeo termina por aí.

As mensagens que seguiram o vídeo foram muitas. A maioria delas criticando e julgando os meninos, por não saberem o hino nacional e por saberem uma música de um artista, digamos, não tão bem quisto por uma determinada população. Eu queria trazer aqui, nesse momento, duas reflexões:

  1. Se a música cantada, pelo repórter, fosse de algum outro cantor pop, que está estourado nas rádios e com participação na trilha sonora na novela de maior audiência, o impacto seria o mesmo?
  2. Se as duas pessoas entrevistadas fossem dois adolescentes num padrão considerado aceitável, será que o impacto seria o mesmo?

Eu percebi, no tudo que vi, que havia um determinado preconceito por duas pessoas saberem tranquilamente uma música cantada por uma Drag Queen (maravilhosa, por sinal), e isso ser o “fim do Brasil”. Ninguém parou para refletir que a música é famosa e é ouvida várias vezes por dia, mesmo sem querer. A rádio toca o tempo inteiro. A novela toca. A música está ali para ser ouvida.

Querer que a nova geração saiba de cor o hino nacional e comparar à uma música pop chega a ser cômico. É natural que nosso cérebro memorize com muito mais afinco aquilo que escuta, repetidamente, todos os dias. Se a nova geração mal ouve o hino nas escolas, como cobrar deles que saibam a letra? Estamos nos acostumando, cada vez mais, a ter o hino presente somente em anos de copa – e isso se dá de quatro em quatro anos.

No meu entendimento, o vídeo vem mostrar uma situação muito mais complicada do que adolescentes cantando “músicas gays”. O vídeo mostra como a nossa nova geração de adolescentes – seja o gênero e orientação sexual que for – não tem a mesma educação cívica que recebíamos. E mesmo se tivessem, continuaria sendo uma baita hipocrisia querer comparar o tanto que se decora de um hino nacional para o tanto que se decora de uma música pop estourada em todos os lugares. Eu mesma ainda não sei se primeiro vem o amor (Brasil de amor eterno) ou o sonho (Brasil de um sonho) e mesmo com os macetes da minha mãe (primeiro a gente sonha e depois a gente ama, ou primeiro a gente ama e depois a gente sonha?) não consigo lembrar claramente da ordem do hino. Porque não é comum. Porque eu ouvia o hino na escola, eu cantava em frente a Bandeira, eu cantava todos os dias na semana cívica, mas, já há um bom tempo, eu só venho ouvindo parte do hino nacional e em jogos da seleção brasileira.

Talvez possa faltar sim, uma educação cívica nas escolas (ensinando a galera a votar também, por que né?), mas, sobretudo, falta a sociedade – parte dela – perder esse preconceito velado. O problema em partilhar o vídeo não foi o fato de não saberem o hino nacional. O “problema do Brasil”, segundo alguns, é a música cantada por uma Drag. O hino nacional se ensina – facilmente. Mas e o fim desse preconceito? Será que dá tempo de ensinar?

Imagem: Pragmatismo Político

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