Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Já comentei por aqui o quanto eu gosto de pop coreano e que acompanho alguns grupos do lado de lá do mundo. Mas essa semana eu parei para pensar sobre esse assunto de outra forma depois que vi uma postagem de uma página no Facebook que perguntava ‘quando o fangirling vai longe demais?’ junto com respostas de meninas sobre o assunto.

A pergunta (e os comentários) foram traduzidos de um site coreano – ou seja, são experiências de quem vive essa cultura a fundo. Ainda assim, eu não deixei de ficar chocada com uma das principais respostas, porque acredito que todo mundo consegue se identificar com isso. Uma delas dizia assim: “[O fangirling vai longe demais] quando eu percebo que eles [os músicos] alcançaram os seus sonhos e nós estamos cada vez mais distantes dos nossos”. Pesado.

Afinal, quando o fangirling vai longe demais?

Eu sempre me perguntei como os pais deixam as filhas adolescentes acamparem na porta de um estádio por meses para ver um show (aconteceu com o Justin Bieber, por exemplo). Ou o que passa na cabeça de meninas que perdem a escola e ficam a noite inteira acordadas votando para que o grupo de k-pop ganhe uma premiação. Ou ainda de meninas que brigam entre si por causa de um ídolo e perdem tempo (e estabilidade emocional) criando intrigas e defendendo os seus músicos preferidos online.

Por mais que eu entenda que essas pessoas viram uma referência, eu conversei com algumas amigas sobre esse assunto e descobri que o maior problema é quando a admiração vira idolatria.

A linha é muito tênue. A gente vê convenções mundo afora, por exemplo, em que os fãs de Star Wars fazem cosplays dos personagens preferidos, participam de concursos e discussões saudáveis sobre as séries. Ou pessoas que amam Harry Potter e entram em gincanas sobre os livros e contam como a história criada por J. K Rowling as ajudou em momentos difíceis.

De um lado não tão saudável assim, temos os stalkers de Selena Gomez e Kendall Jenner, que invadiram suas casas, o fã de HP que esfaqueou uma pessoa por guardar lugar em uma convenção ou qualquer história envolvendo uma sasaeng fan, uma fã de k-pop que é extremamente obsessiva, ao ponto de machucar o próprio ídolo que ela ama por admirá-lo tanto.

Talvez o que mais tenha me deixado chocada com essa postagem é como esse fanatismo acaba virando algo doentio e como essas pessoas acabam de coração partido depois de um tempo. Uma fã disse o seguinte, na mesma postagem que deu origem a esse texto: “Quando você percebe que a conexão entre vocês dois é algo que pode desaparecer se você deixar pra lá”. E essa é uma questão essencial, porque enquanto um músico (ator, dançarino, influencer ou o que quer que seja) não existe sem os fãs, a sua profissão é um trabalho como qualquer outro e a conexão que você sente é totalmente produzida. Ou você acha que se identificaria com um grupo de música ou uma banda formada apenas de pessoas mal humoradas e que não gostam do que fazem?

A questão do capitalismo e dos relacionamentos

É óbvio que esses idols coreanos, os músicos norte-americanos, os atores e atrizes escolheram e mantém essa profissão porque gostam do que fazem. É um trabalho que, ao longo do tempo ganhou ares de glamour muito maiores do que o esperado, e os salários milionários, a atratividade da fama e da visibilidade em escala global criaram uma redoma de vidro em torno dessas pessoas.

 

O showbiz é um mercado bilionário que movimenta milhões de dólares anualmente, por isso, é óbvio pensar que uma banda, um grupo de dança ou um filme foi pensado em todos os mínimos detalhes antes de ser lançado para trazer lucro para a empresa que investiu nesse produto. Porque, sim, não deixa de ser um produto.

Existem pessoas reais envolvidas. Participar de um fansign de um grupo de kpop significa que você vai chegar pertinho dos seus músicos preferidos e conseguir um autógrafo, trocar algumas palavras por poucos segundos e levar uma memória para a vida inteira. Mas enquanto esse é um momento marcante para você, para o idol sentado atrás da mesa é mais um dia de trabalho.

Verdade, eles sentem carinho pelos fãs porque são os fãs que mantém um grupo relevante – sem as beliebers, o que seria de Justin Bieber hoje? Talvez nós nem lembrássemos o nome do cantor canadense se ele não tivesse conquistado uma base de fãs tão forte.

O problema é que isso tudo afeta diretamente a vida das pessoas. Meninas crescem com ídolos altamente sexualizados e produzidos para serem o ‘namorado perfeito’ (mas só à distância, claro), elas se sentem pequenas ao perceberem que não são ninguém na vida de um ídolo (e provavelmente nunca serão mais do que apenas uma fã) e investem dinheiro e muito tempo em uma pessoa que não reconhece a sua individualidade. É isso: se essa fã deixar para lá todo o esforço que dedica ao ídolo, a ligação entre os dois desaparece, porque esse esforço, esse passo a mais, vem apenas do lado do fã.

Não podemos generalizar, é claro. Nem todo  músico não se preocupa com os fãs e tem um carinho genuíno por eles – Taylor Swift pode ser um exemplo tanto quanto Will Smith. Temos também histórias de pessoas que acompanham a carreira de um alguém há tanto tempo e tão de perto, que essas pessoas viraram amigas. Porém, é ingenuidade nossa pensar que essa ligação inicial, que a imagem que eles têm e a música que vendem não é algo produzido e pensado como um produto de mídia que precisa dar lucro.

 

Uma música que não vende não é bem-sucedida. Um clipe musical que não viraliza ou não é comentado nas redes sociais é ‘floppado’, um álbum que não está entre os mais tocados nas plataformas de streaming é um fracasso. Tudo precisa ser pensado para que essa ligação se firme e as pessoas comprem o produto oferecido.

Longe de mim querer partir (ainda mais) o coração das fãs e ganhar milhares de haters que vão falar de mim nas redes sociais (já aconteceu), mas eu fico com o coração igualmente partido vendo o quanto as pessoas se dedicam à uma coisa, compram brigas e criam ideais que não funcionam como um motivador, mas um atraso: as fangirls ficam tão presas no que elas gostam que acabam deixando de ter experiências de vida incríveis por causa de um ídolo.

Elas deixam de investir no próprio futuro porque acham mais importante passar uma noite em claro votando no músico favorito em uma premiação da MTV (e comprando briga com quem não faz o mesmo) do que estudando para uma prova importante na escola.

E isso vale para todos, não só para as mulheres. Acontece que o nosso lado sofre mais porque, acima de tudo, existe um machismo velado que diz que mulher que é fã de qualquer coisa depois de uma certa idade é imatura e desesperada.

Mas isso não muda uma idealização que afeta a forma como olhamos para os relacionamentos e para nós mesmas, sempre nos comprando com famosas como Selena Gomez, buscando um namorado como os (altamente produzidos e maquiados) músicos coreanos e esperando ser notada pelo senpai durante aquele evento com fãs, quando ele também tem dias ruins e preferia ter ficado em casa a encontrar centenas de meninas histéricas esperando que ele faça jus às fantasias que elas criaram.

Nesse meio tempo, ninguém se enxerga, ninguém se vê e o objetivo da arte se perde: as músicas que falam sobre amor continuam lá. Os filmes que falam da vida real também. Mas a mensagem por trás disso tudo, de encontrar um propósito para a vida e compartilhar uma sensação que todos têm, fica escondida atrás das fotos sem camisas e perguntas à la ‘qual o seu tipo de mulher ideal?’ ou ‘o que você procura em um homem?’.

Foto de capa: Reprodução / Sakura Card Captors

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