Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Parece uma resolução óbvia ou sem sentido, mas não é! Preste atenção no seu dia a dia, e veja quanta falta você mesma faz à sua vida. Quanto tempo você passa recebendo e processando informações, se conectando e comunicando com os outros. Ainda mais na era do smartphone, onde tudo é para ontem!

Sempre tive problema com pausas. Por exemplo, desde que me conheço como gente toco piano clássico, e lembro da minha professora chamando a minha atenção para respeitar as pausas entre as notas musicais. Mas eu não queria esperar aquelas pausas, para mim elas não faziam o menor sentido! A música era tão linda, as notas tão harmoniosas, as cadências de uma beleza única… para quê Beethoven me coloca essa pausa no meio do nada? E logo quatro tempos, poxa, precisa mesmo de tudo isso? Fui crescendo e o problema se tornou quase fisiológico: eu não queria pausar. Até hoje não sou boa nisso.

Hoje entendo que a pausa é o silêncio. O tempo livre. O nada, no meio do tudo frenético em que vivemos. É no momento de pausa que temos a chance de ser criativos, de escutar nossas ideias e pensamentos. Que podemos pensar, ou entender o que nos aflige, buscar respostas dentro de nós…

O problema é que esse tempo de silêncio incomoda, porque ele te obriga a pensar e ouvir a si mesmo.

É nessa ausência de ruídos e estímulos externos que permitimos que algo se manifeste aqui dentro. E esse algo é, muitas vezes, desconhecido para nós. Assim, podemos nos deparar com medos, frustrações e angústias que não nos sentimos prontos para lidar.

Ou com sentimentos ruins que não queremos enxergar, como inveja, raiva, orgulho… que estavam muito bem, obrigada, trancados a sete chaves nos confins do nosso cérebro.

Quando falo sobre pausa, não me refiro a um ano sabático, uma viagem para se desligar da rotina, ou um fim de semana na praia. Claro, adoro as três ideias. Mas me refiro aqueles curtos intervalos no nosso dia, enquanto, por exemplo, esperamos o elevador. Ou quando chegamos em casa, exaustos, depois de um dia lotado.

Falo daqueles minutos em que aguardamos, impacientes, o garçom trazer a conta. Repare que estamos sempre buscando preencher essas pausas no nosso dia. Já viu?

É quase como se fosse insuportável estar em silêncio com nós mesmos.

Que triste que é viver assim, sem aguentar ficar em nossa própria companhia… No trânsito, conferimos as redes sociais, o e-mail, o whatsapp. Levamos sempre uma leitura ou um sudoku para aquela sala de espera. Chegando em casa, ligamos a TV. Nem no elevador conseguimos ficar sozinhos, em companhia de nós mesmos.

O problema de não pausar é que enquanto a gente não pausa, a gente não consegue encontrar a paz. A nossa paz, que reside na verdadeira essência de cada um de nós. Você já conseguiu acessá-la?

A paz não está na aula de meditação, na terapia, na prática diária de yoga ou no topo mais alto da montanha tibetana. A paz está em olhar para dentro de nós mesmos, descobrir quem somos de verdade, nos aceitar e amar mesmo assim. E só conseguimos olhar para dentro quando silenciamos, quando fazemos, literalmente, nada.  

Decidir olhar para o próprio silêncio é uma escolha. Precisa de coragem e discernimento.

É perturbador, e não tão simples quanto parece quando assistimos aos monges budistas ou os feras de meditação fazendo-o corriqueiramente. Mas calma!!

Porque no verdadeiro silêncio, tudo aquilo que eu sinto e penso vem à tona. Aceitar e acolher essas nossas emoções negativas, reconhecer que elas existem dentro de nós e tudo bem, porque ninguém é perfeito – mesmo neste mundo em que todos fazem questão de mostrar e postar o tempo todo a perfeição de suas vidas felizes e sem defeitos, – traz calma.

E se conseguirmos entrar em contato com essa calma e cuidar bem dela, ela vai nos acompanhar mesmo nos momentos duros que a vida traz. Nas crises, na solidão ou nos imprevistos que sempre acontecem pelo caminho da vida. “Quando pausamos, podemos sentir melhor”, disse Monja Coen. E eu, pessoalmente, sempre tive dificuldade de fazê-lo. Desde pequenina.

Conforme o tempo foi passando e eu praticando os exercícios por horas a fio, minha técnica no piano melhorou. Minhas mãos começaram a adquirir uma firme delicadeza, meu toque se tornou mais suave e seguro. Aos poucos fui conquistando certa liberdade para interpretar do meu jeito as sonatas, minuetos e sinfonias. No entanto, a dificuldade com a pausa se mantém até hoje. Beethoven se revira no túmulo, pobre, enquanto eu aprendo, na marra, a tentar pausar na vida, para aprender a pausar na música.

Imagem: Unsplash

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