Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Completei agora um ano de transição capilar. Da minha janela, acabei de ver um grupo de meninas adolescentes saindo da escola, na chuva. Até pouco tempo atrás, a imagem seria da maioria delas correndo e carregando uma proteção para não molhar os cabelos. Uma roupa, uma sacola − talvez a mais prevenida ostentasse uma sombrinha. A chuva seria símbolo de medo − molhar os cabelos e cacheá-los, um pecado. Hoje, as meninas estavam sorrindo, entre pulos e danças, sem apressar o passo, todas brilhando no sol dessa chuva de meio dia. Eram cabelos cacheados, crespos, vivos, decididos. Iam todas muito seguras de si, algumas com seu black poderoso que água nenhuma derruba. Minha comoção me trouxe a este texto.

Há quase oito anos, decidi alisar os cabelos. Até ali, sempre tive cachos. Na infância eram vários cachinhos claros. Na pré-adolescência, eram apenas ondulados e volumosos. Depois da primeira menstruação voltaram a cachear novamente, com maior intensidade nas pontas. E no final da adolescência, por várias questões hormonais, ele cacheou todo. Ferozmente. Ao mesmo tempo, tornou-se ressecado, quebradiço, e me faltava paciência para entendê-lo.

Logo em seguida, mudei de vida, de estado, de cidade, de clima, de água, tentei começar a cuidar com mais carinho de mim (salão e medicina para os hormônios). Por insistência da cabeleireira, na falta de um método mais eficaz para tratar os meus cabelos, fiz minha primeira química: um relaxamento na raiz. Aqui vale um parêntese. Nesses anos todos, nunca havia escovado ou sequer pranchado meus cabelos. Pra nada. Então, esse momento, para mim, significou muita coisa. Coração na mão e tensão profunda quanto ao resultado. Acabei gostando. Depois do relaxamento, um dia fui a uma festa e escovei. Recebi muitos elogios exagerados de muitas pessoas. Não entendia. Obviamente minha autoestima, até então nunca abalada, ficou confusa. Nunca sofri bullying ou qualquer espécie de preconceito por ter cabelos cheios e cacheados. Enquanto a maioria das minhas amigas e primas alisavam, eu ostentava as minhas curvas sem pudor algum.

O que havia acabado de acontecer?

Vieram mais elogios e, num determinado espaço, passei inclusive a ser maior e mais visível. Por inúmeras questões similares, acabei voltando ao salão e resolvi fazer minha segunda química. Uma escova inteligente, dessa vez nos cabelos todos. Até ali eu não havia entendido o que tinha acontecido com minha segurança e capacidade até então inabaláveis de entender que basta o que vejo e sinto e amo em mim mesma, para ser tudo. Hoje enxergo. E agradeço por ter sido capaz de voltar para dentro do que eu era – e ser mais.

De cabelos lisos, tudo passou a ser mais fácil no quesito cuidado. Fora a autoestima diferenciada, a facilidade de arrumar, o fato de acordar de manhã e apenas passar um pente, as hidratações quinzenais, tudo me convencia de que havia feito a escolha certa. Durante todo o meu período lisa, só escovava o cabelo para algum evento. Jamais usei prancha. Aliás, nunca tive sequer um secador. Sempre fui muito desapegada. Mas quando a raiz começava a crescer, crescia em mim uma angústia desesperadora para retocar a química. Tentava alisar a bendita a cada seis meses, mas às vezes o intervalo era menor. A dependência era bastante cansativa. E cara.

Passados quatro anos, resolvi que ia parar os retoques e deixaria meu cabelo cachear novamente. Ainda não se falava em transição capilar e não existia tanto suporte quanto existe hoje no auxílio para quem toma essa decisão. Cortei os cabelos. Fui tentando me adaptar. Poucos meses depois, acabei cedendo. Lá estava eu novamente no salão fazendo a tal da escova inteligente e ficando lisa uma vez mais. Segui assim até o ano passado. Sete anos de química e, em novembro de dois mil e dezessete, decidi ser definitivo: vou assumir o meu cabelo natural. Nos últimos anos pensava muito o seguinte: se eu tiver uma filha, ela será cacheada, como vou explicar então que o cabelo cacheado é um cabelo incrível quando nem o meu próprio consigo manter? Meu pai, que sempre criticou desde o primeiro instante em que me desfiz dos cachos, achou que era uma decisão simples, porque sempre entendeu que assim deveria ter sido desde o início. Meu namorado, que me conheceu lisa e que estava lá na primeira tentativa frustrada de desapego, abraçou a decisão junto a mim e prometeu ajudar a segurar a onda quando as coisas ficassem difíceis demais. Porque ficariam. E ficaram. Às vezes ainda ficam. Mas sobrevivi. Tenho sobrevivido. Em tempos de opressão, escolher ter o cabelo natural é um bonito e poético ato de resistência.

Dei os primeiros passos, encontrei um lugar onde existiam pessoas incríveis dispostas a cuidar e ensinar sobre a beleza do que somos. Tive que reaprender tudo, absolutamente. Reaprendi a olhar, a lavar, a amenizar os efeitos indecisos dos fios, a entender todos os processos e passar os meses seguintes sem surtos assim tão intensos na hora de sair de casa. Li muitos blogs, assisti a muitos vídeos. Mas o cuidado pessoal num salão dedicado a empoderar quem decide se assumir, foi essencial. Até aqui já fiz dois cortes. O segundo talvez tenha sido o mais curto que já fiz na vida. A preocupação é ir tirando o liso aos poucos, para me deixar segura. E quem disse que cacheados não podem ter cabelos curtos?

Com dez meses de transição, me senti completamente livre.

transição capilar

Solta. Dona de tudo o que eu quisesse. Foram meses de cabelos amarrados e tímidos e a partir dali eu era completamente descabelada. E mais feliz. “E quem disse que cabelo não sente?”

São agora doze meses. Doze meses em busca do meu cabelo natural. Em busca das minhas raízes. Doze meses tentando me reencontrar ao olhar para trás e notar que me “perdi” por um motivo muito menor do que sou. Doze meses que aprendi que não é “só cabelo”, sou eu. Doze meses e está sendo lindo, mesmo quando dói um pouco. Quando não encontro um jeito de arrumar. Quando brigo com o espelho. Quando acordo com várias texturas de cabelo. Quando o reflexo mostra insistentemente um very bad hair day.

Doze meses e vou reaprendendo a achar bonito cada frizz, cada onda que vai tímida fazendo uma voltinha. Doze meses que passei a pegar no meu cabelo com carinho. Que aprendi a alimentá-lo. Que cuido de mim com novos olhos. Que conto as horas para o momento onde ele estará 100% natural e eu poderei falar de amor próprio 100% empoderada.

Doze meses que tomei uma decisão que parece pequena. Fútil. Boba. Doze meses que minha identidade vem sendo retatuada em tudo o que sou. Doze meses. E não está sendo fácil. Às vezes parece mais difícil do que nos primeiros seis meses. Doze meses e os cachos pedem liberdade, mas antes precisam de uma reabilitação habilidosa. Doze meses e ainda serão necessários outros tantos doze para que eles se recuperem e me perdoem por afetá-los num momento onde não houve tanto afeto.

Doze meses e eu quero mais é volume. Juba. Frizz. Quero mais. Mais cortes, mais tempo para (re)nascermos mais fortes. Eu e meu cabelo. Há doze meses estou em transição capilar. Não por hoje existir uma ditadura cacheada ou por ter feito parte de uma ditadura lisa. Mas sim porque a naturalidade é a melhor versão de todos nós. E só acha fútil todo esse trajeto de reencontrar-se com aquilo que de fato somos através de algo assim tão simples, quem não entende mesmo a natureza de sermos. E hoje estou sendo, de um jeito muito diferente e novo.

Que sorte a minha! Meu cabelo me define (também).

E para aquelas meninas lá do começo do texto, eu dedico este texto e um afago gostoso de quem diz: obrigada por tamanha representação. Uma cabeça por vez e quem sabe o mundo aceite o que não pode ser domado. Mais volume, por favor. “Cabelo vem lá de dentro, cabelo é como pensamento.” Olha aqui pra gente: pensamos cacheado demais! E isso, absolutamente, significa.

Imagem: Unsplash

@ load more