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Você provavelmente já ouviu falar da série You,  disponibilizada no final de 2018 na Netflix que chegou levantando uma polêmica: a romantização do personagem Joe. Mas caso você ainda não tenha assistido, eu vou te contextualizar.

Alerta de spoilers!

Joe, que é vivido pelo ator Penn Badgley, é um psicopata e assassino, que não mede consequências para ficar com Beck, interpretada pela atriz Elizabeth Lail. Ele é um stalker que descobre tudo da vida dela através da observação das suas redes sociais e do seu dia a dia.

Aos poucos, ele se aproxima de Beck e ambos desenvolvem um relacionamento recheado de juras de amor, perseguição, invasão de privacidade e até assassinatos. Como seria possível então a romantização de um personagem que é capaz de tirar vidas a fim de tentar obter o completo domínio da pessoa que ele diz amar?

O real problema da romantização do Joe na série You

1. Trata-se de uma ficção com personagens construídos não ao acaso

Bom, primeiro quero fazer uma análise da série em si e dos seus personagens. Joe, apesar de violento e perigoso, é muito carismático (como tantos outros psicopatas da vida real). E acredite, o seu carisma não foi inserido por acaso ou a série seria muito óbvia, não é mesmo? Ele é um cara que se apaixona, acredita no amor e já teve seu coração partido antes. Assim, é impossível não se identificar um pouco com o mesmo.

Há também a ideia de que Joe realmente acha que está fazendo algo bom. Ele realmente acha que matar um cara que trata a Beck apenas como uma transa seria a melhore forma de protegê-la. Além disso, ele protege e cuida de Paco, um menino que mora ao lado da sua casa, cuja mãe é negligente e dependente química e cujo padrasto é extremamente agressivo.

É, Joe não é de todo mal.

Pra completar esse contexto, a maioria dos outros personagens não são nada carismáticos. Beck, a mocinha, é superficial, leva uma vida de aparências no Instagram, mente, trai e tenta ter uma vida similar a das suas amigas ricas, mesmo sem o ser.

Suas amigas por sua vez são fúteis, invasivas e controladoras. Assim, as qualidades de Joe ganham destaque. O que não tira o fato de ele ser um assassino. Mas vamos lembrar que se trata de uma ficção. Em La Casa de Papel nós torcemos pelos bandidos. Em Pulp Fiction, de Tarantino, nós admiramos personagens de caráter duvidosos. Na vida real, dificilmente gostaríamos tanto de histórias parecidas.

2. Pessoas que romantizam relacionamentos ruins não tiverem um passado fácil

Fazendo uma análise mais psicológica da romantização de um relacionamento ruim, precisamos entender que nem todos têm o mesmo contexto que nós. A psicologia explica como pessoas que nasceram em famílias disfuncionais buscam relacionamentos duvidosos para tentar corrigir o passado. Ou simplesmente porque essa pessoa aprendeu dentro de casa que amar é estar em um relacionamento nocivo.

É preciso muita terapia e muito autoconhecimento pra quebrar padrões que vêm com a gente desde a infância, já que a parte inconsciente da nossa mente é muito maior do que a parte consciente.

É fácil dizer “Não seja carente” pra uma pessoa que nunca recebeu amor e carinho dentro de casa (e acredite, são muitas). O problema é muito mais profundo do que carência e nem todos têm condições de fazer terapia ou sair de um ambiente hostil.

Comprovamos isso em grupos virtuais de ajuda, onde o que mais encontramos são histórias de mulheres que foram negligenciadas ou abusadas – física, psicológica ou sexualmente – quando crianças e adolescentes e que na vida adulta desenvolveram relações com homens abusivos.

Infelizmente, a romantização de um relacionamento ruim possui raízes muito mais profundas do que se pode julgar. O que claro, não elimina a necessidade de alertas. Por isso é tão importante trabalhar antes de tudo o autoconhecimento.

Julgar como “loucas” as mulheres que se atraíram pelo Joe ou por alguém nocivo, derruba a possibilidade de uma conversa mais esclarecedora. Todos nós temos lacunas em nossas personalidades e que podem e devem ser trabalhadas.

A consciência desse fato possibilita o caminho para a melhora. Se você achou que o Joe é um modelo de cara, se pergunte: quando foi lá na sua infância que você aprendeu que amar é sofrer? Aí estaremos dispostas a conhecer mais do que a ponta do iceberg.

Imagem: Reprodução / Netflix

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