Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Cheguei em casa tarde aquele dia. Chovia em São Paulo desde perto da hora do almoço e essa cidade é assim: caiu uma gota no chão, tudo pára, o caos se instala. Tenho carro, então, venho sentada e chego seca. Tirando o trânsito, as infinitas buzinas e a sensação que nunca chegaria, não tinha um grande estresse. Tenho dó de quem depende de transporte público nessas horas… Enfim, cheguei. Duas horas mais tarde e cansada, mas cheguei.

Tenho um certo ritual diário: colocar a bolsa no braço direito do sofá (não tem a ver com superstição, feng shui, nada disso), fazer um expresso suave – os de intensidade 3 são meus favoritos – sempre na mesma xícara, em formato de coração (leia mais aqui). Essa xícara é especial, só emprestei uma vez. Um dia, quem sabe, conto essa história também. Não gosto de muita luz, me dou bem com as sombras. Mas como já passava das 21 horas, tive que acender o abajur. E só ele, que fica num canto da sala; sem som nem TV ligados, o celular deve estar na bolsa ainda, com várias mensagens dos inúmeros grupos de WhatsApp do qual eu faço parte (todos silenciados). Mais tarde eu olho. Minha ausência raramente é notada.

Sapatos jogados num canto, olhar perdido. Esse silêncio só divido com meu sofá e minha xícara. Ouço ruídos lá fora, da chuva, do vento, talvez carros passando. Não dá pra decifrar com as janelas fechadas. Durante a semana, também raramente as abro. Mas não importa. Para alguns, essa pode ser a exata descrição da depressão, da agonia. Pra mim, e para muitos, esse momento, que ocorre quase sempre, dá sensação de alegria, vontade de sorrir, leve e satisfeita.

Esses momentos de introspecção são mais que um prazer para os que, como eu, têm perfil introvertido; esses momentos são necessários. Amy Schumer me ensinou isso, no livro “A garota com a tribal nas costas”. Durante muito tempo, o escuro, o silêncio, não foram realidade. Eles não eram possíveis antes. Talvez, por isso, hoje, tenham dado tanto valor. Há quem chame isso de solidão. Eu prefiro chamar de liberdade. Liberdade de escolher minhas melhores companhias; e a melhor de todas, pra mim, é a minha própria. (Sim, eu adoro minha própria companhia. Usufrua da sua também, de vez em quando.)

Ser sozinha ou ser livre?

Porque a solidão pode ser uma imposição (leia mais aqui). Você pode estar rodeado de pessoas e sentir-se só. E ESTAR sozinho é muito diferente de SER sozinho (Não sei porque o verbo to be insiste em dizer que são a mesma coisa). Ser livre pode, ou não, pressupor ESTAR SÓ, de vez em quando, desfrutando de sua própria companhia. A LIBERDADE é uma conquista, uma escolha. Só é livre quem se dá esse direito.

Essa liberdade em nada tem a ver com status de relacionamento. Liberdade tem a ver com estado de espírito, com alma e essência. Ser solteiro não quer dizer ser livre; você pode estar preso a outras amarras que te impedem de se relacionar consigo e com os outros. E liberdade também impõe responsabilidade. Ser livre não significa sair fazendo tudo que dá na cabeça, sem medir consequências, só porque se sente nessa condição.

Isso é ser imprudente, insensato, inconsequente. Agir com consciência te permite continuar livre e de consciência tranquila. Você pode ser livre, mas a consequência de seus atos influencia a vida de outras pessoas também. Seja livre, mas seja prudente, sempre. A liberdade é apaixonante; quem a experimenta, dificilmente não se encanta, dificilmente abre mão – lembre que ela não tem a ver com relacionamento!

Porque a liberdade é também profundidade – não há liberdade superficial ou relativa. Porque ser livre pressupõe conhecimento aprofundado de si mesmo. E as profundezas não são atingidas por qualquer um. Porque compreender e aceitar essa liberdade não é tarefa fácil, não é pra qualquer pessoa.

Quem lá chega, raramente sai. Atingir um coração livre é garantir seu lugar ali, eternamente.
Nas profundezas da liberdade é onde ocorrem os encontros de almas, onde as almas batem asas… Livres!
Almas livres nunca serão almas solitárias… Sempre terão companhias selecionadas, raras e especiais.
Liberte-se!

Imagem: Pinterest

@ load more