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O que você procura?

Olhar no fundo de seus olhos diante do espelho e ver que a sua alma, os seus sentimentos, instintos e desejos… Nada em sua personalidade corresponde à sua imagem. Enxergar-se como alguém que não se identifica com o seu próprio corpo é apenas o primeiro passo.

O segundo, no meu caso, foi começar a treinar minha verdadeira identidade sexual ainda na infância, brincando secretamente com o guarda-roupa da minha mãe: vestidos, saias, blusinhas, meias-calças, saltos, brincos, cintos, batons, lingeries, sutiãs, corpetes, enfim… Que mundo delicioso a explorar! Adorava socializar com as pessoas sem que elas soubessem que eu usava roupas íntimas femininas.

Ao ingressar na adolescência, passei a curtir e experimentar diversos visuais em frente aos espelhos dos provadores de quase todas as lojas de roupas femininas da zona sul e do Centro do Rio de Janeiro, assim como a sair de casa tarde da noite, vestida como uma moça, em surdina e após todos dormirem.

Apavorada pela ideia de ser pega em flagrante, andava na ponta dos pés até o portão, dando atenção a qualquer mínimo barulho, como o de uma flor caindo da árvore. Sentia-me lisonjeada quando conseguia, já na rua, ser vista como uma garota, atraindo a atenção e os olhares de homens e rapazes na rua, mas sempre tendo muita atenção com eventuais flagrantes de gente conhecida. Nestas fases, eu ainda não me compreendia como trans, mas já me comportava como uma instintivamente.

Um transgênero na família. O que significa e como lidar com essa realidade?

 Ser transgênero: a saga para trans(parecer) minha mulher interior 1

Você não precisa ter um útero para ser uma mulher.

É bastante complexo alcançar totalmente o passo de identificar, reconhecer, admitir e experimentar, até finalmente começar a, diante da oportunidade, viver todos os dias o seu real estilo de vida, para quem é transgênero… Quanta caminhada!

Percebo claramente que estou subindo um degrau que poucos têm a oportunidade de alcançar porque, hoje, agarrei a chance de me aceitar e compreender como uma mulher trans e me impor como tal. Ter nascido com um corpo masculino foi, para mim, sem sombra de dúvida, um equívoco, e a explicação é simples: nosso corpo não foi projetado para estar, necessariamente, em plena sintonia com o espírito humano.

Somos a mistura do perfeito com o imperfeito, do definido com o indefinido, do certo com o incerto, do são com o insano. A experiência da vida terrena nos leva a provar a mistura e o choque de duas naturezas completamente opostas, a relação intensa do físico e do concreto com o divino. A diversidade sempre estará enraizada em nossa essência e não há sentido em combater quaisquer de suas vertentes.

É também assustador e extremamente intimidador, para quem se descobre um trans, se dar conta de que é uma pessoa tão diferente, inadequada às exigências sociais e que o fato de precisar viver uma transição física e comportamental radical em prol da sua qualidade de vida pode e acaba por transtornar diversos segmentos da sua vida.

Como viver publicamente essa necessidade tão sensível e orgânica?! Que reação imediata as pessoas vão ter? Quantos que te amam ou que participam do seu círculo de convivência vão se sentir desapontados, magoados, frustrados, confusos, aterrorizados, preocupados, culpados ou mesmo tentar fazê-lo sentir vexame de si próprio, te isolar…? Como mensurar isso antecipadamente? Por uma série de motivos, o medo pode se instaurar no seu coração e, se você deixar, ele visivelmente te domina.

O que é ser transexual, e como eles se diferem na comunidade LGBTI?

 Ser transgênero: a saga para trans(parecer) minha mulher interior 2

“Nós não somos o que as pessoas dizem que somos. Nós somos quem nós sabemos que somos, e somos o que amamos. Tudo ok”

Diferente de homossexuais ou crossdressers (pessoas que sentem prazer em vestir roupas do sexo oposto), os transgêneros são pessoas que nasceram num corpo masculino, mas se percebem pertencentes ao gênero feminino, ou vice-versa. Eles precisam transitar fisicamente de gênero para se adequar plenamente à sua psique, e obtêm suas transformações de identidade optando por recursos como a mudança na conduta social, a terapia hormonal, podendo mesmo chegar à resolução de enfrentar uma cirurgia de redesignação sexual.

Não se trata de qualquer deficiência hormonal, tampouco é uma escolha pessoal, um desvio mental, uma doença ou herança genética, uma vontade egoísta, quiçá um erro na educação recebida pelos pais ou mera falta de disciplina; é pura e simplesmente parte de quem você é. Particularmente, sempre tive dificuldade no meu relacionamento com os homens gays. As expectativas deles na cama, assim como as tendências e fantasias, são totalmente diferentes das minhas e, por essa razão, dou certo apenas com rapazes totalmente másculos e ativos.

Não é culpa de ninguém e não há nada que se possa fazer para tentar lhe erradicar a sua identidade, induzi-lo a não se aceitar ou abdicar do seu estilo de viver. Da mesma forma, entrar sozinho em negação, fingir aos outros, deixar o tempo passar, construir inúmeras barreiras para não se assumir… É bastante tenso ter que admitir que tudo isso é uma loucura! Não é nada fácil entender a roubada em que você está se metendo através de uma fuga que você consolida apenas para se adaptar.

Mas vale a pena se esforçar tanto, abdicar da sua felicidade para se adaptar a padrões que não fazem questão de se adequar a quem você é desde que nasceu? A resposta é não. Então, resta dar o passo mais importante, que é mostrar ao mundo sua verdadeira face. E, é claro, começará imediatamente um bombardeio de perguntas e questões despejadas por pessoas queridas: “Mas qual a necessidade de fazer isso tudo?” “Por que não ser um homem gay, ao invés de ficar se depilando, se maquiando, vestindo saias?” “Precisa cometer essa agressão ao próprio corpo?” “Ahh, isso não é natural!” “Vai ficar tomando injeção a vida toda?” “Você está prestes a se mutilar; e se não conseguir mais sentir prazer sexual?” “As pessoas vão querer te agredir na rua…” “Você nasceu homem e sempre vai ser homem”.

Sem dúvida, muitos que lhe amam despejarão questões como estas sobre os seus ouvidos. E antes que você se dê conta, terá que dar milhares de explicações repetidas vezes para fazê-los compreender que a transição de gênero não é um bicho de sete cabeças, apesar de envolver algumas consequências que precisam ser levadas em conta, como a infertilidade e a mudança de sentidos como o tato, o paladar e o olfato.

Contudo, dar atenção e responder claramente às pessoas é um processo absolutamente necessário, que deve ocorrer com paciência e tranquilidade, afinal, nem todos que lhe apoiam entenderão completamente ou deixarão de fazer questionamentos quando você se assumir.

Uma questão de identidade. Libertando o seu “eu” interior

 Ser transgênero: a saga para trans(parecer) minha mulher interior 3

Mas enfim, voltando à minha experiência de vida, para chegar ao ponto de me abrir e exibir claramente a minha feminilidade na rua, com tranquilidade e em plena luz do dia, minha demora foi de trinta anos! É inacreditável reler a minha história, desde os nove anos de idade, e me dar conta do tempo que passei escondendo hábil e tristemente quem realmente sou, unicamente por falta de estrutura na minha casa, na minha escola e em tantos outros lugares; interpretando triste e pateticamente um personagem de quem nunca gostei e que nada tem nada a ver comigo: um garoto.

Um garoto que cresceu e passou para todos a ideia de que havia se tornado um homem. Demorei muito para compreender que o pior a se fazer sempre é passar a imagem ser quem você não é. Não se pode fazer isso e achar que é possível ser feliz dessa forma. É por isso que não se trata apenas de coragem, mas, sobretudo, de fé e autoestima.

Sinto orgulho de poder dizer que a minha família e melhores amigos surpreendentemente aceitaram, na maioria, muito bem a minha mudança. Essa postura me trouxe a força necessária pra seguir adiante, mas tenho consciência de que sou uma exceção e muitas famílias ainda discriminam cruelmente membros que se declaram trans.

Conseguimos entender com naturalidade a insatisfação que tantos têm com o próprio corpo, tentando se tornar mais altos, fortes ou magros, mais brancos ou bronzeados, com o cabelo mais liso, loiro ou cor-de-rosa… O inconformismo e a vontade de mudar são características que nos definem como seres humanos – e é fácil compreender que todos precisamos ser respeitados em nossos caminhos.

Mas será que essa regra vale pra tudo? Sim, sempre vale! O sentimento transgênero constrói automaticamente uma árdua luta por sua identidade; luta essa em que você precisa definir se vai se entregar ou guerrear com unhas e dentes para se impor. É o seu direito como pessoa e como cidadão. O mercado de trabalho, a família, os amigos, os desconhecidos que lhe veem na rua, na farmácia no mercado… Todos têm a obrigação de lhe respeitar e permitir que você se adapte à vida em sociedade. Não é preciso que o outro tenha empatia ou se solidarize com a sua busca. Cada pessoa possui seus valores e crenças, e isso também deve e precisa ser respeitado.

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Aceitação familiar: um passo no escuro

Então, que motivos tornam a decisão pela mudança de gênero algo tão doloroso e, muitas vezes, não palpável? Simplesmente porque, no fundo, já sabemos que é, para muitos de nosso rol social, uma decisão incompreensível, intolerável e, às vezes, até mesmo demoníaca, que precisa ser combatida e exorcizada. Quanto absurdo! Em qualquer circunstância sociológica, o transexual aparece como um caso bastante isolado, o que dificulta entendimentos e aceitações por parte de outrem.

Isso porque a maioria das pessoas demonstra estar claramente satisfeita com o seu gênero, ou se mostra indiferente a essa questão. Há também os conformistas. A rejeição familiar é o principal motivo para as estatísticas, no Brasil, que nos mostram uma baixa expectativa de vida das pessoas trans. Seguem, então, problemas como o abandono, a vida nas ruas, drogadição, falta de escolaridade, prostituição, o sentimento suicida…

As famílias precisam enxergar que o Brasil está lentamente mudando para um quadro positivo e que elas são o caminho fundamental para que a população trans se liberte e lute com mais vigor por seus direitos básicos.

Quando finalmente decidi libertar em tempo integral a minha mulher interior (o que não foi nada fácil), finalmente me senti livre e renovada. É um renascimento! Havia terminado um casamento no qual tive dois filhos e voltei a morar com minha mãe e minha irmã, que me deu total apoio. Acordei para o fato de que havia passado a maior e melhor parte da minha juventude me condicionando a ser uma pessoa visivelmente incompleta, tímida e apavorada, estranha, nebulosa e até mesmo assustadora.

Meus olhos refletiam medo, insegurança, inadequação, esquisitice, dor, angústia e frustração. Sem perceber, havia me colocado numa situação de confinamento e aprisionamento, me privando de sentir-me legitimamente humana e de ter uma mínima chance de me sentir plena, com prazer de viver e de me expressar livremente. Sempre haverá pessoas que, na sua cabeça, lhe aceitarão melhor ou pior…

Entretanto, uma querida amiga minha, a Bruna, me ajudou a entender que não há como prever a reação das pessoas; o importante é você reagir bem consigo, ter autoconfiança, se aceitar, se informar bastante, defender seriamente a sua identidade e encarar todas as circunstâncias de cabeça erguida. Não há do que se envergonhar. É certo que há uma infinidade de transgêneros de todas as idades e classes sociais desesperados para dar o seu primeiro passo. Precisamos abrir espaço para que eles sejam quem nasceram pra ser.

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