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O que você procura?

Spoiler alert!

Hey you…

Essa semana assisti (ou melhor, devorei) a nova série queridinha dos Netflixers de plantão, VOCÊ (You).

Na história um jovem dono de uma livraria, brilhantemente interpretado pelo nosso eterno namoradinho de Gossip Girl, Penn Badgley, conhece uma aspirante a escritora em NY e se apaixona por ela. Mas a forma de se apaixonar de Joe é, digamos, diferente, e desde o primeiro momento se torna obcecado por ela e passa a stalkea-la (um verbo que não existe na verdade, mas a gente usa por que todo mundo entende o que é), e faz coisas terríveis para tê-la (prometo que não vou dar muitos spoilers).

Desde que foi lançada a série tem dado o que falar, principalmente depois que Millie Bob Brown (a Eleven de Stranger Things), foi as redes defender o protagonista, dizendo que gostava dele e que entendia suas ações, por que ele era apenas um homem apaixonado. Claro que em seguida teve que se desculpar por defender um personagem que na real é um sociopata.

Mas vamos lá, será que realmente podemos julgar Millie por gostar do Joe? Tenho certeza que quando ela disse isso não se referia ao assassino Joe (sorry pelo spoiler, mas isso era de se esperar né), e sim ao Stalker Joe do começo da história, uma pessoa apaixonada que stalkeia a pessoa que gosta. Isso é tão incomum assim?

Vamos ser sinceras, isso me parece BASTANTE comum.

Mas para vocês entenderem aonde eu quero chegar, preciso voltar um pouco na série. Desde o primeiro episódio fiquei intrigada com os protagonistas, Beck e Joe. Beck, uma garota que facilmente poderia ser eu ou algumas das minhas melhores amigas, e Joe um cara que facilmente poderia ser o namorado de alguma delas, ou até um namorado meu. Beck é confusa, perdida, não sabe quem ela é e tem alguns traumas complicados na vida. Sei o que você está pensando: PRESA FÁCIL. Mas aí eu te pergunto: Quem nunca? Quem nunca esteve onde Beck está? Perdida, sem saber o que quer da vida, namorando ou correndo atrás de boy-lixo, saindo com amigas que na verdade não são amigas coisa nenhuma, e acreditando que nada na sua vida dá certo?

E o Joe, por outro lado, é um típico cara “bonzinho” (muitas aspas!) que todas já cruzamos uma vez na vida. Fofo, gentil, bonitinho, carinhoso e que cuida das pessoas (um exemplo é o menino que é vizinho dele). Ou seja, nenhuma evidência aparente que nos alerte: PREDADOR. Isso por que ele não um predador como nós conhecemos, não é um galinha que não presta e que usa as mulheres.  Mas seu comportamento predatório vem de outro lugar. De um lugar de obsessão e de perseguição velada.

série você

Joe poderia ser facilmente alguém que você conhece (tirando a parte psicopata). Quem não tem aquela amiga ou amigo expert em stalkear o ex, ou a ex do namorado, ou a namorada do ex, ou as amigas, os namorados das amigas, as pessoas do trabalho, as pessoas da faculdade, os professores, e etc, etc, etc..? Aquela pessoa que ainda tem a senha do Facebook ou Instagram do ex (e ele(a) não sabe), e sempre entra pra dar aquela checada nas conversas? Ou que decorou a senha do celular do namorado, e volta e meia quando ele já dormiu da aquela checada básica no Whatsapp? Ou que sabe exatamente os lugares aonde o(a) crush frequenta e te convence a ir junto só pra ver se está com alguma outra pessoa.

De novo, quem nunca?

Quando estamos apaixonados ficamos sim obcecados (de maneira saudável na maioria das vezes) pela outra pessoa. Normal querer saber quem é a ex, normal querer ver quem são os melhores amigos e verificar se são boas companhias. Normal querem ver a vida do irmão, afinal importante entender de que família a pessoa veio. Normal ver aonde mora, por que isso diz muito sobre a criação. Normal ver aonde trabalha, aonde e o que estudou, afinal precisamos entender o background dele. Normal ir naquele sambinha, que você se convence que já queria ir mesmo, sabendo que ele confirmou presença no evento. Normal fuxicar a vida daquela menina que curte todas as fotos dele. Normal postar Stories pensando exatamente no que atrairia a atenção dele, e o faria te mandar uma mensagem…. Hmm será que é normal mesmo?

Isso é o Joe… nos primeiros episódios.

serie you

Joe é antes de qualquer coisa um mestre stalker. Depois ele se revela um assassino, mas o que a série nos mostra é que Joe é quase… normal. Não é difícil se identificar com ele, se identificar com as suas inseguranças, com os pensamentos, com as desconfianças, e até com os julgamentos que ele faz, por que todos fazem sentido. Sempre achamos que essas stalkeadas são complemente inofensivas. Mas Joe me fez ver que nem sempre são.

É realmente normal fazer isso? É normal se colocar nessas situações? É normal fazer esses julgamentos? É normal “estudar” a outra pessoa tão minuciosamente? Aonde isso nos leva realmente?

Hoje a vida é exposta, nós estamos expostos.

Em 15 minutos se descobre muito sobre qualquer pessoa. Fuxicar a vida de alguém, ou até stalkea-la online se tornou algo comum, usual, normal. Hoje nossas informações estão em todos os lugares, cada tag de um amigo, foto antiga, endereço, preferências musicais, informações profissionais, tudo. Não é que queremos nos expor, mas ao longo da vida é como se fôssemos postando tatuagens que ficam imprimidas na internet e quem quiser e souber montar esse quebra-cabeças, nos tem na palma da mão.

E é tudo tão fácil que a curiosidade nem precisa fazer esforço, basta só um minuto ocioso com o celular na mão que pimba, lá vai a gente de novo abrir o Instagram daquela pessoa. Será que ela imagina que fazemos isso? Imagina que tem alguém, ou alguéns, que está olhando suas fotos, julgando seus amigos, vendo quem curte? Ou essa pessoa vive a vida como a Beck, postando absolutamente tudo, sem nem imaginar que tem alguém do outro lado?

Por mais conflituosa que a história de “Você” seja, ela nos expõe uma verdade inconveniente: somos todos stalkers. Em graus e níveis diferentes, com mais ou menos curiosidade, com mais ou menos paciência, e com mais ou menos habilidade. E isso é uma loucura.

Fuxicar a vida alheia pode parecer intrigante no começo, mas no final das contas nos traz apenas uma coisa, sofrimento. Nos coloca num lugar de comparação, de julgamento, de inferioridade ou superioridade, e principalmente de insegurança, quando percebemos a completa falta de controle que temos sobre a vida do outro. Não tem nada pior que ver a pessoa que você gosta com outra. Ou que seu crush te deu perdido e está numa festa. Ou que ele saiu para jantar e você não sabe com quem. E a pior parte disso, é que você vê por que, por que foi atrás, por que procurou. Às vezes eu acho que o sofrimento é pior quando nos mesmos o causamos.

Pra mim a coisa mais importante que a série me mostrou é que isso tudo é uma doença do mundo moderno. Uma doença mental que pode ser muito grave. Pessoas sofrem por isso, pessoas causam sofrimento por isso, e de alguma forma se tornou uma epidemia global. Quantas vezes eu já sofri ou vi amigas sofrendo, e por que passamos por isso? Temos que parar de achar que é normal. Temos que parar de achar que é permitido. Temos que parar de achar que faz parte. Temos que parar de ser expectadores da vida dos outros, e passarmos a ser apenas protagonistas da NOSSA própria vida.

Não sei vocês, mas eu certamente vou lembrar do Joe a próxima vez que sentir aquela vontade de fuxicar alguém.

Imagem: Reprodução / Netflix

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