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Muitas conquistas significativas foram obtidas no Brasil, neste início de século, que deram grande visibilidade às pessoas transgêneras. Sobretudo às nascidas a partir do fim dos anos 90. O significado do termo? São todas aquelas cujas expressões de gênero não se enquadram nos padrões socialmente pré-determinados.

transfobia

Tradução: Eu sou o que eu sinto, não o que você vê. Não sou uma piada.

O país absorveu pelas diversas mídias, e também muito pela coragem de homens e mulheres que colocaram a cara a tapa para viver plenamente sua sexualidade – sendo ouvidas e enxergadas – que a transgeneridade infantil e as múltiplas identidades de gênero fazem naturalmente parte da diversa estrutura psíquica do ser humano. E o SUS inaugurou, ainda de forma bem modesta, ambulatórios pelo país para atenderem às necessidades básicas dessa população.

Mas, mesmo com estas questões vindo à tona e reestruturando o entendimento da sociedade brasileira de o que significa legitimamente ser um homem ou ser uma mulher, há ainda uma tênue fronteira que separa as pessoas socialmente desconstruídas daquelas que ainda alimentam uma conduta agressivamente transfóbica, mesmo sem se darem conta. Mas já foi muito pior…

Já em nosso passado recente, como os anos 60, quando pessoas como o escritor e ativista trans brasileiro João Nery e a artista Rogéria destacavam suas questões de gênero a olhos vistos, não havia qualquer literatura que abordasse o assunto ou compreensão de seu valor e significado humano; mas sim, por todos os lados, apenas o ódio, a intolerância, o preconceito, incompreensão, deboche e ridicularização em todos os grupos sociais, famílias, escolas, empresas, universidades…

Ser transexual ou travesti era simplesmente algo abominável e pessoas que manifestavam essa condição eram vistas como deploráveis aberrações da natureza. E essa epidemia ideológica nacional não evoluiu muito até o fim do século XX, reprimindo, até hoje, condições legítimas de se construir um censo transparente da população trans.

Em primeiro de março de 2018, o Supremo Tribunal Federal determinou que não haverá mais a obrigatoriedade da conclusão de cirurgias de readequação sexual, de realização contínua de terapias de reposição hormonal com acompanhamento clínico, de laudos psiquiátricos, nem tampouco de longos e pesados processos judiciais para que transgêneros possam apenas retificar o nome civil.

A expressiva conquista foi fundamental para que quase 800 mil brasileiros passem agora a obter cidadania, e por uma razão tão banal: o direito imediato de requisitar, apenas no âmbito administrativo, um documento de identificação civil com prenome e gênero retificados.

A aquisição de um documento que representa a verdadeira identidade de quem quer que seja significa bastante. Até então, eram comuns aos transgêneros os sentimentos de humilhação, exposição, deslocamento, angústia, tristeza, aborrecimento, tensão, inconformismo. Ter um estilo de vida, uma imagem social e uma forma de expressão que destoam de sua documentação oficial… Tais circunstâncias, sem dúvidas, trazem muita dor e sofrimento físico e psicológico e comprometem drasticamente a qualidade de vida de qualquer um.

Mas há outra rotina que transtorna nossas vidas: aquela tal conduta transfóbica com a qual temos que lidar na rotina social e que costuma passar despercebida, ganhar suporte, e até ser repetida pela esmagadora maioria das pessoas cisgêneras (aquelas que estão psicologicamente alinhadas com o gênero que lhes foi designado ao nascer).

Portanto, listarei a seguir alguns dos sintomas mais comuns daqueles que sofrem da chamada transfobia aguda (preconceito contra as pessoas trans):

transfobia

Tradução: Se a diversidade te incomoda, você nasceu no planeta errado. Não sou uma piada.

  1. Tratar moças trans no masculino e rapazes trans no feminino;
  2. Dizer que estamos nos vitimizando (passei quase 40 anos de experiência cisgênera pra saber quem vitimiza quem);
  3. Afirmar que sofremos preconceito porque optamos por isso e, se quiséssemos, bastaria voltar atrás (será que se fazer passar por outra pessoa seria o politicamente correto?!);
  4. Induzir-nos a acreditar que tomamos uma decisão egoísta e que, definitivamente envergonha ou envergonhará aqueles que fazem ou virão a fazer parte da nossa vida;
  5. Revelar-nos que precisamos ser conscientes e contar rapidamente àquele paquera qual o formato da nossa genitália antes mesmo das apresentações, para não “enganá-lo” (ou vir a fazê-lo imediatamente pelas nossas costas);
  6. Repreender uma pessoa trans pelo uso do banheiro público relativo ao seu gênero social;
  7. Fazer-nos entender que devemos evitar nos expor demais para que não criemos situações de constrangimento social;
  8. Indicar-nos que não usemos determinados tipos de roupa pra não chamar muito a atenção (apesar da normalidade em vermos mulheres cisgêneras saindo de casa com apenas um top e um shortkini);
  9. Achar normal que nos rejeitem no mercado de trabalho ou que outros sejam agressivos conosco em espaços cisheteronormativos* (porque, tadinhos, eles não são obrigados a entender…).
Não existe idade ou circunstância de vida que dite se uma pessoa tem ou não o direito de se reconhecer como transgênera e iniciar sua transição física.

Ela é o único caminho para que tantas pessoas encontrem, finalmente, o seu equilíbrio emocional, psicológico e até mesmo físico (porque o corpo também responde quando a cabeça não está bem).

Quando a transfobia ecoa livremente e é aceita, alimentada, perpetrada, ou mesmo induzida em nosso redor, ela adoece a todos que se envolvem nela e, sem dúvida, é a gota d’água que ainda vêm induzindo mais de 40% da população trans brasileira ao sentimento de suicídio, não à toa.

transfobia

Tradução: A heterossexualidade não é obrigatória. Não sou uma piada.

O desrespeito, a exclusão, a falta de sensibilidade, de tato, consideração e humanidade no núcleo familiar, nos círculos de amizades, no ambiente de trabalho, na vida amorosa, são posturas que vão consumindo não só o corpo, mas a alma e o coração. Silenciosamente e aos poucos, dia após dia.

*Cisheteronormatividade: termo que designa específicos regimes e padrões de conduta a que a sociedade se rende em determinadas circunstâncias e eventos sociais, como a definição binária de gênero e a vigília em prol da expressão heterossexual humana.

Imagens: Daniel ArzolaI’m not a joke/No soy tu chiste


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?

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