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Naquele dia, Jéssica acordou com uma enorme vontade de mudar o mundo. Estava cansada de ver tanta tristeza, pessoas vazias de sentimentos e carentes de atenção. Então se arrumou como nunca havia se arrumado antes. Afinal, sempre acreditou fielmente naquele ditado de que a embalagem chama atenção e conta mais. Pegou as chaves do carro e saiu para trabalhar.

Chegou no trabalho toda animada e desejando bom dia para todo mundo. Recebeu elogios quanto a sua aparência. Trabalhou normalmente, tentou fazer coisas simples mas que não acreditava fielmente. Não acreditava nem que tais coisas eram simples. No fim do dia voltou para casa reflexiva.

Sobre máscaras, autossabotagem e suas consequências

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Continuou repetindo o ritual por uns bons dias até que finalmente sua ficha caiu: Jéssica só conseguiria “mudar” o mundo quando mudasse a si mesma e a maneira de olhar para ele. Não adiantava sorrir se por dentro só existia dor. Ela queria aparentar um bem-estar que não tinha. Nunca teve. Havia tanta pressão para provar a felicidade ideal, o sorriso padrão, as roupas estilosas, a alimentação saudável e a alma oca.

Jéssica se perguntou se havia alguma possibilidade de existirem pessoas que nasceram com a sina da infelicidade. Por mais que ela tentasse seguir o fluxo, olhar para frente e sorrir, ela se sentia vazia. Não queria culpar ninguém. Sua família a amava, seus amigos a apoiavam e ela tinha foco para seguir os seus sonhos.

Então, onde estava o problema? Certamente era com ela.

Jéssica começou a se isolar aos poucos das pessoas de seu convívio, mas essas pessoas nem notaram. Afinal, ela sempre conseguiu fingir muito bem seus sentimentos. Sorrir quando a vontade era chorar ou gritar. Todos os dias, ao voltar para casa, já no trânsito, Jéssica colocava um playlist de músicas calmas e voltava a refletir sobre a sua vida, suas atitudes, seus sorrisos vazios e já chegava em casa surtando, com pensamentos a mil por hora. Era tão orgulhosa que não conseguia pedir ajuda para seus irmãos ou pais. Pensava que, por não morar mais com eles, não tinha esse direito e preferia continuar passando essa imagem de mulher forte e independente.

Um dia, depois de uma crise de choro, Jéssica correu para a cozinha e procurou a caixa de remédios para dor de cabeça.

Era um remédio forte que seu ginecologista tinha indicado porque achava que era culpa dos hormônios. A dor era tanta que ela esqueceu de quem era, de onde veio. De repente não fazia sentido estar ali. A mulher baixa, de cabelos castanhos claros e olhos de jabuticaba se sentou no chão, apoiada na parede da cozinha com a caixa de remédios na mão. Só alguns comprimidos.

Um, dois, três, quatro… sua visão ficou sem foco no oitavo, logo depois que a cartela do remédio caiu de suas mãos trêmulas. Perder os sentidos, aos poucos, foi uma experiência de autodescobrimento porque ali Jéssica fazia sentido. Ali o mundo não era rosa e empacotado. Ali era difícil de compreender. Assim como toda a sua vida feita de caminhos tortos, aquela realidade era compatível com o que ela sentia.

Aquela realidade foi onde Jéssica descobriu que o mundo que ela queria mudar só existia em filmes do Woody Allen e nas novelas globais.

Foi ali, estirada no chão, passando mal, vomitando, com a cabeça explodindo de dor que Jéssica conseguiu largar o seu orgulho de lado e ligou para os seus pais contando o que estava acontecendo e pediu ajuda.

Hoje, Jéssica faz todos os tipos de terapias possíveis. Não acredita em Deus mas acredita em energias, por isso tenta buscar sempre energias boas para sua vida. Jéssica aprendeu na dor que autossuficiência é sinônimo de depressão. Depressão que era compatível com tudo o que ela sentia.

Ela não poderia salvar o mundo antes de se salvar. Levou um tempo para entender que precisava olhar para si mesma antes de tudo. Foi longo o exercício diário de encarar a si mesma no espelho e aprender a amar a mulher que ela se tornou. E que alegria foi descobrir que não era mais a mesma pessoa quando se olhava no espelho. Se olhar no espelho e não se reconhecer, mas amar a pessoa que está vendo ali.

Jéssica entendeu que mudar é preciso, que pensar e sentir é evoluir.

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Ela não precisava pertencer ao mundo, não precisava se torturar com cobranças desnecessárias. Jéssica pertencia a si mesma e isso bastava.

Texto escrito em parceria com a linda da Ana Beatriz Serafim. Paulistinha que por um tempo resolveu pousar em terras mineiras e me deu o prazer de conhecê-la.

Imagem: Pexels


E o que vocês responderiam a essa pergunta aqui abaixo, feita por uma de nossas usuárias do Clube Superela?

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