Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Lhe fiz um pedido indecente ontem à noite. Tu aceitou logo de cara, adora pedidos indecentes. Lembro de você deitado na minha cama de solteira, implorando para eu deitar também.

“Num cabe, menino” disse eu já tirando a blusa. Tu respondeu sorrindo “cabe sim, sempre cabe”. E coube. A gente sempre deu um jeito de se encaixar, abraçar as partes sobressalentes um do outro.

Mas já demos o que tinha que dar.

E como demos, né amor? Não posso mais te chamar de amor, esqueci. Também não posso te apagar de mim, meu bem.

Você não está tatuado na minha pele, você foi esculpido na parte do meu corpo que faz meu estômago revirar. Foi a primeira estátua que eu resolvi cultuar. Sempre de joelhos, daqui debaixo eu tinha a visão do paraíso.

“Quer que eu te carregue?” você dizia toda vez que eu falava que estava cansada. Eu fingia. Meu maior vício era te escalar.

Sentir cada formato dos seus músculos, a sensação do seu corpo no meu enquanto eu me arrastava, colocando uma perna de cada vez, esperando você me segurar bem, envolvendo o seu pescoço com os meus braços, teu cheiro subindo, meu entorpecente.

E tua mente? Sempre jorrando conhecimento aos meus ouvidos, me fazendo transbordar. Sempre derramando interesses e ambições, me fazendo pingar.

Sempre banhando as pessoas ao seu redor com um cérebro afiado, me saciando. Amor? Tua mente me excita. Sim, “me excita”, no presente mesmo. Tá aí um fetiche que nunca sairá de moda. Recita Rupi Kaur só mais uma vez?

Agora eu quero falar só com a sua boca.

Eu comecei esse namoro com ela, acho que é válido terminar também. Lembro de te ver chegando nos fundos daquele lugar que a gente costuma trabalhar. Foi tesão à primeira vista. E como se não bastasse essa boca, também tem esse sorriso. Morri por ele outro dia.

Com o passar do tempo eu fui dando mais credibilidade para essa sua boca. Habilidosa de tantas formas. Sempre me tirando o fôlego, me calando da forma e na hora certa.

É justo dizer que cada parte do meu corpo sentirá falta dela. Você já cravou seus dentes e sentiu meu gosto de muitas maneiras. O corpo tem memória, teu toque tá registrado no meu DNA.

Mesmo no fim, olhe só, tu me acompanhou no meu último desejo indecente. Sentado na banheira meio cheia, meio vazia, de regata branca e com olhar sério, mas a boca, como sempre, beirando um sorriso.

A gente fica se encarando, dessa vez eu de cima e tu de baixo, me fazendo deusa mais uma vez.

Cabelo afro, rosto esculpido, lábios carnudos, sobrancelhas grossas, olhos penetrantes, daqueles que tu fica com medo de deixar seus segredos expostos na sua mente.

Corrente no pescoço e brinco na orelha, é lindo te ver nu e vestido só com isso. Sua nudez é o meu paradoxo preferido. Braços expostos e apoiados na banheira. Se segurando para não cair ou para não vir atrás de mim?

Deixa eu tirar uma foto sua? “Esse é teu pedido indecente, morena?” É sim, digo meio encabulada. Você já viu meus seios pequenos, minhas marcas femininas e tudo o que um dia eu já tive vergonha, coisas que não dá para ver em um corpo sem roupas, tu já me viu nua de muitas formas. E ainda fico vermelha com um simples “morena”.

Eu preciso de uma foto sua, amor.

E veja, qualquer foto sua é indecente aos meus olhos. Você pode estar todo vestido, recatado como uma freira, que eu te cobiçarei do mesmo jeito.

E se esse é para ser o nosso fim, agora, nesse banheiro, com azulejo branco por todo lado, com você sentado nessa banheira meio cheia, meio vazia, se segurando, com o maxilar firme, me encarando, com a luz do entardecer nos banhando e nos deixando pouco a pouco, é esse instante que eu quero lembrar. Nos despedindo antes que a luz deixasse de nos banhar.

Tu sorri. Eu tiro a foto. Eu sorrio. A gente se encara mais uma vez. E, por uma última vez, me ajoelho para uma última prece. Quem sabe a gente não se encontra mais uma vez nos “achados e perdidos” né, meu bem?

Imagem: Unsplash

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