Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Ontem, Annie chegou normal da escola, aparentemente feliz. Com seus não muito mais que um metro de altura, pele da cor da canela, grandes e brilhantes olhos de jabuticaba, dentinhos bancos enfileirados sempre a mostra entre uma colocação e outra.

Depois de contar um pouco sobre o dia, jogos e brincadeiras e tomar o lanche era hora de se preparar para dormir. Temos nosso ritual: coloco Banda Mar ou Palavra Cantada no Spotify, me sento ao lado do box de vidro enquanto conversamos e lembro de cada pedacinho que deve ser ensaboado para tirar a canseira, suor e terra do dia.

Ainda na hora do banho deixei ela alguns segundos no chuveiro sozinha e quando voltei para lavar seu cabelo ela estava chorando, quietinha, mas tão sentida… tentando esconder as lágrimas junto com a água que caía. Parecia exausta.

Por alguns segundos fiquei completamente sem saber o que fazer. Quanta dor cabe em um coração tão novo?

– O que aconteceu, Picco?

Silêncio e soluços abafados

– Picco, porque você está chorando?

Superar brigas e seguir em frente, você pode! 1

Esfregava agora as pequenas mãozinhas nos olhos para me olhar. Meus 1,64m agora se tornavam poucos milímetros.
– Meus amigos mãe, eles saíram da minha sala e a Bruna não quer brincar comigo… Ela não quer brincar comigo mãe e nós combinamos tanto! Se ela vai de trança, eu também vou de trança… Sabe?
– Mas você não brinca com outras crianças?
– Já estou cansada delas mãe, a Bruna é minha amiga e não quer mais ser… Agora estou sem amigas!
– Sinto muito por se sentir assim Annie. Às vezes ela pode estar passando por alguma coisa que não sabemos. Que tal amanhã você brincar com uma criança que nunca brincou antes? Fazer uma amiga nova?
– Mas nenhuma outra usa tranças como a Bruna!
– Às vezes em quem é diferente que achamos ótimas companhias… Sinto muito que esteja tão triste!

Eu a abracei toda molhada bem menos apertado do que eu gostaria. Dei um beijo no rosto, sorri com expressão de fortaleza.

– Vai passar! Que criança você ainda não brincou? Me conta! Vamos pensar juntas em quem pode ser super legal?

Superar brigas e seguir em frente, você pode! 2

Ela sorriu aliviada, sorri junto ainda com cara de fortaleza. Sabe, eu nunca me dei bem na escola com colegas, nunca soube lidar com rejeição de amiguinhos.

Eu era uma criança de cabelo estranho, óculos, nerd que as professoras amavam e as crianças eram capirotescas. Não sabia lidar, mudei várias vezes de escola, tinha poucas amigas às quais eu era super leal. Aprendi a bater, me tornei uma bullye… Ser bullye era muito mais popular que ser a infeliz criatura que “não se encaixa”. Meu coração desmanchou ali na água do banho da minha filha, com a minha impotência.

“Mas essa é a história dela, não a minha” repetia para mim mesma quase em looping infinito.

Acontece que Annie, minha filha de 4 anos, tem a leveza que muitas vezes a gente perdeu. Se nos permitíssemos chorar o término de um namoro, uma briga com a melhor amiga, um fim qualquer e deixar isso para trás, a vida seria muito mais leve… Nossa força não está em não chorar, mas sim em reconhecer a dor e seguir em frente.

No dia seguinte ela voltou feliz da escola, perguntei se tinha dado certo brincar com a amiga nova.

– Não brinquei com uma, brinquei com TRÊS crianças novas e elas eram muito legais, não sei como não sabia disso antes!

Annie com 4 anos é muito mais corajosa e ensina muito mais que eu com 31.

Que bom.

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