Quais desses temas você mais curte? Vamos fazer uma seleção especial pra você!










O que você procura?

Uma cena horripilante de um documentário sobre partos me roubou a noite de ontem. Pouco tempo atrás, fui apresentada ao termo ‘violência obstétrica’. Nunca me aprofundei sobre o assunto e, felizmente (sim, porque ignorância de vez em quando pode ser uma benção), nunca tinha visto/presenciado uma, então só sabia o geralzão da parada. Até ontem.

Em ‘O Renascimento do Parto 2‘ (disponível na Netflix), uma das primeiras cenas mostra um caso de violência obstétrica. Apesar de lindo e mega importante, esse documentário despertou em mim sentimentos horríveis por causa desse troço.

Eram depoimentos de mulheres que tiveram os piores partos de suas vidas. Foram forçadas a adotar procedimentos que não queriam, sentiram dor extrema, foram humilhadas pelos médicos, sofreram sequelas de decisões precipitadas e desnecessárias da equipe do hospital e por aí vai.

Agora, vamos fazer um pequeno exercício?

Eu sei que muitas de vocês pensam: “Eles são médicos. Estudaram anos e anos para isso. São especialistas no assunto e, por isso, sabem muito bem o que fazem.”

Cara, não discordo MESMO disso. Aliás, se tem uma pessoa que quer ter um parto num hospital massa, cercada por aparelhos e especialistas que vão cuidar de mim e do bebê, sou euzinha. Porém, pensa no seguinte cenário:

A dor do parto. Um momento único. Você não pode escolher a posição que quer ter o nenê. “Tem que ser deitada”. As contrações se tornam cada vez piores. Um médico praticamente monta em cima de você e empurra sua barriga para que o nenê saia. Você urra de dor. Ele de reprime. Fala que não precisa fazer tanto escândalo. Joga na sua cara que “quem quis parto normal foi você, meu bem. Agora aguenta”. Passaram-se horas (muito mais do que os médicos gostariam) e a decisão é pela episiotomia. Você e seu bebê estão bem, vale observar. Era só uma questão de tempo. O tempo de vocês. Mas foi no tempo deles.

violência obstétrica

via Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos, da Fundação Perseu Abramo

E aí, agora sim, eu volto a bater nessa tecla, mas com outra perspectiva: isso não rolou com você na rua, num beco e nem na sua casa, mas sim no hospital. Por autoridades da medicina. Eles tomaram decisões que você não queria, te levaram para uma cesárea sem precisar, fizeram uma episiotomia tão porca que as sequelas te assombram até hoje e por aí vai.

No fim, tudo o que importa é: se a mãe e o bebê estiverem vivos no final, ok, não houve nenhum problema. Quem consegue brigar com isso, né?

Mas, vamos do começo. O que é a violência obstétrica?

Violência obstétrica é o abuso físico, sexual e/ou verbal, intimidação, coerção, humilhação e/ou ataque sofrido por mulheres que estão em trabalho de parto. Esse ato de violência pode ser feito por médicos, enfermeiras, obstetras,  parteiras e por aí vai.

Resumindo? É sempre que uma pessoa em trabalho de parto sofre maus-tratos ou desrespeito de seus direitos, inclusive sendo forçada a procedimentos contra sua vontade, nas mãos do pessoal médico.

Entenda: existe uma diferença GIGANTESCA entre ser submetida a uma cesariana porque não se teve a dilatação esperada, porque o bebê está em sofrimento fetal, porque o mesmo não encaixou da forma certinha, e ser FORÇADA a ter uma.

Muitas mulheres (inclusive eu, juro) acreditam que o parto natural é doloroso e desnecessário, assim como muitos médicos também. Ocorre que o erro começa quando esses profissionais não conversam e explicam os perigos que envolvem esse tipo de procedimento, ou os benefícios de um parto natural. Isso tudo porque a triste realidade é que cesarianas são mais lucrativas e rápidas para o hospital. E aí, minha amiga, o parto, aquele momento tão único e especial da sua vida, torna-se um negócio.

Além disso, uma vez que a futura mamãe é informada sobre os riscos de ter uma cesariana ou um parto normal, ela pode decidir SIM qual quer ter. Se não estiver acontecendo nada de errado com ela e o bebê, é preciso seguir com os planos dela. Até porque, qualquer procedimento cirúrgico realizado sem consentimento do paciente é um problema ético, médico e jurídico.

Relatos

violência obstétrica

via Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos, da Fundação Perseu Abramo

Essa parte é um pouquinho pesada. Quem costuma ser sensível para essas coisas não precisa seguir daqui pra frente, ok? Mas preciso dar voz a essas mulheres. Preciso contar o que algumas delas sofreram para que todas as moças desse mundo possam se resguardar com relação a esse tema.

Os casos foram retirados de um artigo científico produzido em julho de 2017. Foram entrevistadas mulheres de 18 e 36 anos, com escolaridade de 4 a 16 anos, em união consensual/casadas e com as rendas variando entre
menos de um salário mínimo a oito salários mínimos. O salário mínimo, na época em que o estudo foi realizado, era de R$ 724,00.

Aí vão algumas de suas experiências:

“Ela (profissional) continuou me recriminando pelo número de filhos que tenho. Ela ficava dizendo: “ela ainda quer mais.””

“O médico agiu com ignorância. Ele me disse que eu não estava pronta para dar à luz”

“A técnica de enfermagem me disse que, se eu continuasse gritando, ela me deixaria
sozinha.”

“O médico me disse para parar de gemer, pois esse era um momento mágico e eu estava
tornando-o doloroso, passando o sofrimento para quem estava ao meu redor.”

“O médico me chamou de safada. No momento do toque, ele disse “depois do seu sexto filho, você não poderia sentir dor”. A pessoa pode ter 10 filhos, mas ela sempre sentirá dor. Ter seis filhos não é motivo para não sentir dor”.

“Quando reclamei da dor dos pontos, o técnico disse: “você tem que sentir a dor, e ainda vai sentir mais.””

“O médico com gritos, puxões e ignorância, me disse para ficar quieta e abrir minhas pernas, caso contrário eu machucaria a criança.”

E, para quem acredita só vendo, aí vão alguns relatos que encontramos pela internet afora:

E para quem quiser se aprofundar sobre o assunto, aí vai um documentário super completo sobre o tema:

E um TEDx sobre violência obstétrica:

Enfim…

Todas as mulheres, durante o parto, merecem empatia, carinho e cuidados. É um momento extremamente lindo para ser desperdiçado e até mesmo ‘amaldiçoado’ pela violência obstétrica e seus autores. Futuras mamães, fiquem de olho nisso. Estudem. Procurem por profissionais de extrema confiança e credibilidade. Peçam por referências. Cuidem se si mesmas e do bebê de vocês para que esse momento da chegada seja lindo, combinado?

Imagem: via Livia Carvalho – Revista Pólen

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