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ATENÇÃO: este texto contém gatilhos!

Fui vítima de violência doméstica, física e psicológica, mas fiz o que todas que passam por isso precisam fazer: um boletim de ocorrência.

Por mais que tenha sido dolorido e difícil, eu denunciei, fiz exame de corpo de delito e faço questão de contar minha história para vocês. Talvez esse relato possa dar coragem para aquelas que ainda não conseguem denunciar por medo, vergonha e ameaças.

Eu, Fátima Mourah, criadora Chá de Lingerie e das Artes Sensuais no Brasil há mais de 25 anos, fui vítima de violência doméstica, física e psicológica.

Eu conheci meu ex-marido em 2001. Na época eu despontava na mídia como Personal Sexy Trainer e ele era promoter de uma casa noturna. O que nos aproximou foi a dança, afinal ele dançava muito bem. Por ser um homem atraente, era bastante assediado. Mas, eu lidava com isso tranquilamente, desde que ele não retribuísse. Passamos a morar juntos após quatro meses de relacionamento. Ele não tinha um bom relacionamento com a família dele.

E então ele se tornou meu assessor

Nosso relacionamento era tranquilo, trabalhávamos bastante. Principalmente porque o Chá de Lingerie estava começando e não havia outras profissionais nesta área.

Mas como todo homem inseguro e baixa autoestima, ele adorava provocar admiração nas mulheres. Fazia questão de chamar a atenção. O que me incomodava bastante. Geralmente nossa discussão era por falta de respeito, da parte dele, o que ele sempre negava.

Em uma dessas discussões ele se tornou bastante violento, chegando a quase me enforcar. O que me assustou bastante, pois eu nunca tinha passado por uma situação parecida. Mas aí vinham as desculpas com rosas, cartões e a famosa frase “Eu te amo”. E eu não denunciei, não fiz nada. Mas ali estava o primeiro indício do que viria a acontecer.

Fora isso ele era bastante carinhoso, lembrava de datas importantes como quando nos conhecemos e quando fomos morar juntos. O que é bastante raro por parte dos homens.

Tudo ia muito bem. Até ele jogar charme para uma cliente e eu o dispensar.

Ele passou a trabalhar com o irmão e começou a mudar. Ele tinha voltado a falar com sua família e eu já não era a única pessoa na vida dele.

Ele fez uma grande amiga no trabalho, e eu tinha deixado de ser sua melhor amiga.

Ele já não precisava mais de mim, da minha amizade como antes, quando ele não falava com seus irmãos.

O primeiro sinal que havia algo errado foi quando eu voltei de Recife, de um curso que fui ministrar e trouxe vários bolos de rolo tradicionais (com goiabada), e dei um para que ele levasse para os seus colegas de trabalho.

Quando ele viu que era de goiabada, ele nem me agradeceu. Suas palavras foram: “A fulana não gosta, de goiabada!”. Eu na hora respondi: “Quem é essa? Eu não faço a mínima ideia de quem seja, portanto se ela não gosta, ela não come”. Ele virou para mim e respondeu: “Eu divido o meu com ela, que é de doce de leite”. Eu falei “Ok”.

Só que aquele comportamento me levantou uma lebre, afinal eu trabalho com isso. Mas fiquei na minha.

Mas sempre que ele chegava do trabalho ele fazia questão de falar o que aconteceu no dia, o que os dois conversavam, inclusive que ela vivia reclamando do marido para ele, que ela tava ensinando o trabalho para ele, enfim, ele só falava dela.

Sem contar que tinha dias que ele chegava bravo descontava sua raiva em mim. Era super grosseiro, querendo arrumar confusão.

Aí eu comecei a desconfiar, até porque ele começou a ficar mais vaidoso, se cuidar mais. E eu vejo isso diariamente com a minha profissão.

Uma vez ele provocou uma discussão comigo e disse que se eu continuasse tratando ele mal, ele iria se abrir para uma nova relação.

Eu simplesmente disse: “Oi? O que tá acontecendo com você? Você conheceu alguém?” Ele negou. Mas como sempre, tentou jogar a culpa em mim. Eu cheguei até a começar a acreditar que eu não estava o tratando bem.

Comecei a fazer terapia, até para entender o que estava acontecendo. Por mais que eu lide com isso, é estranho quando o assunto é com você.

Ele foi ficando cada vez mais violento e sarcástico.

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Durante a semana muitas vezes me ofendia e no final de semana ele mudava da água para o vinho. Tornando-se um doce. Mas sempre falando da amiga do trabalho

Uma noite já era quase meia noite, essa amiga ligou dizendo que estava no hospital por ter tomado a vacina contra a febre amarela. Eu perguntei por que ela tinha ligado para ele e não para o irmão dele e até então chefe dela? Ele respondeu que ela não poderia ligar, porque a esposa do irmão não gostava dela. Dizia que ela se insinuava para ele (palavras do meu ex).

Eu na hora perguntei se ele não iria até o hospital. Ele disse que ela estava com o marido dela e perguntou por que eu tava falando aquilo.

Eu respondi que se fosse uma amiga minha eu iria com certeza. Só por isso.

O tempo foi passando, ele foi ficando cada vez mais grosso e me ofendia.

Muitas vezes eu não podia perguntar qualquer coisa que ele já me agredia com palavras. E eu sempre perguntando o que estava acontecendo, se ele tinha conhecido alguém e ele negando. Aquela situação foi me deixando cada vez mais triste. Um homem que um mês atrás me enviava mensagem diariamente, dizendo me amar.

Tinha algo muito errado.

Um dia ele veio pedir para que eu o ajudasse a mudar seu estilo de roupa, porque sua amiga, disse que ele estava sempre com as mesmas roupas. Eu lhe disse: “Você tem roupa para não repetir por dois anos seguidos. Você está fazendo isso para agradá-la?”

Lógico que a resposta foi não.

Diante de tantas evidências, eu só poderia desconfiar que eles tinham um caso.

A situação foi ficando cada vez mais insustentável e eu acabei entrando em depressão. E para a minha sorte, o Dr. Paulo Geraldo Tessariolli me ajudou muito nesse processo.

Embora eu estivesse sempre perguntando se ele tinha alguém, ele negava. Tinha hora que ele estava um amor e tinha hora que ele estava um cavalo.

E mesmo que a nossa vida sexual estivesse mais intensa do que antes. Ele foi ficando cada vez mais grosso e mais distante. Até que no Réveillon, estava a sós com ele tomando champanhe, ele revelou que estava tendo um caso. Sim, ele foi cruel.

Naquela hora eu travei, entrei em choque. Segundo o psiquiatra, foi decorrente de tudo que vinha acontecendo.

Ali ele me detonou. Começou falar dela e disse que ela sabia quem eu era. O que me apavorou. Meu medo era que isso viesse a público devido ao meu trabalho.

Ele se aproveitou disso para me destruir, ele disse com todas as letras que queria acabar comigo em todos os sentidos. Mas que ele não ia sair de casa.

Eu completamente debilitada, entrei em depressão profunda, síndrome do pânico e burnout.

Ou seja, ele tinha destruído meu psicológico como ele disse que faria.

Mas ele negava que sua amante era a amiga do trabalho.

Ele chegou até me enviar uma foto fake com um diálogo dos dois, para despistar.

Diálogo esse que me expunha ao máximo para ela. Mas ele precisava protegê-la por ela ser casada.

A situação piorava e eu ficava cada vez mais anestesiada, devido a forte medicação que precisei tomar. Ele pisava em mim toda vez, a ponto de dizer: “Vamos ver se você é essa profissional que todos idolatram”.

Ali eu percebi que ele estava querendo acabar com a profissional, com a pessoa que o sustentou por 16 anos, pois ele era conhecido como o marido da Fátima Mourah. Ali eu vi que tudo o que ele estava fazendo era por insegurança e baixa autoestima.

Um dia eu arrumando as coisas que ele me pediu (eu tava bem surtada para ainda ser gentil com ele) achei o que seria metade de um chaveiro. Desses que ficava metade com cada um. Ali subiu meu sangue. E ele sempre falando da amiga do trabalho.

Até que na sexta-feira de carnaval, tivemos uma discussão que entrou madrugada adentro, porque eu disse que iria na empresa que ele trabalhava e eu ia ficar cara a cara com essa amiga dele, assim eu saberia o que tava rolando entre eles. Foi aí que ele me fechou em casa, confiscou meu celular, meu laptop, acordou minha filha para me convencer a não ir. E disse que me manteria trancada o tempo que fosse preciso. Mas eu não iria estressar sua amiga, porque ela tinha gastrite e não podia passar nervoso.

Eu já estava tão esgotada que olhei para ele e disse: “Vou fazer um café, você quer?”. Até dei risada depois.

Ao me dirigir a cozinha ele foi atrás de mim e me empurrou dizendo que não era para eu sair do quarto. Eu disse que ele iria me machucar, ele me empurrou mais uma vez contra os armários, até que eu fui pegar a cafeteira e ele torceu meu braço.

Não pensei duas vezes, peguei o celular que havia escondido e chamei a polícia. Veio duas viaturas. Foi constrangedor. Eu desci e fui falar com os policiais, que me orientaram a ir direto na Delegacia da Mulher.

E aí ele quis conversar.

Queria que eu esquecesse tudo o que ele havia feito e as agressões psicológicas que cometeu contra mim.

Só que minha filha gravou toda a discussão e as ofensas que ele direcionou pra mim.

Quando ele foi trabalhar, eu fui para a Delegacia da Mulher. Passei meu dia inteiro lá e depois no IML para fazer corpo de delito. Foi horrível e deprimente, mas necessário. Sai de lá e precisei ligar direto para o psiquiatra. Fiquei muito abalada psicologicamente.

Quando cheguei em casa ele tinha ido embora com medo de ser preso.

Conversamos após uma semana do ocorrido, porque tinha muita coisa dele ainda em cada. Ele se fez de amigo, pediu perdão, mas relatou que a casa dele estava quase pronta.

Ou seja, ele premeditou tudo. Ele aproveitou a agressão para dar uma desculpa e sair de casa.

Depois ele confessou que sua intenção era realmente acabar com a minha autoestima e meu trabalho. Tanto que ele sugeriu que continuássemos mantendo a aparência para não ficar mal para mim. E eu cheguei a acreditar nisso.

Até que no início desse ano, eu já não aguentava mais as mentiras dele, a tal amiga me ligando. Até que falei para ele que ia abrir e contar tudo. Foi quando novamente ele me ameaçou dizendo que se eu o prejudicasse e expusesse sua amiga, ele acabaria comigo e com minha carreira.

Diante dessa ameaça, levei o laudo do IML, atestando a agressão física e o laudo do psiquiatra atestando a agressão psicológica para a delegacia.

Eu ia abrir tudo isso no programa SuperPop, já tinha gravado e quando cheguei para entrar ao vivo soube que ele tinha ligado e ameaçado a emissora.

Conclusão: coincidentemente minha pauta caiu.

Diante de tudo que passei, resolvi contar tudo para vocês. Falar diretamente com você que tem vergonha ou medo. Denuncie!

Nada é pior do que ver sua saúde mental e física ir embora aos poucos.

Por mais dolorido que seja, eu era a vítima. E não tenho que ter vergonha de pedir ajuda.

Eu ajudei muitas mulheres, mas tinha que me ajudar também. E fiz isso denunciando.

E me abrindo para servir de exemplo, para aquela mulher que não denuncia por medo.

Trabalhar com relacionamento e ser conhecida no ramo não me blinda de ser agredida.

Depois desse episódio, recebi um convite da Dra. Carla Martins, Presidente da Rede Internacional de Excelência Jurídica do Estado de São Paulo e do IBEF (Instituto Brasileiro Do Espaço Futuro) para fazer parte do projeto do IBEF: Reféns da Violência com a palestra DIVAS, DIGA NÃO À VIOLÊNCIA.

Imagem: Pexels

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