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Há um tempo atrás escrevi sobre meu desagrado com quem se limita a consolar os outros com o fadado “não fica triste não”. E entendo o bem querer de quem diz, mas é inegável que sofrer faz parte do que somos e que deve ser respeitado além de compreendido.

E dessas nuances sobre pessoas, lendo “A menina quebrada” da Eliane Brum, me fiz um adendo sobre uma velha amiga: a depressão.

Também conhecida como a doença do século.

O que me chamou atenção foi o alerta que ela fez sobre ser um problema social que estamos ignorando entre bulas de remédios. O enorme aumento de pessoas, cada vez mais novas, que são diagnosticadas sem, de fato, serem ouvidas, que são medicadas e silenciadas de um sofrimento que nem sempre é causado somente por uma deficiência no organismo.

Fez muito sentido visto que mesmo entupidas de fármacos, algumas pessoas nunca superaram a doença.

Não se fala, nem se debate sobre, as dores psíquicas, algo profundo demais pra um mundo que vive e INSISTE em viver no raso. É correria demais, é caro demais, é tudo caótico demais pra olhar pra dentro. E é aí que entram as medicações como cura milagrosa (e perigosa) pra quem a cada dia perde um pouco da fé na vida e isso nada tem a ver com religião.

São dores da complexidade do nosso ser que quase nunca dito, não acho que seja por mal, mas nada que deixe espaços de silêncios tensos entre conversas são assuntos bem vistos num mundo onde somos educados que você pode, você quer, você consegue. É tão simples.

Já reparou que ninguém conta o fracasso sem logo em seguida divagar sobre seu grande triunfo? E isso não é um problema, o ponto aqui é a glamourização do sucesso.

Não conseguir o que se almeja, seja o que for relativamente fácil ou não, como se sentir feliz, é o fracasso inaceitável que acompanhado da culpa – tão nociva quanto – de que em algum momento você falhou.

Mesmo com o empoderamento do Setembro Amarelo, ainda existe um tabu gigante sobre algo extremamente recorrente. Acho lindo que muitos queiram estender a mão, mas fazer-se todo ouvidos, exige empatia que, inclusive, tem sido vendido feito água, mas pouco se põe em prática já que é tão comum e até automático, encaixarmos a dor alheia dentro dos padrões que julgamos digno de compadecimento. Do mais, estar desanimado só as segundas e terças-feiras. É texto sobre resiliência, mas tempo ao tempo e paciência para com quem sente é algo ignorado na era da luz.

Conscientização de como estamos lidamos com isso, principalmente se nos disponibilizamos de alguma forma a ajudar é tão importante quanto.

Muito do que dizemos soa inofensivo, mas pode ser gatilho. “Melhora essa cara”, “Não superou ainda?”, “Por que você não sai um pouco?” “Mas você tem tudo!” pra mim, são violências para com quem por muitas vezes tá na rua querendo estar em casa. Mas estar em casa – ou em qualquer lugar – sozinho ou não, é algo que beira o insuportável. O fato de estar (ou não) consigo e não saber lidar, pode ser avassalador. E a gente massacra constantemente tudo que faz parte do lado obscuro de ser.

depressão

Depressão não é “estar triste”

Caso a depressão não fosse tratada como algo que é dito baixinho, que gera olhares de piedade ou que faz as pessoas aceitarem isso como uma condição que logo será deixada para trás magicamente sem terapia (há quem ainda ache coisa de louco) tomando seis meses de antidepressivo, talvez não fosse tão assustador quando você descobre que a vida não é uma fórmula mágica. E que lidar com a própria existência ou o que você vai fazer dela, dói sim.

Eliane, entre uma coluna e outra, fala sobre melhoria da qualidade de vida indo contra a medicalização desenfreada que ajuda, mas ainda não é a solução. A buscar novas perspectivas e histórias pra si e evitar condenações de gente – e a própria – de quem não se encaixa socialmente. Sem receita fácil. Muito pelo contrário, mas sempre com o olhar mais peculiar e humano possível.

Percebi e compreendi – até porque também já fiz parte desse movimento – dos que aturam a muito custo a semana toda esperando o final de semana. E isso também não é um problema, não é isso. Quero frisar que a problematização de como se vive, é pra quem acha que tem algo errado, mas não sabe bem. Se sentir depressivo é um alerta da sua mente e/ou do seu corpo. Decifrar isso pode implicar em estancar feridas, conscientes ou não.

Só é errado – minha opinião – transformar constantes fugas em válvulas de escape pra esquecer o que se sente. As mil formas de aniquilar algo que você não exterioriza por algum motivo em particular.

Tem quem não sinta. Tem quem saiba lidar. Tem quem exploda quando nada disso mais ameniza e/ou faça sentido.

Quem tenta suicídio, nem sempre quer morrer, só que é a única forma viável que ela encontra de dar fim a uma dor e um sofrimento – a curto ou longo prazo – que aparentemente não tem solução ou remédio.

Quando aquele vídeo da Jout Jout sobre a falta que a falta faz viralizou, me emocionou não pela falta de algo ou de alguém, mas pela lembrança do vazio que me assombrou e ecoou dentro de mim por anos, das incansáveis tentativas de preencher essas lacunas, em que me machuquei e me esvaziei ainda mais buscando formas externas de me encontrar.

Foi só com muita terapia, e toda a maestria da mesma ao me ensinar a sútil diferença entre fazer terapia e estar nela. Empreender-me nessa não me garantiu nunca mais me sentir incompleta, mas me edificou a ponto de passar de alguém que se sufocava pra quem se aceita um ser totalmente vulnerável e dona de lados que não me agradam, mas fazem parte do que sou e aceito, por vezes muito relutante, de bom grado.

A frase que repito sempre de que, ninguém está sozinho, não é por costume, mas por realmente acreditar que ninguém seja tão diferente do outro a ponto de não ter sensibilidade suficiente para compreender a dor do próximo.

Então quando fico sabendo de mais uma vida interrompida me aperta o coração de qual seria a solução pra um problema que não escolhe ninguém a dedo, qual será que foi a falta ou excesso de quê que ultrapassou o sustentável.

Se vale a reflexão, fazer do mundo um lugar menos agressivo também é não nos agredir.

Compaixão sem seletividade.

Medicação não é a única salvação. E longe de mim querer dizer que tudo isso é simples. É tão variável quanto a infinidade de interpretações que a vida nos da. A tal “cura” não é nada fácil, mas humanamente possível.

Repito: Cê não tá sozinha não!

Imagem: Stocksnap

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