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Você já ouviu falar em Wabi-sabi?

Wabi-sabi é uma visão japonesa que tem sua origem no zen budismo, na qual encara-se a deterioração do tempo sobre os objetos como uma coisa boa, ao invés de descartá-los, ressaltam-se suas imperfeições. Com essa forma de vê os objetos, aquele prato com uma rachadura no meio não vai parar no lixo, pelo contrário, tem sua rachadura restaurada de uma forma que não corra mais o risco de desmontar em duas ou mais partes, mas que também seja vista e até ressaltada cada pequena fissura do objeto.

Para os seguidores dessa filosofia de vida, essa é uma forma de mostrar que o tempo passou e que muitas coisas podem sofrer essa ação, sem necessariamente serem descartadas, mostrando que mesmo com o passar do tempo as coisas não perdem seu valor. Muitas delas ganham até mais qualidade, a exemplo dos vinhos.

wabi-sabi - cerâmica

Vivemos na sociedade do descarte.

Apesar de estarmos visualizando os primeiros lampejos de reaproveitamento, em virtude dos ativistas e suas lutas pela preservação do meio ambiente, tanto no Brasil, quanto na maioria dos países do Ocidente, quanto mais novo melhor. Trabalhamos e buscamos gastar com os modelos mais caros e mais novos, últimos lançamentos de celulares, as TVs mais tops de linha, dentre tantos outros objetos que parecem que se estiverem na nossa casa depois de um tempo, em virtude do seu desgaste, farão com as pessoas pensem que não estamos bem, e precisamos mantê-los porque não temos condições de trocá-los.

Possivelmente você tem na sua casa aquele eletrodoméstico que você comprou mas já sabe que vai durar pouco, porque seguindo essa linha de pensamento (está velho, joga fora), a indústria muitas vezes se foca em aparelhos um pouco mais baratos, construídos com insumos sem muita qualidade, voltados para atender e expectativa de basicamente dois anos de uso. E então se joga fora porque perde a importância.

Mas até que ponto o descarte pelo tempo é uma visão saudável em relação a vida?!

O tempo passa para todo mundo, o tempo todo as coisas mudam, o tempo deixa suas marcas, será que não vale guardar e valorizar essas marcas? Muitos alegam que objetos que não têm valor afetivo podem ser descartados, afinal para que guardar uma coisa que está velha, feia e não tem nenhum valor na sua vida?

Mas será que ao tratarmos todas as coisas como superficiais algumas vezes não tratamos as pessoas assim também? Será que ao trocar o tempo todo os móveis e eletrodomésticos da casa por fissuras ou rasgos, não estamos nos olhando com uma visão de descarte com o passar do tempo? Em uma sociedade que descarta tudo, o que importa é estar sempre linda e jovem para o resto da vida.

Quantas de nós, com o passar do tempo, não sentimos o peso da idade e o preconceito que vem com ele? De ano em ano ficamos mais velhas, a cada década somam-se mais 10 anos de experiência ao nosso currículo de vida, mas isso não quer dizer que perdemos o nosso valor, o nosso brilho. Muito pelo contrário, quanto mais experientes, mais visão do todo adquirimos, quanto mais o tempo passa, mais o discernimento fica aguçado. E como sobreviver em uma sociedade que tem uma cultura de descartar tudo que passa pela ação do tempo?

Segundo os japoneses  a resposta vem da alma, vem do Wabi-sabi.

Ao nos valorizarmos, ao entendermos que envelhecer faz parte do processo de estarmos vivos, e que o passar do tempo é uma dádiva que devemos realçar, passaremos menos tempo preocupadas com a visão dos outros em relação ao nosso corpo e nossa aparência, e com isso seremos mais autênticas valorizando cada pedrinha encontrada na nossa longa estrada.

Valorizar a própria estrada da vida sem maquiagens, sem disfarces é o grande ensinamento japonês, não que tenhamos que abrir mão da nossa vaidade e muito menos vivermos com seres imutáveis esperando a ação do tempo, já que ela virá de um jeito ou de outro. Mas talvez o grande ensinamento seja não brigar tanto com ele, tratá-lo como aliado ao invés de inimigo, e se orgulhar das marcas que esse aliado deixa na gente, porque são através delas que construímos nossos caminhos.

O Wabi-sabi, usado e adotado por várias pessoas no mundo inteiro, vem provar a nós ocidentais que existe beleza sim na imperfeição, que somos imperfeitas e é isso que nos faz especiais e valiosas no decorrer da nossa estrada.

Imagem: Unsplash

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